Eu não consigo respirar, por Arnaldo Cardoso

O vídeo que registrou todos os minutos e as falas ocorridas até George Floyd perder os sentidos é o registro de um torpe e repugnante assassinato e da indiferença dos que o perpetraram.

Eu não consigo respirar

por Arnaldo Cardoso

Foram com seguidas súplicas de “I can’t breathe” (“Eu não consigo respirar”) desprezadas que o cidadão George Floyd, de 46 anos, negro, foi assassinado por policiais brancos no último dia 25, em uma calçada de rua em Minneapolis/EUA.

A violenta e abjeta ação policial (filmada por um transeunte) que levou Floyd à morte, se somou a uma série de outros assassinatos cometidos por policiais contra cidadãos afro-americanos, mas a crueldade desse caso é um sinal inequívoco da banalização da vida e da própria violência num contexto em que o ódio se tornou instrumento da política e a degeneração moral e ética tem feito da vida social uma experiência cada vez mais perigosa, especialmente para indivíduos pertencentes a grupos vulnerabilizados e onde déspotas governam.

E esse assassinato, visto no contexto da pandemia que assola o mundo e que tem levado à morte, majoritariamente por insuficiência respiratória, milhares de pessoas pelo mundo, especialmente pobres, negros, com vidas precarizadas por um sistema desigual e crescentemente excludente, coloca diante de todos um retrato deplorável do mundo neste início de século 21; retrato de um mundo sendo coberto por trevas.

Abordado por policiais brancos chamados por um comerciante que havia recebido uma nota falsa de vinte dólares, Floyd que se encontrava nas proximidades encostado em um carro foi abordado, algemado e, na versão dos policiais “por apresentar resistência e parecer estar alcoolizado ou drogado”, foi imobilizado com o rosto no chão e sob a pressão do joelho de um policial posicionado sob seu pescoço.

A partir da imobilização de Floyd a sequência foi toda gravada por um transeunte que depois disponibilizou o vídeo (quase insuportável de ser assistido) na internet. O revoltante vídeo mostra George Floyd imobilizado gemendo, chorando e clamando pela suspensão daquela condição que o impedia de respirar. Alguns transeuntes ao ver aquela cena pararam e alertaram (pena que se limitaram a isso) os policiais que Floyd estava com o nariz sangrando e incapaz de respirar, sem que a ação fosse suspensa. Foram nove minutos de súplicas de Floyd e alerta de pessoas que passavam por ali até que Floyd não mais se moveu. Uma das pessoas vendo a situação começou a cobrar dos policiais que tomassem o pulso de Floyd e que procedessem a alguma medida para recuperação dos sinais de Floyd mas sem atendimento. Com Floyd já quase sem vida chamaram uma ambulância que o levou, para pouco depois ser dada a notícia de que George Floyd estava morto.

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O vídeo que registrou todos os minutos e as falas ocorridas até George Floyd perder os sentidos é o registro de um torpe e repugnante assassinato e da indiferença dos que o perpetraram.

O prefeito da cidade, Jacob Frey, do Partido Democrata, logo se pronunciou informando que os quatro policiais que conduziram a ação foram demitidos e que o FBI comandará as investigações sobre o caso. Entre suas declarações, Frey disse “o que vimos está errado em todos os níveis, ser negro nos Estados Unidos não deve ser uma sentença de morte”.

O assassinato de George Floyd fez lembrar os casos similares de Trayvon Martin (2012), Eric Garner (2014), Philando Castile (2016), Ahmaud Arbery (2020), entre outros. Na maioria dos casos os policiais sequer foram acusados.

Jovanni Thunstrom, proprietário de um bistrô onde trabalhava Floyd declarou ao jornal The New York Times que “Todos estão chocados por ele estar morto. Ele nunca causou uma briga ou foi rude com as pessoas. Ninguém tinha nada de ruim a dizer sobre ele”.

No dia seguinte ativistas se concentraram em protesto em frente a delegacia local. Com punhos erguidos e serrados gritavam por justiça. Com a raiva se avolumando os protestos foram reprimidos com bombas de gás lacrimogênio.

Na esteira de violências raciais nos EUA, em 2013 foi criado o movimento Black Lives Matter como uma reação à violência de policiais contra afroamericanos e, de início ganhou bastante visibilidade mas, nos anos recentes, sob Trump, esse movimento e uma agenda por melhora das condições de vida dos afroamericanos perderam espaço e se enfraqueceram.

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Nos anos Trump os movimentos que tem ganhado espaço e atuado de forma mais ativa e efetiva, mobilizando habilmente recursos tecnológicos para engajamento de expressiva parcela da população são os supremacistas brancos, a direita radicalizada com suas inúmeras ramificações na sociedade.

Se nos EUA os negros são os principais alvos do ódio e da intolerância, seguidos pelos hispânicos, na Itália onde líderes políticos da extrema direita como Matteo Salvini e Giorgia Meloni comandam a política do ódio que no começo da pandemia se voltou contra chineses e asiáticos em geral mas que, nos últimos anos teve o ódio direcionado contra imigrantes, especialmente africanos e todos que representem qualquer ameaça a suas visões primitivas de sociedade. No Brasil o ódio e a sordidez do Presidente da República, de sua torpe prole e dos deploráveis integrantes de seu governo, continuam apostando no confronto como tática política e no engajamento de seus apoiadores (o 1/3) para tocar o terror, fragilizar instituições democráticas, intimidar todos que ousam levantar suas vozes.

Nesse contexto, é triste constatar como se faz atual a sempre citada sentença do filósofo e economista inglês John Stuart Mill “Para que o mal triunfe, basta que os homens de bem se omitam”. Hoje a confusão é tamanha que até as noções de “mal” e de “homens de bem” são objetos de flexibilização e distorções.

Para que a toxicidade de nosso tempo não leve todos ao sufocamento, precisamos urgentemente nos levantar com punhos cerrados e, juntos, nos livrarmos desses joelhos sob nossos pescoços que ameaçam levar-nos à morte e a sociedade às trevas. E não será só o 1/3 de ignorantes e fanáticos, que se envenenarão com o ódio. Todos sucumbiremos. E aos céticos e hipócritas que levam as mãos – como bem sintetizou recentemente o ator Lima Duarte “lavam as mãos em bacias de sangue” – o futuro não lhes reserva lugar melhor que aos fanáticos.

Paradoxalmente o contexto pede aos responsáveis o isolamento social justamente quando o avanço das bestas exige a ocupação das ruas para a batalha necessária.

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#justiceforgeorgefloyd

Arnaldo Cardoso, cientista político

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2 comentários

  1. “If you want a vision of the future, imagine a boot stamping on a human face – forever”

    George Orwell

    Helter Skelter – Look out

  2. O que diria The Police?

    “Every breath you take
    Every move you make
    Every bond you break
    Every step you take
    I’ll be asphyxiating you”

    Covardes. Em legítima defesa da vida, esse policial merecia um tiro na espinha dorsal, de forma a ficar paraplégico

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