Ensinamentos de Andrea Camilleri para frear o fascismo à brasileira, por Aracy Balbani

Ensinamentos de Andrea Camilleri para frear o fascismo à brasileira

por Aracy Balbani

Andrea Camilleri (1925-) é um consagrado escritor e roteirista siciliano. Tornou-se popular também fora da Itália pelos romances policiais cujo protagonista é o Comissário Salvo Montalbano. Na simplicidade da prosa do autor, o Comissário cativa o leitor por ser um dos raros personagens verossímeis da ficção policial. Montalbano vai ao banheiro, assiste à TV de cueca, sente medo, leva bronca da namorada e volta e meia reincide no pecado da gula. As obras de Camilleri com aventuras de Montalbano, das quais destaco “O Cão de Terracota” e “A Lua de Papel”, originaram uma série televisiva da RAI no final dos anos 1990.

Em 2009, quando Silvio Berlusconi era o primeiro-ministro italiano, Camilleri publicou um longo artigo na Limes – Revista Italiana de Geopolítica, intitulado “Cos’è un italiano” (“O que é um italiano” em tradução livre). Ainda hoje muitos empacam no estereótipo raso do italiano “brava gente”. Há nove anos Camilleri mergulhou fundo em questões históricas e socioculturais polêmicas que pudessem explicar a identidade dos cidadãos italianos que levaram Berlusconi ao poder. O texto se divide em três partes, acessíveis em italiano aqui, aqui e aqui. Pode ser lido com ajuda do tradutor do Google.

Na primeira parte, Camilleri aborda a influência dos dialetos e da diversidade cultural das regiões italianas no processo de unificação do país. Fala da ascensão e do declínio do fascismo. Segundo ele, “se Mussolini não tivesse firmado o pacto de aço com Hitler, obrigando-se a entrar no conflito [mundial], teria morrido de velhice na cama”. O escritor opina que “o fascismo é uma fênix que não necessita se reduzir a cinzas para renascer”. Para ele, “sessenta e quatro anos de democracia” não tinham sido suficientes “para depurar o sangue dos italianos em que ainda vivem células infectadas [pelo fascismo], capazes de se transformar a qualquer hora num vírus perigoso”.

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Na segunda parte, o escritor critica os italianos pela memória curta. “Se o inferno fosse a memória, o italiano andaria no paraíso”. Cita vários ditos populares sicilianos sobre juízes e a justiça. Dentre eles, “A lei para os amigos se interpreta, para todos os outros se aplica” (“La legge per gli amici s’interpreta, per tutti gli altri s’applica.”). Camilleri vai direto na veia: “a desconfiança na justiça é total, baseando-se na convicção difusa de que ela seria um instrumento dos ricos (que não caem nunca nas suas malhas) usado contra os pobres. Uma justiça de classe” (“La sfiducia nella giustizia è totale, basandosi sulla convinzione diffusa che essa sia uno strumento dei ricchi (che non incappano mai nelle sue maglie) usato contro i poveri. Una giustizia di classe.). A desconfiança no sistema judiciário seria um dos únicos pontos de consenso entre os italianos do norte e do sul no entendimento do escritor. Camilleri também pontua o que hoje todos sabemos: foi nas cinzas da República Italiana, após a devastação provocada pela Operação Mãos Limpas, que o homem de negócios milanês Silvio Berlusconi saltou para a vida política.

Na parte final, Camilleri se debruça sobre o berlusconismo e os meios de comunicação na Itália. Afirma: “O berlusconismo trouxe à luz certos comportamentos latentes no italiano, os quais antes eram impedidos de aflorarem por um mínimo de respeito às regras da vida civilizada”. O então mandatário do país controlava as três maiores redes privadas de TV, jornais e a principal editora italiana, a Mondadori. Tinha a comunicação de massa nas mãos.

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A conclusão ácida de Andrea Camilleri é que o ideal de vida do cidadão italiano na era Berlusconi devia ser o motorino. Quase toda motoneta (motorino) infringia repetidamente as regras de trânsito em meio ao tráfego carregado nos horários de pico nas grandes cidades italianas. Os agentes de trânsito faziam vista grossa. Em outras palavras: com o triunfo do individualismo competitivo, o importante era chegar primeiro, fosse como fosse, mesmo nas barbas dos agentes da lei e da ordem.

Qualquer semelhança entre o texto publicado em 2009 e a realidade da Itália pós-eleições de 2018 e do Brasil pós-Lava Jato não é mera coincidência. Nos dois países, onde as cinzas do fascismo parecem nunca ter esfriado totalmente, a direita foi reconduzida ao poder. Magnatas da comunicação continuam dando as cartas. Informalmente, a Lei de Gérson, que determina levar vantagem em tudo, permanece em vigor. Há numerosos eleitores brasileiros inclinados a chutarem o pau da barraca em outubro próximo. 

Como bem escreveu uma comentarista do GGN há poucas semanas, aos olhos do mundo descemos ao gênero da pornocracia. Logo, não seria inimaginável que Oscar Maroni, proprietário do Bahamas Hotel Club, fosse catapultado de homem de negócios paulista a presidente eleito de todos os brasileiros. Só não se sabe qual objeto erótico traduziria melhor o ideal de vida dos nossos compatriotas num hipotético maronismo.

A realidade é surpreendente. É sempre capaz de superar qualquer obra de ficção noir. Serve aos brasileiros, portanto, a sábia advertência de Camilleri em entrevista a EL PAÍS Brasil em 2014: “O povo que se resigna está acabado”.

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8 comentários

  1. Falou ao texto a

    Falou ao texto a imprescindível analogia entre a farsa jato deles, a mani puliti, e a nossa.

    O roteiro do autor pode, grosso modo, ser adaptado a todos os processos históricos ao redor do planeta.

    De verdade, cada sociedade erigida ao longo da ideia de um Estado Nacional combina o eterno conflito entre a necessidade de afirmação do indivíduo e sua esfera de direitos e garantias individuais, e o interesse coletivo.

    Mal comparando com o vulgar determinismo biológico, é um paradoxo evolutivo: a imposição da sobrevivência entre a competição individual e a noção de coletividade.

    É um sofisma, ou um falso paradoxo, porque é justamente a combinação desses dois aspectos, a individualidade mesclada com as relações sociais cooperativas que nos tornaram um sucesso evolutivo, em determinados aspectos.

    O fascismo, ou os regimes autoritários são a expressão “pura” ou melhor comunicada ao senso comum desse paradoxo falso!

    Sim, é insolúvel, mas isso não siginifica dizer que devemos abrir mão da mediação política de conflitos e da busca por sistemas que garantam individualidades dentro de um espectro de prevalência do bem estar geral (coletivo).

    O autoritarismo diz aquilo que é o sonho de todos: Sobreviva, não se importe com seu vizinho, submeta-se em nome do seu bem estar!

    Claro que os detentores do poder (as elites) não informam que isso é uma fraude, ou seja, em tais regimes, justamente, vai haver uma submersão total do indivíduo, anulando-o.

    Voltando ao raciocínio inicial, podemos dizer que na Europa a proposição do autor se repete.

    De um jeito ou de outro, todos os Estados Nacionais de lá, uns mais tardios outros mais anciãos, foram o ajuntamento de dialetos, todos reunidos à força, cuja diversidade foi, ao mesmo tempo, qualidade e defeito, acossados por conflitos armados perenes, catástrofes sanitárias e geográficas, cuja escassez resultante os empurrou aos mares para a expansão de seus domínios em busca de recursos.

    Do lado de cá do Atlântico, e em outras paragens coloniais, houve a reprodução da lógica competitiva capitalista, ou seja, algumas colônias se livraram da condição de monoexportadores ou de exportadores de commodities, outros permaneceram nela, os exemplos mais latentes, EUA e Brasil.

    No entanto, ao lermos o autor Andrea Camilleri fica a impressão que a Democracia em sistemas capitalistas sejam a regra.

    Sua “advertência” de que o germe do fascismo habita a alma italiana deveria ser lido ao contrário: Na verdade, é a pálida ideia de democracia que insiste em “atormentar” o italiano!

    E por que alguns países parecem mais suscetíveis ao autoritarismo que outros?

    Desigualdade meus caros, desigualdade.

    A Itália, dentre os europeus é o mais tardio e, quem sabe o mais desigual entre eles, onde o abismo entre norte e sul  talvez só se compare ao nosso fosso social entre Nordeste e Sudeste.

    Ao redor do planeta capitalista, quanto mais desigual, mais autoritária (e violenta) a sociedade.

    Sim, porque se hoje temos certeza de que capitalismo NUNCA casará com Democracia, parece certo concluir também que dentro desse ambiente de interação impossível, quanto mais desiguais, mais instáveis serão tais sociedades.

    Nem pensem em exemplificar os EUA como exemplo de Democracia perene.

    Até a década de 60 do século passado os EUA eram uma república censitária, onde negros não votavam!

    Então, o diagnóstico e a receita do Camilleri não é completa.

    Países desiguais e periféricos não flertam com o autoritarismo, mas ao contrário, têm nesse viés a sua natureza, que deriva da incapacidade geral do capitalismo em prover Democracia, mesmo onde há menos desigualdade.

    • Xerox do imprestável (correção)

      Parte do nosso povo copia tudo o que há de pior no planeta. Por isso Bolsonaro tem seguidores.

  2. Cara Aracy,
     
    Belissimo

    Cara Aracy,

     

    Belissimo testo!!! 

    Acrescentaria, apenas, a influência de Leonardo Sciascia, intelctual e político sicialiano, no penamento de Camilleri. Quem tiver oportunidade leia “Un onorevole siciliano. Le interpellanze parlamentari di Leonardo Scascia”, uma coletânea, feita por Camilleri, dos pronunciamnentos de Sciascia quando foi deputado (1979 – 1983), de uma sagacidade e incisividade desarmantes sobre os jogos de poder durante a Primeira República italiana.

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