Efeito Amistad, por Daniel Afonso da Silva

O assassinato da jornalista Alison Parker e do cinegrafista Adam Ward cometido por Vester Lee Flanagan na última quarta-feira 26 de agosto de 2015 no estado da Virgínia nos Estados Unidos transmite novamente ao mundo inteiro a temperatura da intensa e permanente tensão do contencioso racial norte-afro-americano.

Ao menos desde a morte de Michel Brown em Ferguson a 9 de agosto de 2014, fruto de um contratempo com um policial não-negro, a imprensa mundial noticia semanalmente e muita vez diariamente incidentes que aludem à controvertida condição dos negros nos Estados Unidos. Mesmo os mais céticos dentro e fora dos Estados Unidos começam a se convencer da gravidade, da complexidade e da instabilidade da situação.

Conquanto referido quase à exaustão, jamais se esgota, nesse sentido, a necessidade de reiteração da importância simbólica da chegada do afro-americano Barack H. Obama ao posto número um de seu país. Muito da diáspora africana e afro-americana, a partir de sua eleição de Obama à presidência dos Estados Unidos passou a alienar nele esperanças de superação dos constantes e pesados fardos do homem branco.

Esse assunto, que rememora questões essencialmente raciais coloniais e pós-coloniais, é hipersensível em toda parte. Abrange do cinismo de parte dos brasileiros que advoga em favor de uma democracia racial que jamais existiu nos trópicos ou nenhures ao paternalismo de europeus que prometem fazer os africanos da África e da diáspora “entrar na história” à violência concreta de parte dos norte-americanos que segrega impunemente os portadores de uma gota de sangue não-branco.

Exemplos desses constrangimentos se multiplicam instante a instante. Eles vão desde a constatação de que a maioria dos desempregados e presos e sub-remunerados e prematuramente assassinados tem a cor da pele negra na Europa e nas Américas até o vácuo da representatividade de homens e mulheres negros na vida pública e política de praticamente todos os países do dito Ocidente.

A identificação das razões profundas desses fatos impõe uma inegável e incontornavelmente reabilitação da ingrata, mas insistente, memória geral e particular norte-americana ou não do infame comércio de gentes e do odioso negócio da escravidão do passado – e do presente.

No belo discurso do presidente Obama diante da União Africana no último dia 28 de julho de 2015 em sua visita de estado ao Quênia e à Etiópia, ficara evidente o seu reconhecimento do peso dessa dura história sobre as costas cintadas do Atlântico.

Ao convocar o pastor e congressista John Lewis para abrir a sessão da White House do último 6 de agosto em homenagem aos cinquenta anos dos Voting rights Acts, ele, Obama, evidenciaria a força de seu engajamento diante do exame constante de consciência sobre a principal decorrência do após-escravidão que consiste na insistente segregação racial.

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O crime de Vester Lee Flanagan é totalmente condenável e absolutamente injustificável. Mas suas razões profundas estão direta e indiretamente relacionadas a esses fatores.

A grande imprensa brasileira e latino-americana tendeu a acentuar o ressentimento de Vester Lee Flanagan que o teria levado a reagir letal e desproporcionalmente à possível discriminação racial e sexual que sofrera da parte Alison Parker e Adam Ward.

A grande imprensa dos Estados Unidos e da Europa somado a isso não deixaria de aludir às raízes profundas da questão que remonta claramente ao peso do passado em todo imaginário e práticas dos norte-americanos.

Entretanto esse passado pesado malgrado presente conflagrado não parece tão evidente. Menos ainda no que diz respeito à longa tradição de resistência dos negros nas Américas e particularmente nos Estados Unidos desde ao menos os inícios do século 19.

Quando a escravidão era o pão de cada dia das nações, resistir era dos únicos e senão o único mecanismo de manutenção de alguma dignidade humana aos escravizados. Arrancados de suas terras em África e levados ao trabalho compulsório em todos os continentes e notadamente às Américas, os africanos promoveram diversas revoltas como expressão limite de sua resistência. Foi claramente a revolta de Santo Domingos, que resultaria na independência do Haiti, que abriria a caixa de pandora da maior parte delas.

No caso dos Estados Unidos, a onda de revoltas escravas teria começado efetivamente em 1800.

Nesse ano de 1800, um escravo de nome Gabriel Prosser teria organizado um ataque a Richmond, capital da Virgínia. No entanto, um sicofanta no interior do movimento levou a ação ao insucesso.

Em 1811 dezenas de escravos tentaram tomar de assalto New Orleans na Louisiane. Mas milicianos locais dissuadiriam a revolta.

Em 1822, Denmark Vesey, um ex-escravo e fundador da African Methodist Episcopal Church em Charleston, fizera um plano para libertar os escravos da Carolina do Sul e conduzi-los ao Haiti. Mas o projeto também não teria sequência.

O projeto de Nathaniel Turner talvez tenha sido o primeiro com “êxito” e imensa repercussão em solo norte-americano. Deu-se com o massacre de senhores de escravos na madrugada do dia 21 para o dia 22 de agosto de 1831.

Nathaniel conhecido por “Nat” nascera escravo na Virgínia a 2 de outubro de 1800. Posse dos irmãos Benjamin e Samuel Turner, acabou se impondo a ele o sobrenome Turner.

De inteligência e disposição remarcáveis, Nat Turner aprendeu a ler ainda menino e desenvolveu crescentes habilidades de liderança frente aos seus infelizes irmãos escravos. Com preceitos quase místicos e proféticos, ele então organizaria a revolta escrava do dia 21 de agosto de 1831.

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21 de agosto de 1831 era domingo de folga dos escravos locais. Após o almoço, Nat e mais seis outros escravos saíram da fazenda e se esconderam na mata. Por volta das duas da madrugada iniciariam seu plano. Entraram sorrateiramente na casa grande do grande do senhor e senhora Joseph Travis, localizaram e invadiram os seus aposentos e os assassinaram sem piedade.

Esse assassinato emblemático não seria o único. Ao menos outras cinquenta ou sessenta pessoas ligadas ao senhor Joseph Travis e sua opressão aos escravos seriam assassinadas nesse dia por outros escravos liderados por Nat Turner.

Nat Turner ficaria desaparecido por várias semanas até ser encontrado no dia 30 de outubro. Uma vez localizado, a Justiça local da época se fez à sua maneira. Turner seria enforcado e esquartejado a 11 de novembro de 1831 para servir de exemplo a não ser seguido pelos demais.

Mesmo assim a euforia nas plantações continuou imensa. Da parte dos escravos em resistir. Da parte dos senhores em ter mais e mais medo dessa resistência.

Alguns anos depois, o dossiê Amistad reacenderia toda a esperança dos escravos pela liberdade e todo o receio dos senhores de escravos em manter a escravidão.

Tudo começara em Havana a 1º de julho de 1939.

Após serem vendidos para aos espanhóis José Ruiz e Pedro Montes, os escravos originários da Serra Leoa, Cinqué, Faquorna, Moru e Kimbo foram ingressados na embarcação Amistad sentido Puerto Príncipe. Na madrugada, sob a liderança de Cinqué eles iniciariam a tomada da embarcação. Com habilidades adquiridas em guerras africanas nos decênios anteriores, eles se desvencilharam silenciosamente de suas galés e correntes e partiram contra os manejadores da nau.

Primeiro mataram o cozinheiro e tomaram as suas facas. Em seguida fizeram vítimas dois marinheiros responsáveis pela vigilância os lançando ao mar. Por fim assassinariam o capitão Ramon Ferrer.

Pelo desconhecimento de artes náuticas, os rebeldes apanharam Pedro Montes como guia. Eles queriam atravessar o Atlântico sentido sua natal Serra Leoa.

Dotado de profundas experiências de navegação, Pedro Montes acabaria ludibriando os rebeldes e permaneceria na cabotagem pelas Caraíbas até ter o Amistad encontrado pela marinha norte-americana e conduzido a Connecticut em New London.

Nos Estados Unidos foi aberto um processo para julgar o destino dos escravos presos. Mas por aqueles idos de meados do século 19, duas questões maiores foram impostas aos norte-americanos.

A primeira era saber se os rebeldes do Amistad deveriam ser devolvidos a Cuba como escravos ou, em segundo lugar, se do contrário deveriam ser libertos, vez que o tráfico negreiro estava proibido desde 1807 pela Inglaterra, e enviados de volta à sua África.

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Numa batalha legal que teria inclusive a participação do célebre advogado Roger S. Baldwin e do ex-presidente e também experiente advogado John Quincy Adams, os rebeldes do Amistad seriam enfim libertos em 1841.

Esse dossiê promoveria uma discussão mundial sobre escravidão e resistência. Movimentos antiescravistas seriam reforçados em toda parte a partir de então.

O notável filme Amistad produzido de Steven Spielberg de 1997 atualizaria o caráter popular que o incidente do Amistad tivera naqueles idos do século 19. Pelo que relata Marcus Rediker, o maior especialista do assunto, apenas cinco dias após a prisão dos rebeldes em Connecticut seria realizada uma peça de teatro sobre eles em Nova Iorque e, em seguida, multidões se reuniam na prisão para ver pessoalmente os rebeldes.

Cem anos depois, no interior dos movimentos por direitos civis dos anos de 1950 a 1970 nos Estados Unidos a memória do caso Amistad e de toda longa resistência escrava norte-americana e mundial seria fortemente reabilitada.

Os Black Powers e Black Panthers fariam renascer como heróicas figuras como Nat Turner e Cinqué, Faquorna, Moru e Kimbo. Os caminhantes de Selma, entre os quais os principais mentores do presidente Obama, também seriam embebidos da memória desses vultos da resistência escrava que a guerra de Secessão e a abolição da escravidão nos Estados Unidos havia simplesmente sufocado.

Nos últimos cinquenta anos, essa memória da resistência escrava povoa não apenas o insondável imaginário dos negros norte-americanos. Ela compõe as suas práticas cotidianas de modo explícito e sem receios.

O crime abominável cometido por Vester Lee Flanagan com os mais indecentes requintes de crueldade, vale redizer e reafirmar, é totalmente condenável e absolutamente injustificável. Mas ele remete à constatação do peso de um passado presente que os norte-americanos ainda não conseguiram totalmente superar.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no Ceri-Sciences Po de Paris.

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