Gostaria que as pessoas fossem livres e inteligentes desabafa veterana jornalista italiana, por Arnaldo Cardoso

Indagada sobre previsões de grandes mudanças no pós-pandemia Aspesi demonstrou ceticismo ao dizer “Acho que tudo voltará como era antes, mas com mais malícia”.

Gostaria que as pessoas fossem livres e inteligentes desabafa veterana jornalista italiana

por Arnaldo Cardoso

Foi um 25 de abril incomum na Itália com o 75º aniversário da Libertação do governo fascista e da ocupação nazista sendo comemorado silenciosamente e em clima de apreensão. De máscara e solitário o presidente do país Sergio Mattarella depositou flores no Túmulo do Soldado Desconhecido, enquanto seus concidadãos permaneciam isolados em suas casas e, quando muito, algumas vozes entoaram de varandas e janelas Bella Ciao

Se nas ruas predominou o silêncio, nas redes sociais não houve trégua. Convertidas em arena política, nos últimos anos as redes sociais tornaram-se o locus dos enfrentamentos, da disseminação de fake news e, no atual contexto,  da despudorada exploração política da mais grave crise sanitária que o país e o mundo já enfrentaram, sendo os seguidores da extrema direita e neofascistas os mais aguerridos agentes. Esse quadro sugere a triste avaliação de que a libertação de setenta e cinco anos atrás ainda não foi completada.

Semelhante avaliação também pode ser inferida das respostas dadas pela veterana jornalista italiana Natalia Aspesi em entrevista ao jornal The Huffington Post publicada no último dia 26.

Indagada sobre previsões de grandes mudanças no pós-pandemia Aspesi demonstrou ceticismo ao dizer “Acho que tudo voltará como era antes, mas com mais malícia”. Quando o entrevistador lhe pediu que avaliasse o governador de sua cidade natal, Milão, Attilio Fontana do partido de extrema direita Liga, ela foi enfática: “considero [a Liga] a ruína de nosso país” e prosseguiu “mas eles certamente vencerão as próximas eleições […] Estou muito triste, mas a Itália quer isso, não quer liberdade, quer ser comandada, o italiano quer sempre alguém que resolva as coisas para todos, não quer preocupações e quer ser mantido … então a Liga está bem para os italianos. Não para mim, mas de fato eu não conto.”

Natalia Aspesi que em junho completará 91 anos iniciou sua carreira jornalística em 1957, passou pelos jornais La Notte, Il Giorno até chegar ao La Repubblica onde desde os anos 1990 é responsável por uma coluna semanal onde escreve especialmente sobre questões que afetam as mulheres na sociedade italiana. Autora de vários livros e vencedora de inúmeros prêmios é vista por muitos como feminista, pela sua dura crítica à cultura machista persistente em seu país. Partindo da crítica à cultura ela a estende para uma crítia da política.

Quando perguntada sobre o jornalismo que é feito hoje não poupou críticas, disse que muitos colegas jornalistas são horríveis. Vendidos. Avaliou que “o jornalismo real quase desapareceu”.

Tendo em perspectiva a quarentena imposta pela pandemia do coronavírus, perguntada sobre a permanência das livrarias fechadas – e tabacarias abertas – mesmo com o início da reabertura do comércio, Aspesi não hesitou em atacar: “aqueles que decidiram são pessoas que não vão às livrarias”. Ela completou seu raciocínio afirmando que as livrarias e bibliotecas são absolutamente necessárias “porque tudo o que pode nos salvar e que também pode salvar aqueles que se gabam de nunca ler, são os livros, é a História, é a Filosofia, é o que deveríamos ter estudado e não o fizemos.”

Avaliou ainda que “nossa má consciência e nosso constante mau humor derivam do fato de que nada sabemos” […]. “Ignoramos como o mundo e as pessoas viviam.” 

Perguntada sobre o que mais a importa hoje, respondeu dando vazão a um desejo otimista, contrastando com o realismo cético expresso ao longo da entrevista: “Hoje realmente quero que voltemos ou cheguemos a uma democracia real. A única coisa que realmente me interessa hoje não é sobre mim, porque agora estou meio de saída, mas sobre meu país: gostaria que as pessoas fossem livres e inteligentes […]”

Amante da leitura, revelando ser essa uma atividade que ainda ocupa muitas horas de seus dias, recomendou a todos, e especialmente aos jovens: “Leiam não só os romances, mas as coisas que fazem você entender o que é humano ou por que a história foi assim.”

Por sua longa militância através do jornalismo, da escrita de livros, da participação em seminários e demais eventos dedicados à discussão de temas transversais sobre cultura, política e sociedade, Natalia Aspesi é uma voz que costuma ser ouvida, sem que isso lhe confira autoridade para anunciar verdades ou produzir consensos, mas sim promover a reflexão e o debate, ingredientes indispensáveis às sociedades abertas e livres.

Em novembro passado, em Parma, Natalia Aspesi participou de uma mesa de diálogo com o professor Enrico Galiano – eleito um dos cem melhores professores da Itália – para uma reflexão sobre a condição feminina hoje, evento integrante da programação do vigésimo Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. 

Depois de abordarem estatísticas que mostram recorde do número de feminicídios na Itália nos últimos anos além de outras formas de violência de gênero, as análises do professor e da jornalista convergiram na identificação de pontos críticos que precisam, segundo eles, serem alvos de ações decididas para sua reversão, dentre os quais merecem destaque: a) “[o fato de] o macho não ser educado para ser ele mesmo, com seus pontos fortes. mas também com suas fragilidades”; b) “necessidade de conscientização de nossos filhos de suas emoções, para fazê-los sentir que todas as emoções são legítimas, todas são humanas” e, c) “o impulso à mudança deve nascer nos homens “.

Aspesi avaliou em concordância com Galiano que, embora as mulheres italianas tenham realizado nas últimas décadas conquistas no campo profissional e político, ainda se encontram atoladas numa areia movediça que impede a livre fruição das relações homem-mulher. Apontaram também uma série de preconceitos que ainda se interpõem às diversas formas de relacionamentos. Entretanto, reconheceram que entre uma parcela dos jovens já há mudanças significativas, mas entre os mais maduros os códigos predominantes ainda são arcaicos e são esses homens que, majoritariamente, decidem os rumos do país. 

A partir das reflexões acima expostas, parece pertinente dar-lhes sequência primeiramente revendo as definições clássicas de cultura como “os aspectos aprendidos que o ser humano, em contato social, adquire ao longo de sua convivência e os compartilha, refletindo a realidade social desses sujeitos” ou ainda a ideia tradicional de que a cultura deve ser conservada, transmitida como legado e materialização de valores que resistem à “longa noite dos tempos” (concepção cara aos conservadores, e sequestrada e distorcida pelos extremistas de direita). Para uma inflexão é essencial resgatar a propriedade fundamental da cultura que é a de ser dinâmica. Isso implica em reconhecer que os usos e costumes que configuram uma cultura podem ser ressignificados.

Nesse exercício carregado de potência vale também resgatar e revitalizar a concepção de política como “capacidade do ser humano de criar diretrizes com o objetivo de organizar seu modo de vida”. 

E ainda mais pertinente se faz o sentido dado por Aristóteles à política, como mecanismo que tem por fim último a felicidade dos homens, do público, da pólis, e não como mero exercício do poder.  

Alguns meses atrás, contrariando relatórios apontando o declínio da participação e interesse dos jovens pela política na Itália e em outros países europeus, a cena política italiana foi surpreendida por um fenômeno desencadeado por um grupo de jovens da Emilia Romagna, que encheu praças pelo país com milhares de jovens levantando cartazes com slogans invocando um novo tempo para a política – contra um tempo perpétuo sem utopias – e para as relações sociais como um todo. Entoando canções e defendendo valores de tolerância, diálogo, solidariedade e inclusão, às vésperas de pleitos regionais polarizados, essas manifestações tiveram como mais visível resultado o impulsionamento para a participação nas urnas e o debate de ideias.

Mas para que iniciativas como a citada não se resumam a flash mobs, há de serem seguidas por comprometimento – lembrando da formulação de que “liberdade é responsabilidade” – para que efetivamente contribuam para transformar em realidade aquilo que a veterana jornalista Natalia Aspesi, como voz feminina numa sociedade machista, expressou como desejo na abordada entrevista, o de ver operando na Itália uma “democracia real” com “pessoas livres e inteligentes” capazes de perseguir seus projetos pessoais de felicidade integrados a um projeto maior de felicidade pública.

Utopia num tempo em que as distopias se afirmam como referência estética aos jovens? Resgatar a capacidade de desejar um mundo melhor para todos pode ser o primeiro passo rumo às mudanças necessárias para irmos adiante. Surpreende que esse desejo seja expresso por uma senhora de noventa anos que, mesmo explicitando de início um pessimismo com o presente, não consegue esconder seu desejo de futuro. 

Arnaldo Cardoso, cientista político

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