Ecos de Davos e algumas breves reflexões, por Rodrigo Medeiros

Há uma percepção social crescente sobre os retrocessos no Brasil, apesar da Operação Lava Jato e do impeachment presidencial de 2016.

Walter Duerst - World Economic Forum

Ecos de Davos e algumas breves reflexões, por Rodrigo Medeiros

Não convém iniciar o ano com desânimo. No entanto, certa dose de realismo crítico se faz necessária. Janeiro costuma ser o mês no qual as pessoas buscam recarregar suas energias para enfrentar os desafios do cotidiano vindouro. Do ponto de vista das grandes discussões globais, com as inevitáveis repercussões regionais e nacionais, o evento anual do Fórum Econômico Mundial na Suíça, em Davos, traz sempre estudos e informações relevantes para a necessária reflexão. Curioso é o fato de que a fala do ministro da Economia brasileira, ao pregar o aprofundamento do neoliberalismo entre nós, o novo darwinismo social à brasileira, não parece ter chocado o País.

Em sintonia com o que vem mostrando o IBGE desde 2016, a Oxfam apontou em relatório aspectos do agravamento da concentração de renda e riqueza. Segundo afirma a ONG, “a desigualdade econômica está fora de controle. Esse grande fosso baseia-se em um sistema econômico sexista e falho, que valoriza mais a riqueza de um grupo de poucos privilegiados, na sua maioria homens, do que bilhões de horas dedicadas ao trabalho mais essencial – o do cuidado não remunerado e mal pago, prestado principalmente por mulheres e meninas em todo o mundo”.  A precariedade da rede de seguridade social brasileira deveria ser objeto de indignação e maior preocupação, pois apenas 30% dos municípios brasileiros têm instituições de assistência a idosos, sendo que a maioria está na região Sudeste. Não é preciso muito esforço intelectual para se compreender o real impacto no tempo da Emenda Constitucional 95, que versa sobre o teto dos gastos primários. Ruídos em torno de uma reforma administrativa já revelam a real intenção de desmonte de estruturas do Estado brasileiro.

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Seguindo o tempo do evento anual do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, The Economist Intelligence Unit lançou mais uma edição do ranking que avalia o desempenho democrático dos governos. O Brasil caiu nesse ranking, ficando o país classificado na categoria de “democracia falha”. Sobre o assunto, o jornalista Jamil Chade afirmou que “o declínio na pontuação média global em 2019 foi impulsionado por uma forte regressão na América Latina, que acabou registrando o pior desempenho do ano entre todas as regiões”. A fala do ministro da Economia brasileira, em Davos, não aponta no sentido de uma maior preocupação com esse assunto. Dificilmente o projeto econômico e social que ele tanto defende pode ser executado em um contexto de democracia aperfeiçoada, “plena”.

Recente relatório divulgado pela Transparência Internacional mostrou que o Brasil alcançou a sua pior colocação no ranking sobre a percepção da corrupção desde 2012. Em síntese, há uma percepção social crescente sobre os retrocessos no Brasil, apesar da Operação Lava Jato e do impeachment presidencial de 2016. “Apesar de o governo ter sido eleito com um discurso anticorrupção, mesmo durante a campanha eleitoral havia uma escassez de propostas efetivas para combater a corrupção por parte do candidato, agora presidente, Jair Bolsonaro”, pondera Guilherme France, coordenador da pesquisa no Brasil. “Ao longo do ano, vimos uma escassez ainda maior de reformas significativas e mesmo algumas ações que significaram retrocesso nessa pauta: investigações sobre ministros e membros do círculo político do presidente, interferência política em órgãos de controle importantes como a Receita Federal e Polícia Federal, condutas que acabaram não sendo condizentes com o discurso anticorrupção”, completa.

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Por fim, destaco a mudança de posicionamento institucional do Fundo Monetário Internacional (FMI). Em sua apresentação em Davos, sua diretora-gerente, Kristalina Georgieva, defendeu a elevação do gasto social para aumentar a inclusão e a coesão social. “Em todas as economias, um imperativo chave – e cada vez mais pertinente num período de crescente descontentamento— consiste em ampliar a inclusão e garantir que as redes de proteção social estejam de fato protegendo os mais vulneráveis, e que as estruturas de governo reforcem a coesão social”, apontou o FMI em seu relatório.

O apoio organizado em torno do aprofundamento do neoliberalismo no Brasil não apresenta sensibilidade para as questões acima levantadas. Não se pode esperar daqueles que se autodenominaram de “centro democrático” uma visão tão diferente do projeto neoliberal em curso, uma via chilena que dificilmente será realizada em um contexto de democracia plena. Será difícil manter um clima de otimismo no País ao longo do tempo e as instituições dão sinais de que não conseguirão deter a marcha da insensatez entre nós. Quem sabe o acaso nos surpreenderá logo adiante, tendo em vista a falta de vontade coletiva para construir uma grande nação?

 

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