Forças Armadas e genocídio, por Roberto Bueno

Desde o seu alvorecer o Governo Bolsonaro adota como método para o exercício do poder a adoção de políticas de extermínio da população brasileira em todas as esferas, o que precede a crise do Covid-19.

Forças Armadas e genocídio

por Roberto Bueno

A atual crise brasileira e o gravíssimo impasse político e institucional do país não é passível de abordagem e compreensão sem a análise do papel central das Forças Armadas (FA). Hoje elas são a verdadeira fonte do poder, para além da Presidência da República (PR), que apenas exerce função decorativa (plano estético) e aglutinadora de setores populares (plano político), posto que a própria PR, reitera que as FA “estão com ele”, retórica que em matéria política pode ser entendido como pedido de socorro de um poder debilitado, a expor que ele, em verdade, já não é a real fonte do poder, senão aquele que o “apoia”.

O papel das FA no presente imbróglio político é diretamente derivado do golpe de Estado de 2016, dos estratagemas de toda sorte utilizados por uma amplíssima frente de direita e extrema-direita representativas de diversos segmentos sociais que redundaram em manobras eleitorais articulando instituições, recursos econômicos vastíssimos oriundos do exterior juntamente com tecnologia digital para aplicação massiva, aliando a uma estrutura de poder política, midiática e judicial para impedir a candidatura de Lula – e o famoso Tweet de Villas Bôas em tom de interdição a Lula às vésperas de decisão do STF foi apenas exemplo –, processos montados contra o candidato petista à Presidência, assim como outras medidas para conter a livre participação do Partido dos Trabalhadores (PT) em todos os processos que envolveram as eleições de 2018 assim como facilitando processos repressivos do campo político progressista. As FA não se constrangeram em intervir neste processo, em todas as óticas, altamente custoso.

Sobre a repercussão pessoal do papel desempenhado por membros das FA no atual contexto político Aldo Fornazieri publicou texto no último dia 18/05/2020 no site de notícias Jornal GGN intitulado “A destruição do Brasil e a desmoralização dos militares”, em cujas últimas linhas o autor chamava a atenção para que “As biografias dos integrantes desse governo aparecerão cobertas por milhares de cadáveres, pela fome e pela miséria, pelo desgoverno, pela desmoralização do Brasil no mundo e pela traição do povo”. O autor atenta certeiramente em seu texto para que parte dos militares podem ter encontrado forte motivação para apoiar o insustentável projeto de poder em curso em face da oportunidade de ocuparem postos na administração do Estado, recebendo atraentes valores econômicos incorporados aos seus respectivos patrimônios, utilizando a oportunidade histórica para melhor aquinhoar a sua descendência. Transcendendo aos limites da estrita racionalidade, Fornazieri acertadamente apelou ao fato de que tais recursos econômicos não serão suficientes para bloquear o provável sentimento de vergonha dos familiares destes militares que servem ao Governo Bolsonaro, que “[…] sentirão vergonha de seus antepassados porque se trata de um governo sem honra, sem moral e sem humanidade”, aspecto no qual em muito recorda o ocorrido historicamente com descendentes do nazismo em sua constante tentativa de livrar-se dos crimes de seus antepassados, o que incluía até mesmo trocar nomes. O que está hoje em causa é que absolutamente nenhum recurso econômico irá lavar o sangue que manchará o conjunto dos bens econômicos legados por estes militares, e o que é pior, que os seus nomes entrarão para o reino da inglória, panteão do opróbrio familiar, daqueles a quem se deseja esquecer eternamente.

Desde o seu alvorecer o Governo Bolsonaro adota como método para o exercício do poder a adoção de políticas de extermínio da população brasileira em todas as esferas, o que precede a crise do Covid-19, caracterizando todas as suas medidas pela exclusão e empobrecimento, promoção do desemprego e restrição ao acesso à saúde, além de ampliar as possibilidades de intervenção policial para além dos limites legais restritivos de abusos. A administração Bolsonaro dá azo à contínua humilhação do povo no plano interno assim como da íntegra da nação no plano internacional. O apoio das FA a este quadro denota que elas não apresentam no plano prático nem moralidade superior nem desempenham o papel “redentor” que a sua tradicional autoimagem lhe indica, senão o contrário, pois sob a sua administração o Brasil não participa de esforços internacionais pela descoberta de possível vacina para o Covid-19 nem de foros internacionais, algo exemplificado por não ter sido convidado para o lançamento da “Colaboração Global para Acelerar o Desenvolvimento, Produção e Acesso Equitativo a diagnósticos, tratamento e vacina contra o Covid-19”. É esta a “alta qualidade” que os orgulhosos oficiais das Agulhas Negras, que os egressos da ESG pretendem imprimir na administração pública brasileira? O país precisa ter absoluta consciência da limitação desta massa de milhares de homens que pretende colonizar a administração pública como se tivessem o preparo necessário para atuar em todas as áreas, sem exceção, a exemplo do General Eduardo Pazuello, imposto ao país como Ministro da Saúde, especialidade para a qual – de serem levadas a sério as informações constantes em seu currículo – desponta para o anonimato dado ser um olímpico desconhecedor.

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Acaso as FA nutram a expectativa de que o seu apoio a um governo “apenas” medíocre passasse despercebido, definitivamente, este já não mais poderá ser o caso, pois já foi veiculada pelo New York Times – a expressiva bíblia mundial da mídia corporativa – a informação de Bolsonaro abraçado a crianças pobres nesta época de pandemia, ademais das imagens de milhares de covas e de caixões. A imagem do Brasil e, por conseguinte, dos militares que o sustentam, foi definitivamente atingida. Tudo o que a administração Bolsonaro tem a oferecer ao Brasil não passa disto, covas e caixões, cumprindo assim a sua declaração dada no início de seu mandato, de que tinha como propósito destruir tudo. Justamente aqui entram os militares. Hoje, quando este projeto de radicalização transpôs a retórica e entrou em fase de execução e a destruição nacional está em curso, já se mostra tardio o momento de que os militares abandonem o Governo. Demolir e destruir tudo quanto diga respeito aos interesses da soberania nacional, da educação e da produção, assim como da indústria e as áreas estratégicas para o desenvolvimento, eis aqui a regra e pauta geral da atual administração ancorada nas FA.

Ao associar-se inicialmente a esta tipologia de projeto de poder é admissível que – não sem manter relativo grau de benevolência quanto a capacidade de avaliação institucional – setores das FA possam ter cometido equívoco de avaliação. Sem embargo, alcançada a presente quadra e perante a gravidade histórica dos fatos que impõe dezenas de milhares de mortos como horizonte possível, é exigível que, no mínimo, urgentemente reconheçam o erro e tomem as medidas corretivas. Até agora não há o menor sinal de que venham a fazê-lo, mesmo sob o horizonte de ignomínia para os seus membros conforme desenhado por Fornazieri. O fato de continuar a sustentar este regime implicará tão somente em sujar as suas fardas com sangue, e muito sangue, de brasileiros(as), crianças, jovens, adultos, idosos, todos, absolutamente todos, e para isto não haverá nunca, jamais, qualquer justificativa plausível.

Qual a motivação última conducente das FA a manter apoio a este regime de morte e extermínio? Acaso a resposta se encontraria nos mais de três mil militares distribuídos em toda a administração pública e em função voluptuosamente crescente desde o golpe de Estado de 2016? É que acaso faltam egressos das melhores universidades brasileiras para preencher os mais altos postos da administração pública? Acaso são escassos os técnicos e especialistas em todas as áreas do conhecimento a ponto do país ter de recorrer a indivíduos que, segundo as palavras do Presidente da República, são “especialistas em matar”? Afinal, se a finalidade é planejar e administrar os destinos de um país, qual a confiança que merecem indivíduos cuja declarada especialidade é matar, e que não hesitam em defender regimes cujas políticas públicas adotadas na área da educação têm por escopo a realização de diuturnos ataques às Universidades e ao conjunto da ciência? Este é o perfil mais moderado do regime cuja versão crua genocida os militares dão sustentação. Os generais que o fazem estarão a mobilizar o “melhor de seus conhecimentos” para sustentar um regime que divulga que a terra é plana?

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A nenhum ator ou observador mediano escapa que este regime militar é insustentável, especialmente às altas patentes e os mais estrelados uniformes que operam desde dentro ou que dele tem uma visão privilegiada a partir da estrutura interna das FA. É de supor que adentramos na fase em que o poder real, as FA, começam a voltar a sua atenção exclusivamente aos meios de sustentação do Governo antes de lançar mão do último recurso típico dos regimes autoritários. Indubitavelmente alcançamos um momento em que a manutenção de regime que já conduziu o país ao desastre transcende os limites do equívoco que as FA poderiam ter cometido, e adentramos violentamente no território de crimes contra a humanidade, que oportunamente haverão de ser julgados pelo tribunal da história.

Em face do regime genocida com que se deparam, ao invés de retroceder, as FA apertam ainda mais fundo no acelerador, potencializando as condições para o desastre do país ao qual tem o dever de servir. Os limites para o mal são desenhados pela história em seu tempo e momento, e não raro são imprecisos e imperceptíveis ante a cegueira humana propiciada pela avidez por bens materiais e interesses imediatos. Vertido o sangue popular, atingindo proporções oceânicas, mesmo a sede inaudita por poder e privilégios não encontrará alternativa senão retrair ante a enrubescida cólera da humanidade. No pós-guerra os criminosos militares alemães foram apresentados ao genocídio como mácula irreparável para os perpetradores. A pauta de Nuremberg parece inesgotável.

Roberto Bueno – Professor universitário. Doutor em Filosofia do Direito (UFPR). Mestre em Filosofia (Universidade Federal do Ceará / UFC). Especialista em Direito Constitucional e Ciência Política (Centro de Estudios Políticos y Constitucionales / Madrid). Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Direito (UnB) (2016-2019). Pós-Doutor em Filosofia do Direito e Teoria do Estado (UNIVEM).

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2 comentários

  1. Nassif: como prometido, nem dou pitaco fundamental nas notícias, como essa do seu Blog, quando desnuda o verdadeiro papel do Exército no quadro institucional brasileiro. Mas não impede que possa sugerir rumos. Agora, por exemplo, recomendo que se faça um levantamento dos movimentos da caserna, verde e azul, desde início do segundo turno, quando despontava o SapoBarbudo como vencedor. Dalí começam as tramoias, o movimento da “tropa”, que culmina em 2016. Investiguem “ordem-do-dia”, falas conspiratórias na grande mídia, especialmente do JardimBotânico, que dominava o cenário midiático da época. Junte os cacos e verá que o Mensalão já era produto desse conluio dos gringos com as cores verde e azul. Cruze com os informes dos sabujos do PrincipeParisiense (a mando deste). Acompanhe os inquéritos, troca de favores, viagens, patrimônios, inclusive familiares. Apurem com técnicos das respectivas áreas. Cá pra mim isso vai dar até um livro. Mostre ao populacho como são seus algozes. Aos poucos há de cair o véu…

  2. Mais um artigo que parece querer apelar para os “valores” de “alguns”.
    Tipo: gerar uma crise de consciência (!).
    Não sei se rio ou choro, se acho isso ingenuidade ou cobardia.
    Não sabem da ordem dada para atirarem nos que recolhiam corpos?
    Isso, ainda que numa guerra declarada, é crime.
    Houve punição? Alguém se importou?
    Não?
    Pois agora o Haiti é aqui.

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