Feminismo e o ‘Me ne frego’ no Festival de Sanremo provocam novas demonstrações de intolerância na Itália, por Arnaldo Cardoso

Mas foi a nada convencional performance do cantor Achille Lauro que fez explodir a ira dos raivosos moralistas, que se propagou como virus nas redes sociais.

Feminismo e o Me ne frego no Festival de Sanremo provocam novas demonstrações de intolerância na Itália

por Arnaldo Cardoso

Enquanto na última semana no Brasil vimos mais uma ação violenta – cassação de obras literárias – por parte de executores de uma política que visa afirmar uma pretensa superioridade cultural e moral para o país, na Itália, país do qual recebemos expressivo contingente de imigrantes no século passado e com o qual criamos profundos laços culturais, viu-se mais um capítulo na escalada de demonstrações  de intolerância por grupos extremistas de direita, desta vez em oposição a um tradicional evento musical.

O Festival de Sanremo que nesta edição comemorou seu 70º aniversário é o principal festival de música popular do país e aconteceu poucos dias após a emblemática eleição regional na Emilia Romagna que ganhou status de referendo nacional com campanha  marcada por temas morais e intolerância com a diversidade – característicos da campanha de ódio que o partido Liga, de extrema direita, vem difundindo pelo país –.

A abertura do festival teve como um de seus pontos altos o discurso da jornalista e escritora Rula Jebreal, nascida em Haifa mas de origem nigeriana, levantando alto no palco do Teatro Ariston a bandeira da luta contra a violência de gênero. A jornalista lembrou o suicídio de sua mãe, atormentada pelas lembranças de estupros sofridos na adolescência. 

Ao final de seu discurso, assistido por sua filha emocionada na plateia, Rula concluiu com as seguintes palavras “Não devemos mais ter medo. Nós, mulheres, queremos ser livres no espaço e no tempo, ser silêncio e barulho. Queremos ser justamente isso, música.” O discurso nem tinha terminado e já era alvo de manifestações de ódio e racismo nas redes sociais.

Mas Rula não foi a única vítima da intolerância; entre os vinte e quatro artistas  que se apresentaram nas noites do festival, a cantora feminista Levante com sua música Tikibombom e o cantor Achille Lauro com Me ne frego foram os principais alvos de integrantes e simpatizantes de grupos neofascistas, neonazistas e apoiadores dos partidos de direita e extrema direita que nos últimos anos cresceram em toda a Itália e, estimulados por políticos como Salvini, se mostram cada vez mais desinibidos. 

Com a música Tikibombom, a cantora Levante defendeu a diversidade e se dirigiu com empatia a todos os que não se reconhecem com a multidão, com os padrões estabelecidos, e alertou sobre o perigo das “almas sem sonhos prontas para levá-lo com eles“.

Mas foi a nada convencional performance do cantor Achille Lauro que fez explodir a ira dos raivosos moralistas, que se propagou como virus nas redes sociais.

O jovem cantor chegou ao palco do teatro descalço e coberto por uma capa de veludo preto bordado em dourado e, em trinta segundos se desfez da  capa revelando um corpo desnudo repleto de tatuagens e envolto por um fino macacão aderente e da cor da pele com aplicações de brilho. Durante quase quatro minutos cantou e desfilou seu corpo seminú intercalando provocativas e debochadas poses diante da orquestra que o acompanhava e de uma platéia surpresa.

Em nota posterior o cantor explicou que seu figurino foi inspirado na história de São Francisco, no despojo de seus bens. A história do despojo do santo está retratada nos afrescos atribuídos a Giotto na Basílica de Assis.

Críticas sobre o duvidoso gosto do figurino de Achille Lauro e das contradições de sua performance alegadamente inspirada no santo dos pobres mas adornada por caro figurino da poderosa marca Gucci, ou mesmo quanto a futilidade da letra da música, fazem parte do pacote que envolve festivais como esse, inseridos na indústria do entretenimento, com similares em diferentes países. Entretanto, o que se viu e merece registro e repúdio é o teor de ódio, intolerância e racismo das manifestações que se seguiram nas redes sociais. 

Toscos censores que hoje se arvoram o direito de representar e defender os legítimos valores da Pátria italiana, se referiram à jornalista Rula Jebreal como “puttana di una negra” e ao cantor Achille Lauro como “rottinculo tossico feccia lúrida”. Um outro um pouco menos violento se referiu ao festival como “show obsceno que contraria qualquer princípio ético-moral”. Vomitando ódio um outro conclamou a violência com o chamado “non ho parole cazzo, è ora che ci ribelliamo e iniziamo le stragi” Até a RAI  (Radiotelevisão da Itália) foi alvo de protestos pela exibição do festival por supostamente atentar contra os “bons  valores” da sociedade italiana.

É significativo que escândalos sexuais (bunga bunga) envolvendo prostituição, drogas e corrupção como aquele em torno do ex-Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, magnata das telecomunicações e recorrente aliado político de grupos de direita no país, não provoquem a mesma reação dos tais moralistas.

A motivação do espaço dado pelos organizadores dessa edição do Festival de Sanremo ao tema da violência de genêro não foi aleatória. Em 2019 na Itália foram registrados 142 feminicídios, além de outras tantas violências de gênero, o que colocou o país em vergonhosa posição nos correspondentes rankings internacionais.

Rula Jebreal, em seu discurso no festival citou duas perguntas feitas em um tribunal italiano a duas vítimas de estupro “Você usava roupas íntimas naquela noite?” e “Você acha sexy homens que usam jeans?“. Disso podemos inferir que uma cultura machista, de violência e possessão, se manifesta não só na ação dos perpetradores dos crimes de gênero.

Vale registrar também que mesmo antes do festival Matteo Salvini já vinha fazendo campanha em suas redes sociais que contam com milhões de seguidores propondo boicote ao festival e instigando ódio à comunidade LGBT e outras minorias que, junto aos imigrantes, são os alvos preferenciais do saudosista do fascismo e de seus seguidores.

Acompanhando a ascensão da Liga de Salvini que hoje é o primeiro partido político em intenção de votos na Itália, as estatísticas dos crimes de ódio passaram a mostrar curva ascendente. Pesquisadores italianos sobre a extrema direita (ou da alt-right) já vinham apontando essa tendência mesmo antes da fatídica eleição de março de 2018 que levou Salvini ao Palácio Chigi e para onde almeja voltar.

Certamente a Itália enfrenta sérios problemas  econômicos, políticos e sociais mas o tipo de orientação política que partidos de extrema direita como o liderado por Salvini vem dando a seus seguidores vai na direção oposta ao da necessária construção de respostas viáveis aos problemas reais que afligem os cidadãos,  construídas por meio do diálogo e da negociação política que possam inclusive corrigir e assim assegurar a manutenção da democracia e do próprio Estado de direito no país.

A história da segunda metade do século vinte na Itália, de reconstrução das ruínas deixadas pelo totalitarismo e a guerra, mostra que seus melhores empreendimentos se deram em contextos onde a liberdade propiciou a criação e a inovação.  Hoje os setores econômicos em que a Itália ainda se destaca são aqueles em que a liberdade criativa se juntou à técnica. O design italiano é fonte de agregação de valor para diversos setores como o da rica indústria da moda, da automobilística, dos revestimentos cerâmicos, da movelaria e das luminárias, da computação gráfica entre outras.

A liberdade no campo das artes, permitiu ao cinema italiano ser um importante instrumento de projeção do país no mundo através de mestres como De Sica, Rosselini, Fellini, Visconti, Monicelli, Bertolucci, Moretti, Sorrentino, entre outros. 

Neste 70º aniversário do festival que já consagrou em seu palco cantores como Lucio Dalla, Lucio Battisti, Fabrizio de Andre e outros mais populares como Eros Ramazotti, Laura Pausini e Andrea Bocelli projetando internacionalmente a música italiana, o seu principal desafio se mostrou ser, mais que a divulgação da música italiana, o da defesa da liberdade de expressão associada ao respeito à diversidade e à dignidade humana, essencial ao desenvolvimento de sociedades livres, plurais e prósperas.

Arnaldo Cardoso, cientista político

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