Governo Bolsonaro e a oposição das esquerdas, por Aldo Fornazieri

Governo Bolsonaro e a oposição das esquerdas

por Aldo Fornazieri

Com a posse de Bolsonaro na presidência da República impõem-se às oposições de esquerda a adoção de táticas cuidadosas e apuradas acerca da forma e do conteúdo da maneira de fazer oposição. Pelas análises que estão surgindo em artigos publicados em diversos blogs a aposta é a de uma oposição radical, de não reconhecimento do resultado das eleições, de deslegitimação tanto das eleições quanto do governo. A questão é: até que ponto uma tática desta natureza pode ampliar ou estreitar o espaço das oposições progressistas na sociedade, principalmente quando se está diante de um governo que tende a atacar as liberdades, os direitos, o Estado Democrático e a Constituição. Ou seja: a política deve ser ampla, com um programa de lutas, de diálogo com a sociedade, inclusive com boa parcela do eleitorado que votou em Bolsonaro ou deve ser de um radicalismo militante e de recusa do governo enquanto tal?

A posse de Bolsonaro está inscrita com um gesto radical das oposições de esquerda: o não comparecimento no ato formal da posse no Congresso Nacional. O gesto é polêmico, mas existem razões que o justificam. A primeira delas é que, durante a campanha, Bolsonaro ultrapassou o razoável e o aceitável na disputa democrática e pregou a violência e o banimento contra as esquerdas. Em suma: identificou nas esquerdas, não adversários, mas inimigos. Se Bolsonaro quiser o respeito das esquerdas, precisa respeitá-las. É razoável e legítimo não participar de uma festa de um inimigo, mesmo que esta festa seja revestida de teor institucional. Os bolsonaristas estão armados no sentido figurado do termo contra as esquerdas – e, talvez, no sentido real. Para que haja um convívio democrático e respeitoso no plano institucional, é preciso que os bolsonaristas deponham as armas e terminem a guerra de incitação à violência contra as esquerdas. Caso contrário, as relações serão tensas e belicosas. A responsabilidade da iniciativa, em casos desta natureza, cabe, especialmente, aos vencedores e àqueles que proclamaram a guerra.

A segunda questão é a questão da legitimidade da vitória de Bolsonaro e das próprias eleições. Há duas formas de ver o problema. Preliminarmente, é preciso considerar que as eleições obedeceram ao calendário eleitoral, sendo que eleições previsíveis é um requisito procedimental de sua legitimidade. Primeira forma: as eleições foram precedidas de um golpe e Lula, líder das pesquisas, foi impedido de participar por decisões judiciais. A questão principal aqui está na legitimidade ou não das decisões judiciais que bloquearam a candidatura Lula. Se a resposta é a de que as eleições estavam irremediavelmente  comprometidas em sua legitimidade, a atitude mais coerente seria boicotá-las.

Segunda forma de ver a questão da legitimidade eleitoral: mesmo com o golpe e  com o impedimento ilegal de Lula, as eleições foram legítimas e as esquerdas participaram delas conferindo-lhes legitimidade. Aliás, durante a campanha eleitoral, as esquerdas e os analistas não questionaram a legitimidade das eleições. Se as eleições, mesmo com o golpe, mesmo com a interdição de Lula e mesmo com as fake news foram legítimas, não se pode agora questionar a sua legitimidade e a legitimidade do governo Bolsonaro. Não se pode adotar um golpismo de esquerda.

Então, é preciso escolher: se a eleição de Bolsonaro é em tudo uma farsa, tudo fajutado, tudo ilegal e ilegítimo, a tática correta consiste em uma oposição radical, de denúncia permanente do governo, de recusa de qualquer acordo, de proposição de seu impeachment e de sua derrubada. É preciso ser coerente com o que se escreve. Se a posse de Bolsonaro é ilegal e ilegítima, porque as eleições foram ilegítimas, não basta boicotar a posse. Para não ser pusilânime, é preciso definir uma tática coerente com a avalição da ilegitimidade das eleições e do governo.

Agora, se se considera que as eleições foram legítimas mesmo com os problemas apontados, então o que cabe fazer é avaliar a natureza do governo que emergiu delas, as possibilidades e os riscos que ele comporta. Tendo em vista o que foi explicitado durante a campanha e antes dela pelo presidente vencedor e pelo programa e ideias que ele defende será preciso definir uma tática coerente com esta avaliação. Ao que se sabe, os partidos de esquerda, acertadamente, não consideram as eleições e o governo ilegítimos.

Quanto à natureza do governo, trata-se de um governo de extrema-direita e, por isso mesmo, traz riscos às liberdades, aos direitos, à democracia, ao Estado Democrático e à Constituição. Se esta é a avalição, trata-se de definir uma tática de frente ampla informal, de diálogo amplo com todos os setores políticos e sociais que possam agir em comum na defesa das liberdades, dos direitos, da democracia, do Estado Democrático e da Constituição. Trata-se de construir uma maioria social em torno desses pressupostos e de sua defesa e trata-se de agir para defende-los e denunciar ações do governo que os ataquem. Isto não significa diluir-se no interior dessa frente e nem mesmo limitar-se a ela. No plano das lutas sociais, por exemplo, é possível e necessário consolidar uma frente mais combativa e programática, seja de resistência em defesa da democracia e dos direitos, seja de luta em torno de um programa de reivindicações e de mudanças. Se o governo Bolsonaro atacar as liberdades, a democracia e a Constituição se tornará ilegítimo pela sua ação.

Algumas análises, principalmente de natureza psicológica, acerca o futuro que nos espera com Bolsonaro, chegam a beirar o delírio, pois sugerem o aparecimento de um fascismo inevitável vindo das ruas, das massas, do povo. A conclusão é equivocada porque a análise é equivocada. A vitória de Bolsonaro não se deveu a um suposto pendor fascista do povo, ao seu conservadorismo entranhado que jazia adormecido e foi desporto pela pregação do líder. A imensa maioria do eleitorado que votou em Bolsonaro não é fascista e nem sabe do que isto se trata. Bolsonaro venceu, principalmente, por dois motivos: 1) porque o povo queria mudanças e identificou em Bolsonaro o candidato que proporcionaria as mudanças, mesmo que isto significasse um salto no escuro; 2) por um sentimento difuso antiPT, que foi amplamente explorado não só por Bolsonaro, mas por outros, a exemplo de Alckmin, Dória etc.

A ideia de que o povo brasileiro é bolsonaro e que Bolsonaro é a encarnação do povo é uma ideia falsa. Se existem fascistas, trata-se de uma minoria. Uma das tarefas da oposição é impedir que essa minoria se transforme em maioria. O povo não está tomado por uma psicose bolsonaro-fascista. Ele quer simplesmente que o Brasil e a vida mudem para melhor. Não quer a corrupção, não quer que o dinheiro público seja roubado e quer um Estado eficiente. Por isso a moralidade na política precisa ser uma bandeira das esquerdas, assim como um programa de reformas amplas, que busquem mais eficiência, menos privilégios e mais justiça e igualdade. Se Bolsonaro não garantir uma vida melhor, o povo se voltará contra ele. Como o programa e os compromissos do governo Bolsonaro pouco têm a oferecer ao povo, as esquerdas precisam ganha-lo para enfrentar novas batalhas.

De qualquer forma, as oposições de esquerda não terão êxito contra o novo governo se não se organizarem nas bases sociais da periferia. Para mudar o Brasil é preciso construir uma aliança entre o povo pobre e as classes médias. A demonização e culpabilização das classes médias, como fazem alguns escritores, é um redondo equívoco.

Resistência e mudanças são consequência de força social e política organizada, algo que as esquerdas vêm negligenciando. As esquerdas se comunicam mal. É preciso ter capacidade de convencimento, discursos e mensagens persuasivos. Organização e persuasão são os pressupostos da legitimidade de um líder, de um partido e de um programa. Ou se tem as virtudes para se ter essas capacidades, para organizar os meios, ou a história das esquerdas no Brasil será uma história de sucessão de derrotas. Discursos arrogantes, pretenciosos, radicalóides e vazios não passam de cortinas de fumaça para encobrir fracassos e derrotas.

Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP).

12 comentários

  1. Errei, erramos

    “Se a resposta é a de que as eleições estavam irremediavelmente  comprometidas em sua legitimidade, a atitude mais coerente seria boicotá-las. 

    Segunda forma de ver a questão da legitimidade eleitoral: mesmo com o golpe e  com o impedimento ilegal de Lula, as eleições foram legítimas e as esquerdas participaram delas conferindo-lhes legitimidade. Aliás, durante a campanha eleitoral, as esquerdas e os analistas não questionaram a legitimidade das eleições. Se as eleições, mesmo com o golpe, mesmo com a interdição de Lula e mesmo com as fake news foram legítimas, não se pode agora questionar a sua legitimidade e a legitimidade do governo Bolsonaro. Não se pode adotar um golpismo de esquerda.”

    Um comentarista já cantou a pedra de que um erro não justifica o outro e assim tentarei evitar a redundância do debate.

    Para mim, de todos os assuntos, política é o mais complexo, difícil para iniciantes ingênuos e ignorantes como eu.

    Mesmo com tal ressalva e para colocar uma questão na esperânça de dialogar com os argumentos do Dr. Aldo Fornazieri, sem deixar de aludir à atual voga da propalada autocrítica pós-golpe, com toda sua carga polissêmica (em termos reducionistas: a oposição entre a  pregação reacionária da autocrítica “confessional”, para a assunção suicidária de crimes imputados pela “ética” burguesa golpista, em oposição à autocrítica progressista no sentido do aprimoramento de táticas e estratégicas para o exercício efetivo do poder), quanto dos erros das esquerdas, ou seja, quanto de seu afastamento dos anseios identitários das classes subalternas oprimidas, pode ser atribuído ao fato de que elas se curvaram, de maneira submissa, dócil e humilhante, aos valores burgueses, desde o debacle do império soviético em 1989?

    Interessante é que, com as denúncias de Kruschev contra os crimes do stalinismo, fenômeno semelhante ocorreu: Partidos comunistas se fragmentaram, etc., tudo redundando em algum tipo de capitulação aproximativa com a “economia dos mercados”.

    Contudo, nada disso acontece com os direitistas (liberais). Vide o atual governo do Bozo et caterva, a exemplo do que pode ser aferido, a olhos istos, em posicionamentos complacentes de inúmeros comissários do mercado atuantes em nossos oligopólios midiáticos.

    O nazifascismo foi mais do que execarado pela história, mas os liberais “democratas”, os sectários da “economia de mercado”, jamais se vexaram de recorrer aos métodos canônicos de tais regimes execráveis de antanho, sempre que julgaram necessário.  

      

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