Falar de aborto no dia dos pais, irei. Por Mariana Nassif

Falar de aborto no dia dos pais, irei. Por Mariana Nassif

Por que eu escolhi o dia dos pais pra falar sobre aborto?

Primeiro porque nesta semana foi vetado, na Argentina, o direito ao aborto legal. Quer dizer, os abortos continuarão matando mulheres, especialmente as negras e pobres e, enquanto isso, os homens seguem tendo o direito de escolher se querem ou não ser pais.

À mulher não é reservado o direito de não escolher ser mãe.

Que eu saiba, são duas pessoas fazendo um bebê. Que eu saiba, duas pessoas que têm alguma responsabilidade sobre o que estão fazendo. E olha, sexo pode até não dar prazer (é, que merda, acontece…) mas que se tem uma coisa que sexo faz é filho. Tudo bem, num quase breve período do mês, mas faz.

Daí que, filho feito, o pai pode ignorar. Ele pode, inclusive, ignorar solenemente, porque a mãe precisa de recursos e acesso à justiça para exigir qualquer coisa que seja daquela figura que fez sexo com ela e olha, recursos e acesso quando você está com um recém-nascido ali na parada, hum, é energia pra caramba.

“Mas fez, então que cuide”. Ué, fez sozinha? Ah, tá, só pra saber.

Daí ela entra na justiça pra pedir pensão. Consegue a pensão. O bonito atrasa, um mês porque esqueceu, no outro porque não recebeu ainda, no outro porque tá de birra daquela chata que, “nossa, que desnecessário!”, entrou na justiça pra me cobrar aquele filho. Atrasa. Atrasa porque sabe que pra que aquela mulher tenha algum respaldo da justiça, que beleza, ele precisa não pagar três meses seguidos. Quer dizer, ele ainda segue podendo não qualquer coisa que seja, mesmo que com prazo. Vem viver a vida da mãe por três meses, vem, ausentão, pra você sentir o que significa esse tempo com um filho, sabe, essa pessoa que é parte do seu legado tanto quanto do dela.

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Digamos que ele pague pensão mas não visite, não seja parte da vida daquela criança. Hoje em dia tem processo por abandono parental e nada me tira da cabeça que é pra pagar a terapia da pessoa, porque vai fazer terapia pra arrumar o emocional que a gente não é obrigada a carregar o peso (morto) de quem não é porque não quis ser e acaba que em enorme parte das vezes é assim mesmo. No fim do dia, se faça essa pergunta: você quer mesmo que um embuste que escolheu não conviver com seus filhos seja forçado a conviver? Oyá me livre de um peso desses. Perto da minha filha eu só desejo quem a ama – se eu amar essa pessoa, ui, melhor ainda.

Um casal que até pode ter sido casal, transa, faz um filho, o cara some. A mulher que fica ali sozinha tem tantos problemas reais e, sim, pode ser que aquele bebê também seja já um problema – ela só queria sexo, da mesma forma que o bonito que sumiu, já tendo feito a escolha de não querer, que é amparada por lei. Ele aborta. Ela vai abortar? Onde? Quanto custa? Pra quem ela pode contar? Com quem ela pode contar?

Por que ela não pode fazer?

Porque ela é mulher e ele é homem e, podem tentar, escrever e palpitar, nada nesse mundo vai fazer com que eu acredite que não é por este motivo, por este ridículo motivo e então eu deixo aqui o meu feliz dia dos pais e faço um convite: fale sobre aborto durante o almoço. O de hoje e o de todo dia, até que ele seja legalizado para todos, inclusive para todas.

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