Feliz 2018!, por Gustavo Gollo

Feliz 2018!

por Gustavo Gollo

Por muitos anos, minha única informação sobre a China tinha sido a leitura de 2 livros sobre o país, escritos em finais dos anos 70’s. Lembro que um deles comparava a China ao nordeste brasileiro, sendo essa a visão que eu fazia do país.

Deve ter sido por volta de 2002 que uma exposição chinesa percorreu o Brasil, trazendo relíquias antigas e contando histórias da China. Lembro de ter visto lá um sarcófago milenar que me chamou atenção pelo tamanho: no formato de uma armadura, o objeto tinha sido construído para guardar o corpo de uma pessoa muito alta. Na ocasião eu esperava que a altura dos chineses antigos não passasse de metro e meio e não teria me surpreendido com estaturas ainda menores, mas o sarcófago revelava outra coisa, o que me levou a percorrer a exposição com curiosidade redobrada, constatando que as datas dos objetos expostos não concordavam com minhas expectativas. 

A exposição me deixou perplexo, tendo revelado que o passado chinês vinha sendo omitido da história, tendo tido uma importância central no desenvolvimento da cultura humana. Na época, a omissão era total, por aqui, embora agora esteja sendo preenchida. Tenho encontrado, ultimamente, a informação de um passado chinês florescente que teria perdurado até o século XIX, sendo divulgada com a absoluta naturalidade de quem sempre soube disso. Assim, com o mesmo descaramento que um dia omitimos por completo toda a grandiosidade do passado chinês, começamos a fingir agora nunca termos perpetrado tal omissão.

Também recordo minha perplexidade em 2008, ao ver as imagens da China durante as olimpíadas. O quadro que eu fazia, de um país muito pobre, foi solapado pela visão de estruturas grandiosas e surpreendentes.

O evento precedeu a grande “crise mundial” que varreu o ocidente, tendo chegado aqui apenas como marola em face do grandioso momento que o país vivia, o maior de nossa história. No ano seguinte, ficou claro para mim que a crise se restringia ao ocidente. Os números apresentados pela economia chinesa, por essa época, contrastavam gritantemente com o pessimismo gerado pela crise. Em 2009, ficou claro para mim que a crise do ocidente consistia na incapacidade de fazer frente à economia chinesa, fato que, supus, deveria se acirrar nos anos seguintes em decorrência do crescimento chinês avassalador. Essa suposição me levou a antever uma grande guerra.

Tendemos a ver o mundo de uma forma conservadora. Embora, racionalmente, consideremos a possibilidade de mudanças, dificilmente as antecipamos, de modo que sempre esperamos que o amanhã seja igual ao hoje. Ao atentarmos para números, no entanto, percebemos, eventualmente, a iminência de desenvolvimentos resultantes em alterações inexoráveis. Pela época da crise, os números da economia chinesa eram brutais – e ainda o são, embora com outro perfil –, e apontavam muito nitidamente em direção à hegemonia econômica chinesa, e à superação econômica dos EUA pela China.

Durante anos, os meios de comunicação omitiram esse fato. Vivemos imersos em mentiras, em um mundo no qual as “notícias” são fabricadas com o propósito de nos induzir determinadas crenças tendentes a favorecer o desenrolar dos fatos em uma dada direção. Por esse tempo, os que fabricam as notícias não se preocupavam em escamotear números, permitindo-se apresentá-los cínica e desavergonhadamente, sob legendas que os interpretavam das maneiras mais descaradas.

Lembro-me, por exemplo, de uma “informação” veiculada repetidamente pouco antes do golpe,

quando os preços dos produtos de maior importância econômica na pauta de exportações brasileira tinham caído brutalmente – suspeito que os caras que vendem esses produtos, aqui, sejam os mesmos que compram no exterior, de modo que os preços constituem apenas um arbítrio para determinar onde pagar impostos –, a história era contada assim: com a redução do crescimento do PIB chinês, de 10% para 7%, a demanda por matéria primas foi reduzida, impulsionando a derrubada dos preços. A “informação” pretensamente justificadora da queda de preços, foi veiculada repetidamente durante meses. Os fabricantes de notícias parecem ter mapeado uma espécie de “lógica popular” que garantiria que a redução de uma porcentagem justificaria a concomitante redução de preço. Os caras são sarcásticos.

Até uns 2 anos atrás, quando eu relatava minha perplexidade frente ao desenvolvimento chinês, minha estupefação em relação às enormes mudanças que se assomam em face da expectativa da transição de poder para o oriente, encontrava, invariavelmente, uma forte descrença. Somos mesmo conservadores, e nos custa acreditar que o mundo possa mudar. Todos sabemos que os EUA são a grande força econômica e imaginamos que isso não possa mudar de uma hora pra outra – é o que todos pensamos. Difícil acreditar em algo diverso, embora os números sugiram outra coisa.

Os números, de fato, revelam, que a economia chinesa já superou a americana, embora haja uma variação de escala dada pela paridade dólar/yuan que faz com que as finanças americanas apareçam infladas e maiores que as chinesas. Ou seja, a economia real chinesa é significativamente maior que a americana, embora uma variação de escala apresente valores nominais que invertem esse fato. Quando o dólar deixar de ser a moeda de reserva internacional, a escala será normalizada e os valores reais da economia se imporão. Isso deve acontecer em decorrência da próxima crise econômica, quando os valores do yuan, lastreados em ouro, permanecerão firmes, enquanto o dólar, sem lastro, desvanecerá como fumaça. Simultaneamente a isso, os EUA perderão sua galinha dos ovos de ouro.

Quando começarem a dar as cartas, ao assumir o poder econômico global, os chineses quererão impor suas próprias regras, diferentes das estabelecidas e compreendidas no ocidente. Tal fato, naturalmente, irritará violentamente aqueles que sempre mandaram, e que definiram todas as regras e diretrizes vigentes na atualidade.

Os que sempre deram as cartas não conseguirão compreender nem os motivos nem as razões dos oponentes, e nem ao menos tentarão fazer isso, hábito em que nunca se exercitaram, aliás.

Creio ser extremamente difícil conseguir evitar que a transição de poder dispare um conflito irrefreável que irromperia em uma guerra mundial, um evento apocalíptico muito além de nossa imaginação. Uma guerra total, destruidora de toda a civilização, que pouparia apenas uns poucos grupos entocados em buracos, nos quais ficariam obrigados a permanecer durante décadas, em meio a um planeta arruinado e emporcalhado.

Uns anos atrás, pressenti que o antigo presidente americano seria reeleito, e que daria continuidade a seu governo. Mas que o presidente seguinte seria eleito com um discurso radical exigindo acabar com a crise de qualquer maneira, resultando tal finalidade em uma guerra avassaladora. Foi tal raciocínio que, naquela época me fez temer uma guerra em 2017, temor que alardeei por um bom tempo, desde quando aventar tal possibilidade parecia um desvario inusitado.

 

É com alívio, naturalmente, que constato minha profecia equivocada.

Chegamos ao final de 2017 sem que o conflito tenha sido disparado. Comemoro o erro! Creio mesmo que tal fato seja motivo para comemoração, ainda que os riscos permaneçam enormes. Algumas coisas, no entanto, ficaram mais claras.

Creio que os chineses conseguiram pelo menos duas grandes vitórias, esse ano: abafaram as disputas no Mar da China, questões que ameaçavam se transformar no estopim do conflito bélico, e começaram a se levantar, passando a revelar sua verdadeira estatura, até agora oculta, omitida deliberadamente com o propósito de evitar conflitos. A diplomacia chinesa, aliás, tem demonstrado uma sapiência auspiciosa, em forte contraste com o estabanamento brutal ao qual os americanos acostumaram o mundo inteiro. A constatação merece louvor. Devo ressaltar que a diplomacia chinesa tem me parecido tão promissora que me faz vislumbrar a possibilidade de uma transição de poder não traumática.

De fato, o desafio dos chineses já não corresponde mais à obtenção da hegemonia mundial, mas em conseguir fazer com que a transição econômica ocorra sem a necessidade de confrontação bélica. O cobertor dos americanos está ficando cada vez mais curto, e, em resposta às novas dificuldades, disso decorrentes, o presidente americano tem facilitado as coisas para os chineses, isolando-se de todos os outros, permitindo, assim, que os chineses assumam as rédeas e o controle do mundo, sem a necessidade de arrancá-las com rispidez.

 

Presenciamos também, em 2017, a inusitada contenda, no mais fanfarrão estilo colegial, entre o presidente americano e o norte-coreano. Tendo iniciado o ano com provocações do americano, quase imediatas à sua posse, a bufoneria foi ganhando palco com as sucessivas e bombásticas respostas da RDPC, que tratou de aproveitar os holofotes para pasmar o mundo duplamente: com poderosíssimos foguetes e bombas nucleares, um portento!

Convém notar a conveniência das pirotecnias coreanas ao desviar a atenção das contendas sobre o Mar da China. O último foguetório, atiçado por provocações americanas, aliás, pareceu também muito oportuno aos que lucram com guerras e matanças, para convencer a todos da necessidade de implantação de mais um sistema de defesa em torno dos EUA, a preços estratosféricos, como de praxe. A conveniência se estendeu aos coreanos que, naturalmente, precisavam testar seus novos sistemas de propulsão.

 

Toda a balbúrdia ocorrida em 2017, apesar de tudo, me deixou bem mais otimista que um ano atrás, especialmente devido à confiança na habilidade diplomática chinesa, que, agora, pressinto até capaz de, sem destruições, reincorporar Taiwan, delicadamente, evento que eu acreditava que necessariamente detonaria uma guerra.

A estratégia chinesa parece ser a de, muito pacientemente, imprensar os poderosos do ocidente conquistando, passo a passo, vagarosamente, o domínio de cada um dos pontos de comando, assumindo cada controle por vez, evitando tomadas bruscas que poderiam levar a confrontos de tipo tudo ou nada, nos quais o oponente não teria nada a perder. A constatação de que haja sempre mais a perder é o que impedirá a deflagração de grande uma guerra. Precisarão também se acostumar com a perda. O isolamento americano autoimposto coaduna-se perfeitamente com tal plano, encaixando-se nele como uma luva, o que me leva a crer que 2018 e 19 venham a ser anos tranquilos apesar da efervescência e da acumulação de tensões.

A derrocada americana, no entanto, o desmoronamento subsequente à perda do controle financeiro mundial, apimentará o solo local, deixando os EUA em ebulição. O mundo inteiro poderá ferver em consequência.

Penso que a grande questão global, hoje, continua sendo como evitar a grande guerra.

  

Sobre guerras contemporâneas

Vídeos de cidades destruídas, como Aleppo nos dão uma breve noção das guerras atuais. Imagens de refugiados também nos mostram um outro ângulo do mesmo flagelo absurdo. Mas essas são as consequências das “boas guerras” – não consigo encontrar expressão adequada para o descalabro, mas preciso qualificar as guerras de algum modo, mesmo absurdo, e ocorre que existem guerras ainda piores, tidas como inaceitáveis. A guerra nuclear é um desses tipos, o mais amedrontador, de acordo com os meios de comunicação.

Uma guerra nuclear seria obviamente catastrófica, a tal ponto que nenhuma de minhas palavras será suficiente para lhe pintar, havendo no entanto vídeos e fotos, de Hiroshima e Nagasaki, capazes de nos dar uma pálida estimativa, à distância, do sofrimento gerado por tal calamidade. Uma breve olhada em tais registros nos revela porque as armas nucleares são inaceitáveis. Somam-se a essas imagens, considerações acerca da contaminação capaz de emporcalhar todo o planeta por um longo tempo.

Talvez porque essa forma de guerra já seja tão absurda e inaceitável, temos falado menos de outras, tão ou mais assustadoras.

As guerras químicas, no entanto, podem causar quantidades de mortes também brutais, arrasando, sozinhas quase toda a humanidade, além de possuir imenso poder de contaminação. Podem, além disso, causar sofrimentos de tipos bem específicos, como dores variadas, desespero, loucura, medo, e tudo isso somado.

Não sei como andam as ameaças biológicas, talvez o mais forte receio sobre elas seja a possibilidade de fugir ao controle. A ameaça de doenças variadas, algumas artificiais, oriundas de manipulações genéticas de diversas ordens levanta possibilidades catastróficas ilimitadas, em um espectro muito mais variado que o do conjunto de males que já afligiu a humanidade até agora. Temos o poder de transformar o mundo em um lugar verdadeiramente ameaçador e tenebroso.

A nanotecnologia também oferece aos assassinos, patrocinadores das guerras, vastas opções de sofrimento e matança de maneiras desconhecidas e aterrorizantes. Em conjunto com a inteligência artificial a ameaça ultratecnológica seria arrasadora, e englobaria todo leque de ameaças imagináveis. Todas as monstruosidades materiais estarão disponíveis em breve.

Embora seja difícil escolher, dentre todas, a mais aterrorizante, e mesmo considerando a possibilidade de indução de pânico coletivo através de substâncias químicas, que somadas a outras, causadoras de dor ou ira, nos conduziria a manipulações enlouquecedoras, talvez as armas inteligentes se revelem ainda mais aterrorizantes, além de crescentes em escala exponencial. A escolha é dificílima, e o o cardápio brutalmente indigesto.

As considerações acima nos infundem inúmeros receios e temores, e apenas uma certeza: há que se parar a guerra!

Feliz 2018!

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