Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força, por Sebastião Nunes

“Não preciso ter medo dele e da polícia comum”, pensou mais uma vez Wilson. “Preciso ter medo é da Polícia do Pensamento”

Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força

por Sebastião Nunes

“A macrotela é uma invenção do caralho”, pensou Wilson, mantendo as costas voltadas para ela. Era mais seguro. Contudo – como bem sabia –, mesmo as costas de uma pessoa podiam contar segredos, ainda que socados com força nos confins dos confins dos confins da mente.

Lá fora, um mini-helicóptero, com apenas um policial das forças de segurança, vistoriava o interior dos apartamentos. Era tão pequeno e compacto que, se necessário, poderia entrar pela janela e pousar suavemente na sala. Por alguns minutos, Wilson esqueceu a macrotela e se fixou no mini-helicóptero, cuja vigilância o perturbava.

“Não preciso ter medo dele e da polícia comum”, pensou mais uma vez Wilson. “Preciso ter medo é da Polícia do Pensamento”. Mas logo esqueceu tudo aquilo e, com um estremecimento, voltou a pensar no poder fabuloso da macrotela.

De fato, era uma invenção do caralho: simplificação extrema da velha televisão, demonstrava ao mesmo tempo um avanço extraordinário em relação a ela. Havia apenas um canal, que só transmitia o que interessava ao Governo Unificado, e essas emissões alcançavam todos os antigos países e todos os 700 milhões de habitantes da Terra.

Não havia apartamento ou local público sem a macrotela. Além da transmissão de notícias, dados estatísticos, aulas de ginástica, lições de culinária, aconselhamentos, música e esporte, possuía outra função importantíssima, que substituiu os antigos programas de busca e relacionamento, tipo Google, Chrome, Facebook, LinkedIn, Whatsapp, Twitter, Instagram, YouTube, Messenger etc. Essa função era a de vigilância constante e ininterrupta sobre as pessoas, durante as 24 horas do dia e da noite, sem um segundo de pausa, sem um milionésimo de segundo de sossego. Mesmo que a energia fosse cortada, o que era constante, baterias internas mantinham em funcionamento ininterrupto tanto o minitela quanto a macrotela.

Atrás de Wilson a voz continuava a lenga-lenga sobre o cumprimento com folga do Nono Plano Trienal. A se confiar nos dados, nunca a economia, a educação e a ciência estiveram tão bem – e os recordes se acumulavam, ano após ano. Nada se falava sobre os proles: é como se não existissem, estatística, política e economicamente falando. Os proles exemplificavam o famoso zero à esquerda.

A PORCA EXISTÊNCIA DOS PROLES

Morando nas periferias de grandes e médias cidades, os proles viviam totalmente isolados do Partido Exterior e, principalmente, do Partido Interior.

O Governo Unificado se vangloriava de ter libertado todos, tanto das garras dos capitalistas quanto da escravidão. Conforme alardeava o Partido, os proles viviam, antes da Unificação, oprimidos pelos capitalistas. Sempre famintos, frequentemente açoitados, trabalhavam com suas mulheres em minas de carvão até morrerem de fome e exaustão. Os filhos eram vendidos para as fábricas logo que atingiam seis anos. Essa era a versão oficial da vida dos proles nos tempos capitalistas.

Atualmente, argumentava o Governo, os proles, embora totalmente livres, eram, contudo, inferiores, devendo obedecer a algumas regras de fácil compreensão: comer apenas a ração fornecida, trabalhar sem pausa todo o tempo exigido, fornicar sempre que houvesse condições físicas, e dormir um mínimo de horas, apenas o suficiente para não sucumbir rapidamente. Como Wilson compreendia, essa era uma das aplicações práticas do Duplipensar: transformar o preto no branco e vice-versa.

Os proles representavam 85% da população, o Partido Externo 12%, e o Partido Interno, 3%. Este último fornecia os quadros dirigentes em todos os níveis e todas as lideranças subordinadas ao Grande Irmão. Era o verdadeiro Poder.

Pouco mais se sabia sobre os proles nem era necessário saber. Desde que continuassem trabalhando e se reproduzindo, suas outras atividades careciam de valor. Abandonados a si mesmos, regrediram a um modo de vida que lhes parecia natural – como um retorno à vida ancestral. Nasciam, cresciam soltos, começavam a trabalhar aos doze anos, aos 25 chegavam à maturidade e, daí em diante, envelheciam rapidamente até 30, 35, raramente quarenta anos. A expectativa de vida entre eles alcançava apenas 28 anos. Sua educação era precária ou inexistente.

Trabalho brutal, cuidados com a casa e a filharada, pagamento de contas, brigas com os vizinhos, nisto resumia sua vida. Para se divertir, nas raríssimas horas de ócio, tinham cerveja ruim, destilados baratos, esportes como futebol e beisebol e, muito mais importante, as infinitas loterias – que forneciam sonhos de riqueza baratos.

POR QUE NÃO SE REVOLTAM?

Wilson sabia – como um dos responsáveis por reescrever a História e eliminar as versões antigas, contraditórias com a nova realidade exigida pelo Governo Unificado – o que havia acontecido com os proles.

O que não entendia era por que não se revoltavam. E era o que buscava entender toda vez que abria caminho entre ruas esburacadas e multidões de proles doentes, subnutridos, miseráveis. Se representavam 85% da população da Terra, o que existia de tão poderoso a impedir que tomassem o poder pela força?

Talvez fossem impedidos pelos recursos da Novilíngua, capazes de produzir o Duplipensar, de modo que ninguém estranhava uma formulação como “Guerra é paz, liberdade é escravidão, ignorância é força”. Quem sabe era só isso?

“Para compreender”, pensou Wilson, “só mergulhando na vida dos proles”.

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