Habemus Terminus: Donad Trump caput non habet, por Fábio de Oliveira Ribeiro

A democracia norte-americana morreu no momento em que as Fake News conseguiram dominar o cenário eleitoral levando Trump à presidência.

Habemus Terminus: Donad Trump caput non habet

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Ao autorizar o assassinato do general Qasem Soleimani, o presidente Donald Trump matou dois coelhos com um só míssil. Além de eliminar de maneira criminosa um agente importante na hierarquia de outro país, o presidente dos EUA rasgou a constituição americana, em cujo texto consta a seguinte disposição:

Seção 8 Será da competência do Congresso:

Declarar guerra, expedir cartas de corso, e estabelecer regras para apresamentos em terra e no mar;”

A interpretação desse texto conciso e absolutamente claro não sugere qualquer dúvida: nos EUA somente o Congresso pode declarar guerra. Ao iniciar um conflito armado contra o Irã sem autorização parlamentar, Donald Trump deu um verdadeiro golpe de estado. A reação iraniana, ou seja, a aceitação da guerra declarada mediante o assassinato a sangue frio de Qasem Soleimani consolidará o Estado de exceção entre os norte-americanos. O Impeachment será arquivado e Trump emergirá como comandante supremo das forças armadas em tempo de guerra com poderes imperiais.

Esse conflito tem tudo para se transformar numa guerra mundial. Rússia e China já se colocaram ao lado dos iranianos. Israel e Arábia Saudita combaterão ao lado dos EUA. A União Europeia e seus membros não querem confusão. Vários líderes europeus já condenaram o assassinato de Soleimani. Na América Latina apenas Jair Bolsonaro quer entrar nessa guerra, mas para fazer isso ele terá que decapitar os comandantes das Forças Armadas. Se tentar fazer isso ele será inevitavelmente deposto.

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É fato consumado. A democracia norte-americana morreu no momento em que as Fake News conseguiram dominar o cenário eleitoral levando Trump à presidência. O início da III Guerra Mundial será o último prego no caixão da Constituição Americana e o primeiro prego no caixão de toda vida no planeta. Os fatos confirmaram as palavras de Wendy Brown:

“Se os homens brancos não podem ser donos da democracia, então não haverá democracia nenhuma. Se os homens brancos não podem dominar o planeta, então não haverá um planeta.” (nas ruínas do neoliberalismo, Wendy Brown, editora politeia, São Paulo, 2019, p. 220)

Um pouco depois de resumir de maneira brilhante os fundamentos do niilismo que possibilitou a Donald Trump ganhar a eleição, rasgar a Constituição dos EUA e violar, com o assassinato de Soleimani, todas as tradições diplomáticas respeitadas desde a criação da ONU, essa autora norte-americana afirma que os neoliberais são “…bebês gigantes, com apetite por poder, prazer e brincadeiras…” (nas ruínas do neoliberalismo, Wendy Brown, editora politeia, São Paulo, 2019, p. 221). A referência ao personagem de Rebelais me parece evidente.

Não só isso, a referência é absolutamente precisa se levarmos em conta o fragmento abaixo:

“…Numa Pompílio, segundo rei dos romanos, político justo e filósofo, quando ordenou que ao deus Termo, que no dia da sua festa, denominada Terminal [Terminália], nada seria sacrificado por meio de morte, ensinando-nos que aos termos, fronteiras e anexos dos reinados é conveniente em paz, amizade, generosidade guardar e reinar, sem macular as mãos com sangue e pilhagens. Quem o contrário faz não apenas perderá o adquirido, mas também sofrerá com esse escândalo e opróbrio que será malquisto, sendo injusto o que adquiriu e tendo por consequência que o adquirido se lhe expirara por entre as mãos. Pois as coisas mal adquiridas acabam mal e quando ele tiver passado toda sua vida em pacífico gozo, se todavia o adquirido acabar nas mãos dos herdeiros, igual será o escândalo sobre o morto e sua memória em maldição como conquistador iníquo. Pois se diz em provérbio comum: dinheiro de ladrão não passa para a terceira geração.” (O terceiro livro dos fatos e ditos heroicos do Bom Pantagruel, capítulo 1, François Rebelais, Ateliê Editorial, Cotia SP, 2006, p. 55/56)

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O neoliberalismo devota um ódio evidente e mortal ao deus Terminus. Primeiro essa ideologia que sacraliza a obtenção de lucro à qualquer custo destruiu as fronteiras entre o capital bancário e o capital financeiro. O passo seguinte seria o ataque sistemático a qualquer tipo de regulação do fluxo de capital entre os países. Depois o neoliberalismo bombardearam cirurgicamente os limites da exploração capitalista dos trabalhadores dentro e fora dos EUA. Nos últimos anos a ideologia neoliberal se tornou ainda mais ousada: ela passou a desdemocratizar todos os países, utilizando-se para tanto de líderes políticos mentirosos e inescrupulosos que apelam para a credulidade religiosa a fim de amplificar seu poder político. Agora os neoliberais já não se dão mais nem mesmo ao trabalho de respeitar a tradição diplomática do pós-guerra.

China, Rússia e Irã são as três potências que mantiveram seus próprios termos antineoliberais. Não por acaso o bebê gigante que comanda o império niilista quer confrontar esses três países. O que mais Donald Trump poderia fazer? No imaginário do presidente dos EUA a advertência feita por Rebelais acerca da violação das fronteiras é irrelevante ou simplesmente não existe. Sob a fina camada de civilização e glamour, Trump é um bárbaro descendente de bárbaros. Mas nós brasileiros somos descendentes dos romanos e por isso devemos tomar muito cuidado antes de violar os termos e tratados que possibilitaram a convivência pacífica entre culturas, religiões e sistemas políticos diferentes.

Juxta illud male parta, male dilambutur. *
Juxta illud, de male quaesitis vix guadet tertius haeres. **

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Esses provérbios latinis podem não ter muito valor para Trump. Mas eles não podem deixar de ser aplicados no caso de Jair Bolsonaro.

* As coisas mal adquiridas acabam mal.
** Dinheiro de ladrão não passa para a terceira geração.

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