Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Luxúria, por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

As pessoas continuam lutando por amealhar riqueza, não porque ela se vai transformar em consumo, mas porque ela é capaz de conferir poder ao detentor.

Economia Brasileira em Sete Pecados Capitais: Luxúria

por Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva

Michael Kalecki dividia os bens entre de luxo, por premissa, consumidos pelos capitalistas, e de consumo, também por premissa, destinados aos trabalhadores. Daí, derivam dois conceitos, o de trabalhador, que vive da venda de seu tempo, e capitalista, que vive da apropriação do trabalho alheio. Por ter usado essas premissas na concepção de ciclos econômicos baseados na acumulação capitalista, ele foi taxado de marxista, embora estivesse mais próximo de keynesiano, com a diferença de que Keynes dizia que a economia poderia estar em equilíbrio em qualquer nível de atividade, enquanto, para Kalecki, a economia capitalista jamais estaria em equilíbrio. A despeito de os ciclos permearem o pensamento econômico da primeira metade do século XX, a questão jamais foi esquecida pelos que defendem a intervenção do Estado. Ainda se fala em medidas anticíclicas, coisa que os ultra liberais rechaçam com todas as suas forças.

O Bem de luxo, em microeconomia ou em marketing, tende a ser definido como o que representam a exclusividade, aquele que “Você não pode ter”. Há alguns autores que falam em luxo acessível, o que é um contrassenso em essência. Os bens de luxo estão intimamente correlacionados com a concentração de renda. Quanto mais concentrada, maior será o número de itens fora da restrição orçamentária popular. Isso explica falas de Paulo Guedes ao reclamar que até empregadas domésticas estavam indo à Disney, ou querendo viver cem anos. Há ainda uma octogenária colunista carioca que publicou não poder voltar a New York, depois de o porteiro de seu prédio ter estado lá. No segundo caso, como mostra nossa política  perante a pandemia. A vida é um bem de luxo, como um Rolls-Royce ou uma bolsa Louis Vuiton que, caso a renda continuasse a ser redistribuída, luxo já não seriam. Luxúria é no bando de brasileiros que ficam no México por quinze dias, como quarentena, vacinando-se nos Estados Unidos. Tudo para não ficar na fila no Brasil. Tudo em nome da exclusividade, do “você não pode”. Se reter vacinas para obter lucro parece absurdo, resta saber por que nossos políticos aceitaram esse jogo. Ora, se ir ao exterior para se vacinar é exclusivo, a vacina em si torna-se um bem de luxo e, como tal, não se pode vulgarizar. Isso tem a ver com o mais exclusivo entre todos os bens, o poder.

Nos últimos quarenta anos tenho procurado modelos micro e macroeconômicos que considerem o poder como um bem , como motor para a concentração de renda, haja vista que o portifólio à disposição da sociedade é finito e a renda  almejada é infinita, ou seja, as pessoas continuam lutando por amealhar riqueza, não porque ela se vai transformar em consumo, mas porque ela é capaz de conferir poder ao detentor.

Nosso sistema político tem muita culpa nessa distorção moral do capitalista brasileiro. Com deputados por Estado, a representatividade é pífia. Deputados não se elegem para representar os habitantes de uma região, porém, de um grupo político, privilegiando a notoriedade, a capacidade financeira. Há mazelas econômicas cuja solução passa por profundas mudanças no sistema político. O voto distrital, por exemplo, impediria que deputados cariocas ou paranaenses, sem a menor ligação com o Estado de São Paulo, elejam-se  na esteira da notoriedade do pai, ou de uma figura mítica. O voto distrital, se não elimina as bancadas, pelo menos, as deixa mais representativas, talvez, impedindo que ruralistas se elejam pelo Rio de Janeiro.

Luiz Alberto Melchert de Carvalho e Silva é economista, estudou mestrado na PUC-SP, é pós-graduado em Economia Internacional pela Columbia University (NY) e doutor em História Econômica pela USP. No terceiro setor, sendo o mais antigo usuário vivo de cão-guia, foi o autor da primeira lei de livre acesso do Brasil (lei municipal de São Paulo 12492/1997), tem grande protagonismo na defesa dos direitos da pessoa com deficiência, sendo o presidente do Instituto Meus Olhos Têm Quatro Patas (MO4P). Nos esportes, foi, por mais de 20 anos, o único cavaleiro cego federado no mundo, o que o levou a representar o Brasil nos Emirados Árabes Unidos, a convite de seu presidente Khalifa bin Zayed al Nahyan, por 2 vezes.

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