Enfim, a cristofobia, por Bruno Reikdal Lima

O papel desempenhado pela religião no desenvolvimento histórico da sociedade brasileira foi fundamental para azeitar a engrenagem capitalista periférica que se instalava na marra.

Enfim, a cristofobia, por Bruno Reikdal Lima

A recém criada noção de “cristofobia” é bem complicada, não por seu conteúdo, mas pela ausência de qualquer conteúdo claro. É um termo, uma expressão que não revela propriamente nada, mas que na reprodução das relações sociais repercute em determinados setores com algum significado. Significado dado pelas experiências comunitárias e sociais mal nomeadas, que tem sentido, encontram contradições sociais que possibilitam seu uso, mas bem limitado e extremamente reativo. De maneira mais objetiva, “cristofobia” é um conceito vazio útil para uma ideologia reacionária que procura engajar grupos sociais na reprodução social, encobrindo as causas dos problemas reais. Talvez caiba chamá-la de “significante vazio”, como um termo que encontra um sentido nas relações sociais, mas não compreende a nenhuma relação específica, efetiva e, em última instância, “real”.

Há perseguição contra cristãos na realidade brasileira? Não. Pelo menos, em um primeiro momento. Não porque não há nenhum projeto, programa ou operação política e social que vá contra instituições religiosas, que coíba práticas religiosas cristãs e mesmo qualquer perseguição contra fiéis por serem fiéis. Mas em um segundo momento temos um problema: as pessoas marginalizadas, socialmente sabotadas por um sistema de exploração do trabalho e reprodução social baseada no acúmulo de capital e no lucro, são majoritariamente cristãs. Pior, em seu processo de relativa inclusão social, de absorção na vida urbana e acesso mínimo a mercado (que foi garantido por programas de distribuição de renda, facilitação de crédito e consumo) e alguma atividade remunerada, foi a religiosidade cristã e instituições religiosas que garantiram laços sociais e sentido de vida para muitos dos recém chegados cidadãos e cidadãs de periferia, desterrados ou forçados a sair de sua terra em violentos processos de modernização.

O papel desempenhado pela religião no desenvolvimento histórico da sociedade brasileira foi fundamental para azeitar a engrenagem capitalista periférica que se instalava na marra. Se na década de 1960 vimos o movimento conservador da TFP crescer com medo do comunismo que supostamente impediria a prática religiosa, e isso firmar e aproximar massas populares na defesa do regime militar, em nossa segunda década dos anos 2000 temos na ascensão do movimento evangélico o conteúdo requentado, agora adequado aos moldes de uma nova onda reacionária. E do mesmo modo que naquele tempo vivenciamos as contradições de movimentos religiosos conservadores e progressistas, reacionários e revolucionários, hoje também os temos. Contudo, com a peculiaridade de que naquele tempo a população era majoritariamente camponesa e diante de processos de urbanização e transformações econômicas que de um modo ou de outro buscavam formar e absorver um novo tipo de mão de obra. Hoje, uma sociedade majoritariamente urbana experimentando a destruição de relações trabalhistas e a impossibilidade de absorção da mão de obra ao “novo tipo” de exigências do mercado. Se em uma havia um mínimo de perspectiva de novas relações, agora há uma desesperança e um desalento instalados.

Aos poucos, os lugares que garantiam a determinados setores um “espaço social”, no qual eram cidadãos, trabalhadores e trabalhadoras, imaginavam de algum modo futuros, são destruídos, limitados e acompanham a dureza de um tipo de moralidade que assume que esse mundo será para poucos. Os nichos que vão sobrando são aqueles que garantiam algum laço social, que cumpriam as funções sociais que nem Estado e nem Mercado foram capazes de garantir. As igrejas nas periferias são a o lugar no qual o pedreiro, a doméstica, o vigia, a ambulante, o ou a motorista de aplicativos, entregador ou entregadora também refém das novas tecnologias de exploração do trabalho, deixam por um segundo de lado a superexploração direta, a falta de nome, o uniforme ou a falta de uniforme, e se tornam irmãos e irmãs, lideranças locais, filhos e filhas de Deus. Transformados de um alguém a mais, a uma pessoa. A porta que garante o sonho de algum paraíso a ser defendida com unhas e dentes.

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No interior desse espaço, tem valores, doutrinas, regras que organizam, formam, disciplinam e distinguem os participantes dos não participantes. Sem esses conteúdos e práticas, a identidade construída nessas instituições perde sentido e sua função de garantir laços sociais mínimos fragilizadas. Afinal, questionar sobre “quem somos?” é colocar em risco o próprio motivo pelo qual “estamos aqui”. Qualquer ameaça ou prática que apareça como ameaça ao conteúdo que organiza e dá sentido às instituições religiosas e suas promessas de salvação, o paraíso que permite algum futuro sonhado no meio do caos e do sofrimento de uma sociedade de exploração, será combatida veementemente. É ameaça não à doutrina, mas à própria vida de quem está integrado na comunidade, que encontra nela seu sentido de existir, de suportar a violência, a dominação, a exploração, e também justificar a reprodução de cada uma dessas relações cotidianamente.

Rosa Luxemburgo já apresentava e denunciava esse problema, não culpabilizando os fiéis trabalhadores, mas às relações de produção e a defesa que as castas de elite religiosa se organizavam conjuntamente às classes ricas e exploradoras na perpetuação da própria ordem social. Em seu texto sobre o socialismo e as igrejas, pensa criticamente o papel contraditório dessa instituição, que acolhe e dá sentido para a vida dos trabalhadores, mas ao mesmo tempo se torna um peso que imobiliza a luta, se volta contra as mudanças necessárias. Por que há perseguição contra a religião cristã? Não. Porque há materialmente uma reprodução social baseada na exploração, e a religião desempenha um papel nisso tudo. Mas religião não é algo abstrato, e sim uma prática social, uma construção histórica, mantida e reproduzida por vidas humanas, que em suas contradições e complexidades buscam produzir, reproduzir e desenvolver suas vidas dentro dos recursos e possibilidades disponíveis. E a igreja pode se tornar o conteúdo social que garante sentido para a vida, que permite suportar as demais violências (mesmo que em seu interior tenha novas relações de violência). Garantem coesão para a família, solidariedade, redes de apoio, valores que criam algum tipo de dignidade, mesmo que reduzidas ao âmbito simbólico.

Quando nesse quadro de complexidades a crítica dos setores liberais, progressistas, sociais-democratas e mesmo revolucionários se volta contra a instituição que cumpre esse papel social na ausência de outras instituições e organizações, há o reforço do discurso de perseguição, vivenciado nas relações cotidianas de exploração, de tal modo que sem ter qualquer significado específico, como “significante vazio” se torna o veículo para redirecionar as contradições e lutas sociais, que se desviam de seu fundamento de violência e exploração para sua imediata relação vivida entre uma comunidade de irmãos contra uma sociedade “avessa” e indiferente às vidas que compõem essa mesma comunidade. A igreja se torna sagrada por dar sentido para vida e para a reprodução diária de uma sociedade capitalista periférica com nossa história peculiar. Ela é sagrada, inclusive, na medida em que sacraliza a manutenção da sociedade capitalista. Pois, na medida em que se voltar contra o mercado total e contra a exploração do trabalho, passa (aí sim) a ser perseguida.

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De todo modo, cristofobia tem sentido nas contradições de nossas relações sociais. Não porque efetivamente exista uma perseguição contra movimentos religiosos cristãos. Mas porque qualquer problematização de um dogma ou de uma doutrina é somada a todas as violências e explorações nas quais estão submetidos os sujeitos que compõem as comunidades religiosas, e diferentemente das situações de exploração (escondidas ou jogadas para um grau de relações em que as lutas parecem impossíveis), os embates morais aparecem como possíveis campos em que fiéis podem lutar e devem se defender (guardando o reduto de laços sociais). Desse modo, por mais interessante que seja, o uso de “cristofobia” por parte de um projeto fascista não pode ser motivo de piada ou chacota, mas sim de avaliação crítica, levada a sério. Especialmente quando se percebe o papel que cumpre junto a uma parcela das pessoas exploradas. E como não tem nenhum conteúdo claro, pode inclusive ser utilizada na mobilização de lutas sociais.

Afinal, se não há uma perseguição contra cristãos por serem cristãos, ou programa político contra valores aparentemente constituintes de famílias tradicionais que estariam baseadas em doutrinas religiosas, há exploração diária de pessoas em uma sociedade doente e violenta – e essas pessoas são religiosas, não apenas cristãs, mas também cristãs. Se há assassinato, abusos, roubo de tempo de vida para si e para estar com a família, os aparelhos sociais que reproduzem essas relações também se voltam contra indivíduos e grupos familiares cristãos. Se uma mãe e um pai não tem possibilidade de ficar em casa e acompanhar o crescimento dos filhos e das filhas, de ter mais tempo para se divertir, para desfrutar das relações dentro da própria casa, tudo em nome da “economia”, do “emprego”, de garantir se submeter a humilhações sociais em troca de um salário suado e injusto, a família é posta em risco por causa da reprodução social capitalista brasileira. Se há desigualdades, se nossos irmãos e irmãs cada vez mais tem dificuldades em sobreviver, pagar as contas suportar determinadas situações, é porque nossas relações sociais funcionam em nome de outra coisa que não da vida das pessoas que compõem as comunidades.

O texto de Rosa Luxemburgo sobre o socialismo e as igrejas ao qual nos referimos parte de uma indagação relativamente simples, mas fundamental: “como é que a Igreja desempenha o papel de defesa da opressão rica e sangrenta, em vez de ser o refúgio dos explorados?”. E sua resposta contrapõe as exigências propriamente cristãs de amar o próximo como a si mesmo, dar o que se tem, não buscar riquezas e sim justiça, às relações dominantes das sociedades russa e alemã de seu tempo. A contradição que a interessa é buscar explicar como uma igreja cristã pôde historicamente se tornar anti-cristã ou deslocada dos valores fundamentais da doutrina cristã. E a partir disso, ter um conteúdo trate de como estar junto aos fiéis na busca por um ânimo que tore suportável a vida, mas que não reproduza as situações de exploração que fazem com que se tornem reféns de hierarquias religiosas que atuam na manutenção da ordem social – que garantiria, inclusive, o reforço das relações de opressão contra os trabalhadores e as trabalhadoras religiosas.

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Em última instância, se há violência sistemática contra a vida dessas pessoas, é porque isso é base do modo de produção capitalista diante de qualquer pessoa, seja cristã ou não. Contudo, se falamos da perspectiva de uma comunidade religiosa, esse modo de produção se revela como negador dessa própria comunidade, com perseguidor das vidas dos fiéis. É fundamentalmente contra a vida dessa comunidade específica. Se ela indicar suas limitações explicitamente, inclusive, será perseguida. Nesse sentido, frente a uma igreja, o capitalismo se torna fundamentalmente cristofóbico: persegue as vidas dos fiéis, de seus filhos e filhas, põe preço em seus corpos e troca seus tempos de vida por dinheiro em um mercado sacralizado e sem limites. Enfim, em muitos sentidos, podemos ver a possível cristofobia.

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