Financeirização da Riqueza: Uma discussão-síntese

O chamado “processo de financeirização da riqueza” se tornou termo recorrente nas análises econômicas, ocupando teses acadêmicas, artigos de jornal e o vocabulário corrente dos economistas como parlenda que a tudo define, sem nada explicar

Por Nathan Caixeta

O chamado “processo de financeirização da riqueza” se tornou termo recorrente nas análises econômicas, ocupando teses acadêmicas, artigos de jornal e o vocabulário corrente dos economistas como parlenda que a tudo define, sem nada explicar.

Desde Minsky, a literatura “pós-Keynesiana” revira os fatos estilizados sobre o desacoplamento entre valorização financeira da riqueza e a evolução da dinâmica econômica, tal como, da relação decrescente entre a taxa de investimento das empresas e os lucros e dividendos distribuídos aos acionistas. Uma multidão enciclopédica de definições foram criadas para definir “o que é financeirização” e suas relações com os demais vértices da sociabilidade moderna, o neoliberalismo e a globalização.

Esclarecidas fartamente pela literatura especializada as transformações nos sistemas financeiros internacionais, nas cadeias globais de valor e na divisão internacional do trabalho a partir dos anos 1980, os embates em torno dos contornos mais refinados sobre a financeirização persistem sem estabelecer um lado vencedor.

A inauguração do debate, ao contrário de estabelecer recortes históricos que anteponham o período de acumulação “produtivista” e o período recente marcado pela financeirização, deve encetar-se da distinção teleológica (essencial) sobre “o que se está falando”.

Ora, a financeirização é um conceito útil para descrever certos aspectos da globalização, ou um processo histórico autônomo? Mais ainda é desdobramento integrante do “movimento geral” do capital na mercantilização de todas as esferas da existência humana e social?

Essa pequena síntese desdobrará estes três caminhos teóricos, almejando exprimir um ferramental útil para o entendimento da financeirização da riqueza.

Desde logo, assume-se a financeirização como um “novo processo de gestão da riqueza capitalista”. Essa definição prescinde de um adendo essencial: por novo, não entende-se um fenômeno evolutivo das formas de valorização do capital, mas a complexificação qualitativa da gestão da riqueza capitalista, somente possível pelo conjunto de transformações do capitalismo no momento fúnebre dos “30 anos gloriosos do capitalismo” (1950-1980) e do nascimento do processo de globalização a partir da retomada da hegemonia americana.

A primeira hipótese de que a financeirização é um efeito colateral da globalização, tropeça em seu próprio pressuposto, pois ancorado na noção de que a ampliação das relações produtivas, comerciais e financeiras empreendidas a partir da internacionalização das grandes corporações teriam como causa inerente movimentos de ajuste simétrico tanto das políticas econômicas nacionais (o que de fato verificou-se), quanto das estratégias empresariais cada vez mais ancoradas em suas posições de crescente endividamento na ampliação de suas oportunidades de investimento a partir da abertura e liberalização dos mercados de mercadorias e capitais. Esta interpretação não leva em conta que a despeito da crescente interpenetração comercial e financeira das grandes corporações nos espaços nacionais, a alegada promoção generalizada da concorrência em âmbito global, verificou-se em crescente centralização do poder financeiro das grandes corporações, revelando operações “ofensivas” (especulativas) da liquidez, partilhando os riscos particulares das operações financeiras e elevando os riscos sistêmicos de financiamento das posições especulativas.

A ideia da financeirização como processo autônomo, resumidamente, refere-se à disseminação de novas práticas empresarias que condicionam as decisões de investimento das empresas à administração de suas posições de financiamento crescentemente submetida à “ditadura dos mercados financeiros”, na perseguição diletante dos parâmetros de remuneração dos mercados financeiros, impulsionando reestruturações das estratégias produtivas e comerciais, além de intensos processos de “enxugamento” das estruturas administrativas e, por fim, processos crescentes de fusões e aquisições, para além, de recompra de ações. Portanto, tais considerações exprimem reestruturações internas das empresas sob o império da doutrina de maximização de retorno aos acionistas, preservando os estoques de riqueza negociados nos mercados financeiros pela gestão eficiente dos fluxos produtivos e comerciais conectados pelas cadeias globais de valor. O “calcanhar de Aquiles” de tal interpretação é desconsiderar às interligações sistêmicas entre o crescente endividamento de famílias, empresas e governos, como processos sistêmico de manutenção da riqueza financeira em constante ameaça de diluição.

A financeirização enquanto desdobramento dos aspectos estruturais do processo de acumulação capitalista, calcada na raiz Marxista, entende que as transformações ocorridas a partir da globalização (internacionalização das empresas e bancos, reordenamento da divisão internacional do trabalho, intensificação do progresso técnico e ampliação dos mecanismos de “troca de risco” trazidos pelas transformações no sistema financeiro internacional) permitiram a dinamização da “inescapável” autonomização da reprodução fictícia e creditícia (D-D’) do capital em relação à órbita da realização, ou produção (D-M-D’), deste modo, aprofundando a redundância do trabalho enquanto expressão da “lei geral da acumulação capitalista”, a miserabilidade do trabalho (mais-valia) para a valorização da “taxa de lucro global” do capital e, finalmente, da dominância do progresso técnico a partir da reprodução fictícia. A insuficiência teórica dessa interpretação ligada à “teoria monetária do valor” dentre os marxista, revela-se na negação do caráter revolucionário do capital, ao impor o determinismo da “raiz fictícia” do capital sobre o trabalho.

Ao empreender-se a compreensão da financeirização da riqueza enquanto “padrão sistêmico de gestão da riqueza capitalista”, marcadamente influenciada pelas contribuições de Luiz Gonzaga Belluzzo e José Carlos Braga ao proporem uma “teoria da valorização do capital”, colecionam-se elementos das três visões que foram objetos de crítica dos parágrafos anteriores, possibilitando uma compreensão esquemática do padrão sistemático de gestão da riqueza empreendido pela financeirização enquanto processo “não-determinístico” da ressignificação dinâmica entre a realização, valorização e acumulação de capital.

Aqui se encontra a separação conceitual entre as três orbitas de reprodução do capital: 1) a realização do capital circunscreve-se aos ciclos de rotação do capital na esfera da produção e comercialização de mercadorias, encerrando na extração de mais-valia, e expansão da mais-valia relativa e absoluta pelo continuo processo de recomposição orgânica do capital (progresso técnico); 2) A valorização do capital refere-se a expansão da massa de lucros global reproduzida em todas as orbitas do capital – comercial, produtiva, creditícia e fictícia – inaugurando e encerrando tendências na taxa de lucro global, logo nos ciclos  endogenamente determinados de ascensão e crise da acumulação; 3) a acumulação de capital refere-se ao continuum da valorização do capital, como expressão infinita do potencial de valorização do capital, isto é, de expansão da massa de lucros que realiza-se de forma autônoma, porém não descolada da exploração do trabalho (geração de mais valia).

Feitas tais reposições conceituais, é possível resumir sinteticamente um esquema suficiente, mas longe de estar completo, do processo de financeirização da riqueza:

A partir deste esquema analítico, depreendem-se as seguintes relações sistêmicas sobre o modo de gestão da riqueza capitalista representado pela financeirização:

  • Há a interligação sistêmica entre o endividamento dos Estados Nacionais, Bancos, Empresas e Famílias abrigados pelo universo de possibilidades de aplicação dos sistemas financeiros;
  • As posições financeiras ativas são financiadas por posições passivas de proteção (Hedge), Especulação e Alavancagem Financeira no compartilhamento dos riscos inerentes as posições financeiras, criando sistemicamente as condições contraditórias de expansão e ruptura do estoque de riqueza associado as posições de investimento/financiamento assumido pelos agentes econômicos;
  • O endividamento das famílias refere-se ao “relaxamento” do crédito para consumo de bens crescentemente referidos ao Status social e à felicidade (aspecto da globalização dos padrões de consumo);
  • O endividamento privado é insuflado pela necessidade de manutenção de suas posições de financiamento “marcadas à mercado” pela eficiência na distribuição de dividendos e recompra de ações;
  • O crescente endividamento público “referenda” a expansão do endividamento privado ao prover liquidez na tentativa de impedir processos de dissolução dos estoques de riqueza e insolvência das posições de financiamento;
  • Estes elementos reunidos multiplicam a capacidade de valorização global do capital, comandada pela lógica fictícia na imposição dos parâmetros financeiros às estratégias de administração dos níveis de investimento das empresas e de gestão do grau de “solvência” dos Estados Nacionais;
  • Por fim, o progresso técnico é movido pela dupla necessidade: de revolucionar os métodos de produção, distribuição e consumo, controle militar e intervenção governamental; e por outro, impulsionado pela lógica financeira, gerar “horizontes” de valorização do capital a partir da crescente recomposição orgânica do capital, isto é, substituição crescente do capital variável (trabalho) pelo capital constante (Sistema de máquinas);
  • Todos estes elementos, acarretam na ligação lógico-genética entre valorização e acumulação de capital, revelando a partir das múltiplas interações da “nova forma” de gestão da riqueza capitalista, o sentido contemporâneo da acumulação “infinita” de capital a partir de sua autodeterminação qualificada pela financeirização da riqueza.

*Este texto é fruto de notas de uma aula sobre financeirização da riqueza para turma de Economia Internacional III da graduação em Ciências Econômicas da Unicamp. De antemão agradeço aos meus alunos, por apoiarem o esforço de um professor em início de carreira.

Sobre o Autor: Graduado em Economia pela FACAMP, Mestrando em Desenvolvimento Econômico pelo IE/Unicamp e Pesquisador do Núcleo de Estudos de Conjuntura da FACAMP (NEC/FACAMP).

OBS: Esse texto é de total responsabilidade do autor e não reflete a opinião das instituições citadas

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