Generalizar ou não generalizar os evangélicos? Um debate na esquerda evangélica, por Bruno Reikdal Lima

Ao invés de olhar o processo social como um todo, movimento religioso é fragmentado para destacar ou culpabilizar um ou outro agente social

Foto: Reprodução - AFP PHOTO / EVARISTO SA - enviada por Bruno Reikdal Lima

Generalizar ou não generalizar os evangélicos? Um debate na esquerda evangélica

por Bruno Reikdal Lima

 

No interior dos movimentos evangélicos críticos à atuação das bancadas formadas por pastores, pastoras e outras lideranças religiosas, que desde o início dos anos 2000 se multiplicaram vertiginosamente acompanhando a expansão de igrejas e formação de uma nova religiosidade popular, temos um debate instaurado na “ala à esquerda”: generalizar ou não generalizar evangélicos.

O problema colocado é o esforço, de um lado, para mostrar que o movimento evangélico não é composto somente pelo “bizarro” e pelo conservadorismo reacionário. Do outro, a denúncia (às vezes acompanhada de negação da própria religião) de que o movimento evangélico “é isso que está aí, sim”, e não há o que fazer. O que pretendo nesse texto é criticar o próprio problema: nem uma posição e nem outra enfrentam a crítica necessária à religião evangélica brasileira.

Apesar de esquerda revelar bem pouco do que é que estamos falando, me aproveito desse termo genérico na busca de diálogo com quem se encaixe em grupos evangélicos que vão desde os não conservadores, aos assumidamente liberais, os progressista, até chegar aos revolucionários (sendo esse último bastante reduzido, para a tristeza de quem escreve). Indo direto ao ponto, o que gostaria de indicar é o seguinte: a questão fundamental não é refletir sobre o que é ou não é o movimento evangélico, e sim sobre o papel essa religião desempenha na reprodução social brasileira.

O deslocamento do problema é um movimento necessário para não cair na posição reativa e inocente de tomar o movimento evangélico como a causa dos problemas do conservadorismo reacionário brasileiro – como se, inclusive, ele tivesse nascido ontem. Esse passo é comumente dado por quem acusa o movimento evangélico de ser essencialmente conservador e reacionário.

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Além da falta de cuidado com a história, da religião como um processo dinâmico, contraditório e produto das interações humanas e suas adaptações constantes, esse olhar abstrato e essencialista não toma cuidado em perceber que o conteúdo doutrinário veio nas últimas décadas acompanhado de transformações nas relações sociais no interior de famílias, de impacto social nas organizações das comunidades marginalizadas dos centros urbanos, de suprir a ausência de Estado e políticas públicas na inclusão de pessoas na dinâmica das cidades.

Também é importante para revelar a insuficiência de defesa da “não generalização de evangélicos” ao repetir uma estrutura simplista de individualização dos fenômenos sociais: “nem todo evangélico é assim, somente ‘aquele setor’” ou “nem todo evangélico é assim, temos ‘esse grupo aqui que é diferente’”.

Ao invés de olhar o processo social como um todo, fragmenta abstratamente o movimento religioso para culpabilizar ou destacar positivamente um ou outro agente social. Desse modo, novamente há falta de cuidado com a história de como se constitui e se desenvolve determinada religião e um recuo ou distanciamento reativo diante do que nós, enquanto evangélicos, realizamos cotidianamente na reprodução social brasileira.

Há um papel, um produto histórico, efeitos intencionais e não-intencionais que fazem parte do evangelicalismo – somos como efetivamente somos, os frutos são nossos. Negar a história a partir de uma ideia do que poderíamos ou deveríamos ser não ajuda em nada no combate às causas de nossos problemas.

Nesse movimento de apelo à não-generalização ainda corre outro risco: de buscar um interlocutor “fora” do movimento evangélico, recusando a disputa interna dos próprios espaços no campo religioso e os capitais simbólicos que o constituem. Com quem se falamos quando apelamos para a necessidade de não generalizar os evangélicos? Com quem não é? Para quê? Convertê-los? Ou com quem é, mas está descontente em busca de outra comunidade? Para quê? Apenas trocar uma instituição por outra, mas sem que ambas se questionem sobre qual sua função na reprodução social brasileira? Com uma mídia que estereotipe o movimento evangélico? Para quê? Para alterar o modo como ela conversa com seu público? E seria ele a massa que já é em 1/3 evangélica e não precisaria de muitas explicações sobre sua própria identidade, ou o “público qualificado” com acesso a determinado conteúdo acadêmico ou especializado de classe média que avalia o objeto de longe?

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Do outro lado, o risco de recusa em disputar o território religioso e buscar sua transformação está no ponto de partida: a possibilidade de negação do movimento religioso como necessariamente mal, incorrendo na busca de reinventar a roda em um “novo movimento” (que pelo fato de não ter colocado em questão a função da religião na reprodução social, também apenas disputa um mercado ou nichos de um mercado religioso, e não o próprio campo religioso em relação ao todo social que o precede). Novamente, uma troca de placas, talvez de ritos, mas sem que fundamentalmente estejam criticadas a função da religião evangélica no Brasil, na manutenção de suas relações como estão.

O fundamento de nosso conservadorismo reacionário não está na religião – e nem teria como. Supervalorizar o umbigo e fugir das questões fundamentais não opera uma verdadeira crítica e nem auxilia na transformação efetiva do próprio movimento evangélico. Ele deve ser compreendido dentro do todo do processo social, da nossa realidade cotidiana. A sociedade brasileira é racista, é machista, é homofóbica, opressora, violenta e genocida. Opera muito bem na conivência com a exploração e o abismo social. A religião participa do processo e auxilia, em determinado modo, na reprodução dessas relações. Mas não é “a causa” e nem “o fundamento”. Em breve pretendo publicar um artigo a respeito desse conteúdo fundamental, a partir de intérpretes da realidade nacional que indicaram os processos de manutenção de nossas relações violentas, fruto da por vezes chamada “modernização conservadora” e da nossa base histórica escravocrata e colonial. Por ora, o foco da discussão que proponho é deslocar o problema diante do fenômeno religioso. Ele deve ser criticado, mas dentro do quadro geral, da nossa reprodução social.

Como comentário final, à parte e para além do que me propus nesse momento, de nada adianta buscar uma melhoria “libertária” nos discursos e na organização da doutrina se esse conteúdo é desenvolvido fazendo vistas grossas à exploração cotidiana da vida das pessoas que constituem a comunidade.

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Se não toca nas causas da vida violentada da nossa massa, do nosso povo, funciona apenas como as “flores nas correntes”, como certa vez alguém utilizou em uma metáfora. Embeleza ou suaviza o cativeiro, mas não rompe com as algemas, não derruba as portas da prisão. Sente dó do cego, do pobre, do oprimido, mas não dá visão, não atende as necessidades de quem é histórica e diariamente sabotado, não liberta – e foge do papel de libertar.

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