Enchentes em São Paulo, a tragédia da Emplasa, por Andre Motta Araujo

O planejamento metropolitano é um método essencial para selecionar prioridades em obras integradas, especialmente de drenagem.

Enchentes em São Paulo, a tragédia da Emplasa

por Andre Motta Araujo

Ao tempo do Governo Geisel, nos anos 70, foram criadas no Brasil NOVE entidades de planejamento metropolitano, todas como órgãos de Estados onde se localizam cidades com configuração de metrópole. A primeira dessas entidades foi a Empresa de Planejamento Metropolitano de São Paulo, a EMPLASA, depois vieram a PLANBEL, em Belo Horizonte, depois Rio de Janeiro, Porto Alegre, Belém, Recife, Salvador, Fortaleza e mais uma que me falha a memória.

A ideia do Governo Geisel era avançada e visionária, tratava-se de criar estruturas de planejamento para organização de grandes cidades que entravam em acelerado crescimento na década de 50. Nos anos 70 se implantou a primeira linha de metrô de SP, já um novo patamar de metropolização.

O PLANEJAMENTO METROPOLITANO

As nove grandes capitais brasileiras tinham como característica a conurbação, ou seja, a aglomeração de mais de um município em torno de uma cidade central, a Grande São Paulo tem 38 municípios que se ligam à capital por fronteiras invisíveis. O aglomerado é uma coisa só, não há divisa física, não se percebe onde acaba um município e começa outro, cada um com seu Prefeito e Plano Diretor, MAS grande parte dos problemas são comuns a todos, onde um Prefeito atua afeta municípios vizinhos e portanto é preciso haver um PLANEJAMENTO INTEGRADO POR TODOS. Aí entra a entidade de planejamento metropolitano.

Um dos grandes temas integrados são as bacias hidrográficas. Rios e córregos atravessam vários municípios e não tem como um prefeito atuar sozinho quando as águas vêm de um município, atravessam o seu e correm para outro município. O planejamento da DRENAGEM precisa ser integrado. Planos diretores de um município afetam outros, assim como transportes, obras viárias, coleta de lixo.

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O planejamento metropolitano é um método essencial para selecionar prioridades em obras integradas, especialmente de drenagem, a maior de todas as tarefas que exigem coordenação central acima do poder municipal e, especialmente, a COORDENAÇÃO DE PLANOS DIRETORES, para que o adensamento de um município colado a outro não interfira negativamente nesse outro. A divisa é física, mas os efeitos passam por cima da divisa.

A EMPLASA

Criado por lei estadual no Governo Paulo Egydio Martins, um dos melhores governadores do Estado de São Paulo, que realizou obras fundamentais como o metrô, as Rodovias Bandeirantes e a Imigrantes, grande expansão da SABESP, a EMPLASA, na sua primeira fase, tinha um poder fundamental,  o CARIMBO que autorizava a construção de grandes empreendimentos que afetassem o trânsito, os transportes, o lixo, a drenagem, ACIMA do poder municipal. Aí se incluíam SHOPPINGS, FÁBRICAS, UNIVERSIDADES, GRANDES EDIFÍCIOS.

A Emplasa realizou, então, um levantamento aerofotogramético de toda a grande São Paulo, metro a metro, toda a área metropolitana foi mapeada de avião a baixa altitude, com todos os relevos e acidentes, riachos, córregos, charcos, valas, um precioso arquivo, tão valioso que sua utilização como serviço pago a construtoras permaneceu muito depois dos governos tucanos decretarem a morte da empresa. O governador Covas cortou o quadro de pessoal de quase 900 para pouco mais de 100 funcionários, só não fechou porque dependia de Lei e a Assembleia iria rejeitar.

Até 1996, última gestão do MDB, a Emplasa contava nos seus quadros com a fina flor dos urbanistas de São Paulo, muitos deles professores da FAU, a faculdade de urbanismo da USP, seu capital de conhecimentos técnicos da área metropolitana era insuperável, o controle das drenagens de águas pluviais era uma da principais tarefas desse planejamento.

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Nesse mesmo fim de gestão do MDB deu-se início a extensão do conceito de planejamento metropolitano para outras conglomerações do Estado, como Santos e Campinas, usando os mesmos métodos de articulação de prefeitos em Conselhos Intermunicipais.

A Emplasa também era gestora do Fundo de Investimentos Metropolitanos, para as obras intermunicipais, mecanismo elogiado pelo BANCO MUNDIAL que tinha a Emplasa como excelente veículo para que o Banco oferecesse financiamento de projetos municipais. O Brasil dispunha e hoje dispõe de elevadas linhas NÃO USADAS nos bancos multilaterais (Mundial e BID) aonde a Emplasa seria o braço técnico essencial para servir de ponte como preparadora de projetos e sua fiscalizadora de execução, quer dizer um órgão valioso para o País, para as metrópoles brasileiras e para os que vivem nesses municípios.

A EXTINÇÃO DA EMPLASA

Lamentavelmente, desde o governo Mario Covas, o primeiro do PSDB em São Paulo, o conceito representado pela Emplasa foi abandonado, os governos estaduais partiram para o ajustismo e para as privatizações, a noção de POLÍTICA PÚBLICA, implícita no planejamento metropolitano, foi abandonado.

Já no Governo João Doria terminou o fingimento. O Governador mandou projeto à Assembleia para EXTINGUIR a Emplasa, o fim de uma era de inteligência, de visão de planejamento a longo prazo para grandes metrópoles, de uma racionalidade nos manejos de investimentos públicos para novas gerações.

O resultado está aí nas ruas, nas casas, no CEASA, mega enchentes em São Paulo, todos os professores de urbanismos entrevistados desde 2ª feira, atribuem a situação à FALTA DE PLANEJAMENTO, à falta de ações sistêmicas no tratamento de drenagem, tudo aquilo que a Emplasa representava.

Um imenso RETROCESSO na ação de Governo, a extinção da Emplasa e do conceito de planejamento sistêmico, mostra como o Brasil regrediu.

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A IMPERMEABILIZAÇÃO DO SOLO EM SÃO PAULO

Enquanto ingleses, holandeses, franceses e alemães adoram o verde, os parques, os bosques, os jardins, os paulistanos ADORAM O CIMENTO. A cidade foi inteiramente IMPERMEABILIZADA, mesmo onde não precisava. É a paixão pelo cimentado, árido, frio que se projeta em ruas, calçadas, entradas de edifícios, escolas, ESTACIONAMENTOS, shoppings, monumentos, é o REINDO DO CIMENTO E DO ASFALTO. Com isso, as águas de chuvas não têm como escoar.

EXEMPLOS: Um gigantesco estacionamento para carros no Shopping Eldorado, na marginal do Rio Pinheiros, 100% asfaltado, não há um centímetro quadrado de terra, porque não se usa ELEMENTOS VAZADOS, servem perfeitamente para carros, mas deixam intervalos para a água se infiltrar? Porque não tornar obrigatório JARDINS no átrio de prédios residenciais e comerciais, elementos vazados em calçadas e calçadões, é perfeitamente possível, precisa lei.

Os estacionamentos de shoppings e supermercados em SP são 100% asfaltados, porque não é obrigatório o concreto vazado, que tem a mesma função, mas deixa algum caminho para a água escoar? As Marginais dos rios Pinheiros e Tietê deveriam ser gradeadas e plantadas com árvores retentoras de água, os fenômenos de chuvas são periódicos, previsíveis, o que é imprevisível é a burrice de governantes e a cegueira de políticos, uma ideia moderna e estimulante lançada nos anos 70 para organizar o adensamento de grandes cidades foi ABANDONADA pela política menor, de curto prazo, medíocre. A fatura da cegueira vem com a certeza de uma cobrança bancária, a conta está aí, São Paulo submersa em água suja, prejuízos imensos e agora?

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3 comentários

  1. Poxa vida, André, memória ruim hein, esqueceu uma capital ? De verdade, o que me espanta é sua lucidez e memória afiada, coisas imateriais e intransferíveis, você está proibido de morrer nos próximos 200 anos, tempo que pretendo estar vivo. E neste seu post traz coisas que sempre me fazem pensar. Dispensável falar de atrocidades e mal feitos cometidos em ditaduras, sempre presentes em todas elas, da esquerda, da direita e de tudo que se situa entre esses pontos. Mas o que penso é comparativo, Geisel ( ou qualquer outro ditador brasileiro) versus Bolsonaro; Paulo Egydio X Alckmin/Doria; Leitão de Abreu X Onyx; Delfin X Paulo Guedes. Paro, a lista seria grande demais. A degeneração tem sido rápida, abrupta e muito segura, abarcando tudo, civis, que elegeram, e militares, que investiram no candidato. Será que há alguma esperança nesses nossos próximos 200 anos ?

    • Agradeço as referencias à minha memoria, registro que a Emplasa foi presidida por arquitetos e urbanistas do nivel do falecido Jorge Wilhelm, o Ministro do StF Ricardo Levandowski tambem foi presidente da Emplasa, todos os vivos estivemos na comemoração dos 40 anos da empresa, no
      Museu da Imagem e do Som, fui o ultimo presidente da fase MDB, custa a crer que um Governador simplesmente manda fechar a EMPLASA para fazer uma misera economia de R$20 milhões por ano,
      jogando fora um vasto patrimonio de projetos e informações sõbre as metropoles do Estado,

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      1
  2. “…Lamentavelmente, desde o governo Mario Covas, o primeiro do PSDB em São Paulo, o conceito representado pela Emplasa foi abandonado, os governos estaduais partiram para o ajustismo e para as privatizações, a noção de POLÍTICA PÚBLICA, implícita no planejamento metropolitano, foi abandonado…Já no Governo João Doria terminou o fingimento. O Governador mandou projeto à Assembleia para EXTINGUIR a Emplasa, o fim de uma era de inteligência, de visão de planejamento a longo prazo para grandes metrópoles, de uma racionalidade nos manejos de investimentos públicos para novas gerações…” A VERDADE É LIBERTADORA !!! De um lado Paulo Egydio Martins, Paulo Salim Maluf, Olavo Setúbal,…Do outro, a Mediocridade Nepotista de um Mario Covas, a figura obtusa de predicados abjetos Dória. E não sabemos como chegamos até aqui? Briguemos com a História !!!! Cachorro atrás do rabo. Mas dirão que o Articulista é um reacionário, partidário de períodos ditatoriais, saudosista de Geisel a Delfim Netto. Sabemos que a Capacidade, Competência e Inteligência, independem de Ideologias. Está aí Celso Amorim ou Samuel Pinheiro Guimarães. Esta aí Cidade e Estado de São Paulo entregues às trevas. Um Meretrício bem decorado e loteado para quem pagar alguma coisa, em qualquer esquina de Privatarias Golpistas. Projeto de enorme sucesso de Ideais Progressistas e Socializantes de farsante Redemocracia e fraudulenta Constituição. Cidadã?! (Arranjaram uma Represa de Contenção na altura do bairro da Penha para minimizar os alagamentos e enchentes da “vistosa” e “televisiva” Marginal Tiête. Bairros da Zona Leste e Guarulhos (Vila Any, Itaim, Jardim Pantanal,…), nas margens do rio, chegam a ficar até 2 meses embaixo da água. LEPTOSPIROSE? HEPATITE? DENGUE? Tudo bem, só moram pobres. A Imprensa finge que nada acontece. A Marginal vistosa fica ‘segura’. O Brasil continua óbvio. Mas a culpa? Esta, deve ser dos outros. Talvez o Trump? ‘E CONHECEIS A VERDADE. E A VERDADE VOS LIBERTARÁ’. Pobre país riico. Mas de muito fácil explicação.

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