Elitismo histórico e o caso Rodrigo Bocardi, por Cesar Calejon

Por que um jornalista experiente e instruído como Rodrigo Bocardi cometeria uma gafe como esta ao vivo?

Elitismo histórico e o caso Rodrigo Bocardi

por Cesar Calejon

Na semana passada, o jornalista Rodrigo Bocardi, apresentador do Bom dia São Paulo, da Rede Globo, deixou escapar um comentário sintomático considerando o nosso atual paradigma sociopolítico. Ao vivo, Bocardi e a sua equipe entrevistavam um jovem negro quando o jornalista disparou:

– O Leonel (entrevistado) vai pegar bolinha lá no (clube) Pinheiros, ou não? – indagou o âncora que estava sendo intermediado pelo repórter que fazia a cobertura no local.

Visivelmente constrangido, o repórter tentou disfarçar a questão do âncora da Globo e reformulou a pergunta:

– Você vai fazer onde a baldeação? – transmitiu ao entrevistado.

– Não, não, não. Não! Ele vai pegar bolinha no Pinheiros? Bolinha de tênis lá no Pinheiros? – insistiu Bocardi, que finalmente conseguiu ter a sua pergunta elaborada ao entrevistado por meio do repórter, que a essa altura já demonstrava sinais claríssimos de constrangimento e confusão.

– Não, eu sou atleta do Pinheiros. Eu jogo Polo aquático! – respondeu o entrevistado sem demonstrar irritação.

Por que um jornalista experiente e instruído como Rodrigo Bocardi cometeria uma gafe como esta ao vivo? E por que este “deslize” traduz um sintoma tão forte da mentalidade que norteia o desenvolvimento do nosso arranjo social no começo do século XXI?

Elitismo histórico.

Após quase quatrocentos anos de escravidão no Ocidente e pouco menos de cem anos depois de a Lei Áurea (1888) ser assinada no Brasil, mais precisamente, na década de 1980, duas tendências que ficaram conhecidas como “reducionismo biológico” e “determinismo genético” ganharam muita força entre as comunidades científicas estadunidense, britânica e europeia, em geral.

O intuito destas linhas de investigação era tentar explicar o ser humano utilizando parâmetros exclusivamente fisiológicos (reações químicas e físicas que acontecem no organismo humano) e, supostamente, predeterminados, sem levar em conta toda a complexidade das relações humanas e a importância dos ambientes culturais e sociais nos quais os indivíduos se desenvolvem.

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Neste contexto, dois livros se destacaram, porque as suas teses transcenderam os muros das universidades e ganharam ressonância na cultura popular da época: The Selfish Gene (O Gene Egoísta), do biólogo britânico Richard Dawkins, e Sociobiology (Sociobiologia), do entomologista estadunidense Edward Osborne Wilson.

Essencialmente, o livro O Gene Egoísta sugere que o ser humano é meramente o produto dos seus genes. Portanto, de acordo com este raciocínio, tudo o que fizermos durante a vida (e a forma como nos constituímos como indivíduos) está predeterminado no nosso material genético.

O livro Sociobiologia foi um passo à frente no pré-determinismo. Nele, Wilson afirma que o comportamento dos seres humanos é determinado por aspectos biológicos e universais e que incluem a agressão, a dominação dos homens sobre as mulheres, o racismo e a homofobia, por exemplo, entre tantos outros padrões de comportamento que estão programados de forma irremediável nos nossos genes e não podem ser evitados.

Assim, uma das maiores polêmicas dos Estados Unidos e da Inglaterra durante as décadas de 1970 e 1980 foi sobre o que eu chamo de Racismo Científico, que era, basicamente, a afirmação de que os brancos são dominantes sobre os negros, porque os negros possuem uma inteligência geneticamente inferior aos brancos. Para sustentar tais falácias, testes de Quociente de Inteligência (QI) foram desenvolvidos (e continuam sendo utilizados) para determinar o “nível de inteligência” de uma pessoa, partindo do pressuposto que a inteligência é um valor genético, absoluto, predeterminado para todos os seres humanos e pode, portanto, ser medido em determinada escala, o que cria sujeitos fortes ou fracos no quesito inteligência (catadores de bolinhas ou atletas).

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Contudo, a proposição de que você pode reduzir a definição do que é a inteligência para medir em uma escala certamente não faz o menor sentido. Apesar disso, estes livros venderam muitas cópias, se tornaram muito conhecidos na cultura popular, e a tese do determinismo genético, particularmente a suposição de que existe uma diferença genética considerando a inteligência de brancos e negros, tornou-se parte do discurso da extrema-direita nos Estados Unidos, na Inglaterra e até na França, onde estas falsas concepções foram usadas por um movimento que ficou conhecido como Nouvelle Droite (A Nova Direita), por exemplo.

Exatamente por isso a surpresa do Sr. Bocardi, que é branco e cuja árvore genealógica da família remete a nobres italianos da região de Veneto, ao descobrir que o jovem negro não era um “catador de bolinhas”, mas um atleta de um dos clubes mais elitistas do Brasil. Este tipo de raciocínio, que ataca negros, gays e mulheres, é percebido como “humor”, de forma natural ou como “brincadeira” por boa parte da população brasileira por conta das associações implícitas que permeiam toda a visão de como o mundo funciona (ou deve funcionar) de acordo com os elitismos históricos, o pré-determinismo genético e o reducionismo biológico.

Infelizmente, comunicólogos cultos, inteligentes e instruídos como o senhor Bocardi desconhecem ou ignoram deliberadamente o processo de construção da mentalidade social que nos trouxe até aqui. Bem como boa parte da nossa população, que também reduz a questão ao afirmar que se trata de “mimimi”. Apesar disso, de vez em quando, a boca deixa escapar a forma como o coração realmente sente as questões sociais do nosso tempo. Por estar alinhado ao paradigma cultural da nossa época, é pouco provável que Bocardi seja dispensado pela Globo. Vejamos.

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Cesar Calejon é jornalista com especialização em Relações Internacionais pela Fundação Getúlio Vargas e escritor, autor do livro A Ascensão do Bolsonarismo no Brasil do Século XXI

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4 comentários

  1. É como digo, é decepcionante ser jornalista no Brasil.
    Os caras são obrigados a ficar papagaiando as opiniões do patrão para manter o emprego.
    E eles se esmeram ao máximo para ver quem é o maior BABA OVO, PUXA SACOS, etc do patrão.
    Prefiro ser catador de bolinhas.

  2. O articulista que me perdoe, mas o tal Bocardi não é culto, nem inteligente nem instruído: é só uma cabeça falante que lê na TV textos toscos e manipulados que outros escreveram. Como dizem os americanos, a ocasião pedia que ele “pensasse em pé” e deu no que deu, comprovando minha observação.

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