Fundação Casa de Mãe Joana à parte ou Governo golden shower, por Armando Coelho Neto

Cumpre indagar se o que nos angustia, escandaliza e nos envergonha nacional e internacionalmente atinge esses contingentes

Fundação Casa de Mãe Joana à parte ou Governo golden shower

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Aconteceu no final do ano passado, quando inventaram a simpatia para ganhar dinheiro em 2019. Bastaria pular 17 ondas e dizer: “Queiróz, Queiróz! Faz um depósito pra nós”. O pobre preto e coitado, que por pouco não apanhou da polícia por haver barrado um branco remediado na boate, não tem a dimensão real do mundo que o cerca. Nem posso criticar o infeliz por isso, sobretudo por não ser o único. O balconista da farmácia, a caixa do supermercado, a mocinha do sacolão idem. O provável é que muito mais gente que votou no Coiso não saiba quem é Queiroz.

A desinformação me reportou a uma faxineira da PF paulista, que levantava às quatro da manhã, fazia o lanche dos filhos, pegava três transportes e conseguia chegar no trabalho antes das sete horas. À noite, assistia novelas da TV Globo, ao contrário da amiga que cumpria ritual parecido, mas tinha que fazer não sei o quê como missão evangélica. Falo de um quadro não exclusivo delas, mas de gente simples, em geral de cabeça ocupada com coisas que não passam pela mente dos remediados. A que hora essa gente coitada iria se informar sobre os destinos do país ou dos filhos? Quais os critérios que utilizariam para escolher candidatos, toda  essa gente cujo fim de semana é Faustão, Silvio Santos ou uma igreja qualquer.

Eis um contingente absurdamente desinformado e que se defende da angústia do noticiário mudando de canal. Eis parte daquela gente que, segundo o falecido escritor José Saramago, vota em alguém apenas na expectativa de que seja melhor que o outro. Aqui, especificamente, falo de um contingente que pode mudar de candidato de um turno pra outro. Conheci nas minhas andanças gente que no passado votou no Alckmin no primeiro turno e mudou para o Lula no segundo. Gente de voto flutuante que quando se soma a outros contingentes (religioso, raivoso, que anula voto ou se abstém etc) pode definir uma eleição.

Uma pesquisa do IBGE projetou para 2018 um total de 38,6 milhões de eleitores evangélicos, um número significativo se comparado aos 54 milhões de votos dados a Dilma Rousseff em 2014 e os 47 milhões recebidos por Fernando Haddad nas últimas eleições presidenciais. Uma pesquisa do Datafolha atestou ou sugeriu que certamente metade dos evangélicos votaria no presidente hoje “eleito”. Consumada a hipótese, mais de 19 milhões de votos poderiam ser, e por certo foram, suficientes para os números hoje conhecidos, ainda que Haddad tenha perdido a eleição por 11 milhões de votos.

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Trago esses números ao debate, por que do porteiro da boate ao desinformado da farmácia, da caixa do mercado à faxineira da PF existe um conjunto de trabalhadores com fontes quase exclusivas e difusas de informação ou desinformação. A eles se somam aqueles eleitores de informação nenhuma. Gente que não sabe quem é Queiróz e, no caso de evangélicos blindados, quando tomam conhecimento de alguma falcatrua, respondem/comentam com singular frase pronta: “as árvores dos melhores frutos são as mais apedrejadas”. Daí a necessidade de abrir canais junto a esse contingente.

Desde que tomou posse e até antes, o “presidente eleito” tripudia da consciência crítica brasileira. Em ordem aleatória, já provocou o mundo árabe, a China e a Venezuela, tripudiou das mortes do irmão e neto do Lula, já surgiram dinheiro e movimentação financeira nas contas do próprio “presidente”, da esposa e filhos. Surgiram notícias de crime de Caixa 2, fraudes via WhatsApp e servidores fantasmas. Em lista resumida, o abafa no Coaf se consumou, o Brasil perdeu mercado internacional para a China, a Ford vai embora, sem contar notícias de crimes eleitorais confessos, candidatos laranjas, lambança em cartões corporativos e uso de dinheiro público para disseminar ódio nas redes sociais.

Em provável revelia daquele contingente, teve até vídeo pornô e, para coroar o “golden shower” do desgoverno, o ministro da Justiça (toma lá dá cá) teve reunião secreta com fabricantes de armas. Como se não bastasse, surge a recém-criada Fundação Casa de Mãe Joana, que é um trambique com dinheiro da Petrobras. É, noutras palavras, uma sabujice que soa como pagamento de mais uma prestação à República de Curitiba por sua participação no golpe de 2016. Uma lambança autoritária com cara de rachadinha ou convescote moralista, sem qualquer controle da sociedade civil.

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Sob a perspectiva do eleitor brasileiro e particularmente aquele eleitorado específico, cumpre indagar se o que nos angustia, escandaliza e nos envergonha nacional e internacionalmente atinge esses contingentes. Seria o porteiro da boate uma exceção? Fatos e factoides envergonham seus protagonistas? Como promover esse debate, se estamos expostos, entre outros fatores, ao “jornalismo fantasia”? Tem muita gente confundindo fatos com anseios e tirando conclusões precipitadas. O vídeo impróprio para menores, por exemplo, publicado presidente “eleito”, levou apressados a discutir impeachment. Não é esse um caso isolado de viagem jornalística em cima de publicações da mídia golpista.

A leitura dos jogos de cena promovidos pelo governo golden shower tem sido feita como se o país não tivesse sofrido um golpe e PF/MPF/JF estivessem atuando de forma republicana. Como se o congresso fosse uma casa de leis e não um covil de bolsopatas e de oposição consentida para manter aparência de democracia. Como se em nossas Forças Armadas não predominasse o sentimento vira-lata marcado por nacionalismo zumbaia (sem que exceções se manifestem), de heróis que… Fala Mangueira!

Fundação Casa de Mãe Joana à parte ou governo golden shower, do porteiro da boate à faxineira da PF, é preciso encontrar uma forma de conversar com o povão.

Armando Rodrigues Coelho Neto – advogado e jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-representante da Interpol em São Paulo.

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3 comentários

  1. síntese perfeita do campo onde vicejam bandidos: da famiglia bozo e sua associação á facção criminosa lava-jato: o butim é o patrimônio público.

  2. Já li isso por aí mas vou repetir: o ruim, caro Armando, é que o “povão” não quer direitos, quer privilégios. “De que adianta eu ter se todo mundo tem?” É o desejo por privilégios, cenoura amarrada a um palmo do nariz brasileiro, que dificulta o diálogo com o “povão”. Por isso o “povão” rejeitou o republicanismo petista: o PT providenciou igualdade (ou pelo menos redução de desigualdades) e isso não interessa ao individualismo popular. “O PT deu um tiro no próprio pé quando transformou pobre em classe média: classe média não vota no PT, só pobre vota no PT.” Assim a faxineira se ufana de ser amiga do pastor e o pastor, de ser, “ungido do senhor”. Os dois dizem desdenhando do interlocutor que conhecem “de perto, o Faustão e o Luciano Huck”, a primeira porque foi sua empregada, o segundo porque foi numa comitiva aos bastidores do programa de TV… é mole?

    Tá cheio de amigos dos amigos dos amigos dos amigos por aí, do “tive o privilégio de conhecer” e por aí vai, produzindo e reproduzindo cultura de fidalguia adquirida. Por isso, entre milhares de exemplos concretos, o Orkut fez tanto sucesso no Brasil: nada como pertencer a clubes exclusivos mesmo que essa exclusividade seja apenas argumento de venda. Só que não dá para todos serem privilegiados, isso é mentira do capitalismo. E essa compulsão pelo exclusivo não só não é natural nem obrigatória como se nota, sim, mas em escalas muito menores em outros povos, outras culturas, outros países.

    Então acho que ganha ponto na instauração da democracia aquele que, além de falar ao “povão”, mostre que, tanto no nível individual mas muito mais no coletivo, direitos são melhores que privilégios, ou seja, evitar cair no mesmo erro que o PT cometeu.

  3. Bom post.
    Quem esta falando com o povo são as igrejas evangelicas, So no meu radio consigo ouvir 17 simultaneamente. Quem vai competir? Com que meios?.

    Comentado o comentario do Renato, acima, “brasileiro médio” não se interessa em lutar por educação, segurança, aposentadoria e saúde publica de qualidade. Quer ter recursos para pagar a privada. Não tem como. O resultado é isto tudo o que conhecemos.

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