Globalismo e nacionalismo como falsas dicotomias, por André Luan Nunes Macedo

A questão é que, por detrás da comparação, há um elemento moral conformista: ora, se o índice de letalidade não é equivalente à gripe espanhola, o que estamos vivendo pode ser tratado como "exagero", uma "simples gripe"

Ilustração Busy.org

A comparação exemplar da história: o coronavírus e a gripe espanhola. Globalismo e nacionalismo como falsas dicotomias*.

por André Luan Nunes Macedo

Foi publicado recentemente no El País uma matéria que explica historicamente a Gripe Espanhola[1]. A intenção é apresentar as diferenças quantitativas de atingidos pelos vírus e seus contrastes em termos de mapa genético.  Outros meios tentam “desmistificar” a Gripe Espanhola, dizendo que ela tem uma incidência letal muito maior[2] que o coronavírus. Até o momento é correta a afirmação. O problema são as interpretações derivadas dessa comparação, que levam a um conformismo reacionário e um desleixo com relação aos cuidados com a doença. Explico.

Gosto das comparações porque fazem parte do meu objeto de pesquisa, que são os usos do passado no tempo presente[3]. Todos nós dependemos da experiência para dar respostas a um problema que vivemos. No entanto, uma coisa é usar a história como referência, outra coisa é acreditar que a precisão da comparação só se daria, no caso do coronavírus, por exemplo, se ele atingisse “o mesmo volume” da Gripe Espanhola. Como se a história fosse um “eterno ciclo repetitivo”. Ou que, por outro lado, vivêssemos uma evolução linear, em que a medicina e a ciência combinadas conseguiriam dar uma solução para os problemas e vivemos em um momento “melhor” que antes.

O vírus é outro, assim como a sua dimensão de reprodução. A morte de milhares em tão pouco tempo no mundo inteiro já deveria ser motivo de vergonha para os dirigentes políticos e econômicos do planeta Terra. Apesar disso, reina o império da distopia e do sofrimento, principalmente no caso brasileiro, no qual o Presidente da República, dias atrás, havia dito que a pandemia era uma “fantasia”[4].

Não se pode alimentar uma ideia falsa de tranquilidade, pois não sabemos até quando o coronavírus irá permanecer como uma pandemia global. A questão é que, por detrás da comparação, há um elemento moral conformista: ora, se o índice de letalidade não é equivalente à gripe espanhola, o que estamos vivendo pode ser tratado como “exagero”, uma “simples gripe”, “tantas outras doenças que matam e nós não nos preocupamos com elas”, etc[5]. O tratamento da doença obedece a moralidade conformista, centrada no indivíduo: lavemos bem as mãos e nos isolemos. A meu ver, é uma filosofia liberal que isenta o Estado das suas responsabilidades e se conforma em não ter uma resposta orientada, cuja perspectiva seria a do aumento significativo dos gastos públicos em saúde, ciência e tecnologia. É a ideologia imperante do “não resta alternativa” imposto por Thatcher e Reagan nos anos 1980. Hoje ambos são tratados no Brasil como referências político-ideológicas do atual governo[6].

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Certamente, os cuidados pessoais são partes fundamentais para a prevenção da doença. No entanto, não podemos naturalizar a moralidade do discurso histórico, que poderia – e deveria –  ser outra.

Cem anos se passaram desde a última pandemia. O discurso histórico de combate ao coronavírus poderia assumir outra direção. Poderia questionar as cadeias globais de produção e os baixos padrões sanitários nos mercados populares chineses e a produção imprudente de criação em cativeiro para consumo de animais selvagens na China[7]. Não somente a China, como também os demais países de todo o mundo e a sanha em assassinar nossas florestas, tudo em nome de uma perspectiva automotora e brega de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, poderíamos também questionar a impressionante capacidade do povo chinês em erguer um hospital em dez dias para cuidar de sua população[8], mostrando que, diante dos problemas, o Estado chinês recentra seus esforços e mostra ao mundo que a sua prioridade é a eliminação do vírus e os cuidados com a população. Mostra que a obra civilizatória humana ainda possui esperança em dias melhores.

O que temos adiante não são dias melhores, apesar dos lampejos de esperança. Conforme dito por uma pesquisadora em epidemiologia Alanna Shaikh, o “Coronavirus é o nosso futuro”. Enquanto continuarmos assassinando a Amazônia e os locais onde a vida selvagem se reproduz, os seres humanos podem ser gravemente contaminados, desacostumados com o contato permanente desses animais em larga escala[9].

Parafraseando Xi Jinping, é preciso pensar na construção de uma ecocivilização, ou seja, uma aliança entre o desenvolvimento científico atual com estratégias de substituição das matrizes energéticas, reflorestamento e a criação de ecocidades[10]. No caso brasileiro, seria a união entre filosofia guaicurus e tupi-guarani com o pensamento moderno das universidades. É preciso garantir uma nova universalidade, uma nova matriz filosófica de pensamento para solucionar nossos problemas, algo que discuto em outro ensaio[11].

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Hoje, para os anti-globalistas de plantão, terraplanistas e patriotas de goela, a realidade aparece como um choque. As cadeias globais e integradas demonstram que é preciso pensar o quão fluidas são nossas fronteiras. Também é um choque para os racistas, que acreditam em superioridades biológicas pautadas na cor da pele, principalmente advindos dos nostálgicos da Ku Klux Klan, nos Estados Unidos. É um choque para o nacionalismo chauvinista dos países do Norte. Se caso não atuassem em cooperação com outras nações para a contenção do problema, certamente a pandemia poderia se tornar algo ainda mais calamitoso que o vivido atualmente.

Ainda assim, acreditam que o levantamento artificial de fronteiras conteria o problema[12]. Foram correndo surfar na onda do fechamento de fronteiras e das estratégias geopolíticas que vangloriam “excepcionalismos”. Do ponto de vista da geopolítica atual, os países centrais do capitalismo não podem se dar ao luxo de viverem isolados. Conservadores esquecem que quando trocam produtos, também trocam bactérias e vírus…

Isso não quer dizer, ao mesmo tempo, que não deveríamos ter um estado protetor e, de fato, soberano e nacionalista no Brasil. Entre as cadeias globais de produção e a Divisão Internacional do Trabalho, o Estado-Nação é a fronteira que nos sentimos seguros, é a propriedade coletiva do cidadão político, é a “nossa terra”.

O Brasil é um dos países que mais sofre com o evento da pandemia do ponto de vista econômico. Precisava ser assim? Em um texto anterior, trabalho essa dimensão[13]. Hoje mesmo, o senhor Paulo Guedes enviou uma proposta modesta de ação e, por incrível que pareça, “ultra-globalista”, ou seja, pró-auto-regulação do mercado: redução de impostos para importações de equipamentos médicos. Ou seja, mantenhamos as regras do mercado – a.k.a Divisão Internacional do Trabalho – para regular a economia.

Não vemos desse governo nenhuma intervenção estatal enérgica, nenhuma inauguração de um setor dentro do Ministério da Saúde de combate imediato à pandemia, possibilitando a contratação de estudantes universitários e pesquisadores bolsistas vinculados à área para aumentar o volume de produção científica. Afinal, quanto mais largo o volume de pesquisadores envolvidos no tema, maior a amostragem científica. Maior o debate entre os pares. Maior é a informação requintada sobre o coronavirus em território nacional. Maior seriam as chances de desenvolvimento de uma vacina a custo nacional.

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Por enquanto a inércia toma conta, a ponto do insuspeito liberal Rodrigo Maia ter que “dar um pito” no Ministro da Economia sobre sua ausência de propostas para lidar com o coronavírus[14]. Ainda acham que com a injeção de capitais no vácuo da produção global poderão conter os danos do coronavírus. Ou que uma reforma administrativa e tributária austeras evitarão danos na cadeia produtiva nacional, que com esse governo assistiu ao fechamento de milhares de postos de trabalho de qualidade e aos níveis recordes de desindustrialização. Em contraste, a China acelera a graduação de estudantes de medicina para conter os efeitos do vírus[15].

O Brasil é uma das raras potências que declarou guerra contra seus cientistas. É um dos únicos países em que o presidente não conta com um “Brain Trust”[16] por perto. Tudo em nome do Estado dietético e da engorda de uma fatia financeira do mercado.

O vírus do neoliberalismo reproduz o coronavírus em larga escala. O Estado de bem-estar social é tratado como “socialismo”. O remédio econômico é tratado como doença, e a doença econômica como solução. Sobrevivamos à selvageria imposta pelos atuais governantes.

André Luan Nunes Macedo – Historiador. Doutorando em História pela Universidade Federal de Ouro Preto e Visiting Scholar na Universidade de Wisconsin-Madison pelo Programa Doutorado Sanduíche no Exterior.

*Agradeço pelos feedbacks dos colegas Cesar Willer, Flavia Amaral e Mateus Coutinho.

[1] https://brasil.elpais.com/brasil/2018/01/16/internacional/1516096077_476907.html

[2] https://www.estadao.com.br/noticias/geral,entenda-por-que-o-coronavirus-e-muito-diferente-da-gripe-espanhola-de-1918,70003227371

[3] Trabalho essa dimensão principalmente a partir dos livros didáticos contemporâneos de história. Publiquei um livro sobre o político nos livros didáticos brasileiros e venezuelanos. Para mais informações, ver: https://www.submarino.com.br/produto/80353814

[4] https://g1.globo.com/politica/noticia/2020/03/10/bolsonaro-diz-que-questao-do-coronavirus-e-muito-mais-fantasia.ghtml

[5] Tais afirmações saíram de pessoas próximas ao autor do texto, que percebeu um padrão discursivo na resposta.

[6] https://oglobo.globo.com/cultura/casa-de-rui-barbosa-fara-semana-de-homenagem-margareth-thatcher-ronald-reagan-24181106

[7] https://www.youtube.com/watch?v=TPpoJGYlW54

[8] https://noticias.r7.com/saude/fotos/china-entrega-segundo-hospital-construido-em-dez-dias-07022020#!/foto/1

[9] https://www.youtube.com/watch?v=Fqw-9yMV0sI

[10] http://br.norkind.ru/download_book-a_governan_a_da_china_454575.html

[11] https://medium.com/@coletivo.pebrades/as-cidades-o-automotor-9bdd01a7e5b5

[12] https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/03/direita-global-ve-conspiracao-em-pandemia-do-coronavirus.shtml

[13] https://portaldisparada.com.br/economia-e-subdesenvolvimento/notas-realidade-construcao-paz/

[14] https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/03/plano-de-guedes-tem-quase-nada-para-combater-crise-do-coronavirus-diz-maia.shtml

[15] https://www.youtube.com/watch?v=2Qc1xcMAQMc&feature=youtu.be

[16] https://en.wikipedia.org/wiki/Brain_trust

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