Hannah Arendt e o mantra do bolsonarismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O golpe de 2016, com o Supremo com tudo, fragilizou totalmente o sistema constitucional e possibilitou a reintrodução do capricho governamental.

Hannah Arendt e o mantra do bolsonarismo, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Durante milhares de anos as sociedades humanas foram governadas por homens (algumas delas ainda são). A substituição do governo de homens pelo governo de Leis foi um grande avanço civilizacional que ocorreu em momentos distintos em vários países. O nosso claramente oscila entre um modelo e outro, com uma clara predominância para a submissão de toda sociedade aos caprichos de um imperador, de um ditador militar ou de um tirano civil.

O golpe de 2016, com o Supremo com tudo, fragilizou totalmente o sistema constitucional e possibilitou a reintrodução do capricho governamental. Se o governante não gosta das instituições civis ele adota medidas para militarizá-las. Se não gosta de um autor ele manda proibi-lo. Se não quer revelar dados públicos que podem comprometer sua administração ele simplesmente os sonega aos cidadãos, aos órgãos de controle e até ao Judiciário.

A fragilidade do Judiciário nesse contexto é evidente. Quem os soldados obedecerão caso ocorra um grave conflito institucional entre esse poder e o Executivo?

Estamos nas mãos de bestas-feras. O Ministro da Educação está destruindo o sistema educacional brasileiro. O Ministro da Ecologia conspira para facilitar o desmatamento ilegal das nossas florestas. O Ministro da Economia cuida apenas dos interesses dos banqueiros. O Ministro das Relações Exteriores cuida apenas dos interesses norte-americanos no Brasil. O presidente aplaude toda e qualquer decisão do governo dos EUA que prejudique os brasileiros e os interesses econômicos do nosso país.

Certa feita, Hannah Arendt demonstrou uma grande preocupação com um governo mundial porque ele equivaleria ao governo de ninguém.

“O fato de nenhum indivíduo – nenhum déspota, per se – poder ser identificado nesse governo mundial não mudaria de forma alguma o seu caráter despótico. O governo burocrático, o governo anônimo do burocrata, não é menos despótico porque ‘ninguém’ o exerce. Ao contrário, é ainda mais assustador porque não se pode dirigir a palavra a esse ‘ninguém’ nem reivindicar o que quer que seja.” (A promessa da política, Difel, Rio de Janeiro, 2008, p. 149)

Esse perigo não existe nesse momento. Nós sabemos exatamente quem desgoverna o país. Desde 2016 o Brasil não é mais governado por um sistema constitucional e legal. As manifestações de vontade de Jair Bolsonaro, quaisquer que sejam elas, quase sempre se tornam soberanas e modelam a realidade. Quem desafiar as decisões do tirano ou colocar em risco sua posição corre o risco de perseguido na internet (caso da jornalista Patrícia Campos Mello) ou simplesmente abatido a tiros (caso do miliciano Adriano Nóbrega).

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Sempre que chegava ao trono o novo imperador chinês escolhia um nome e um mantra em torno do qual seria organizada sua administração. O mantra de Jair Bolsonaro parece ser “ninguém será governado”. No governo dele quem puder mais cometerá abusos maiores. Quem não tiver como se defender será esmagado e terá que sofrer calado. A função da imprensa é aplaudir o tirano e seus ministros. Os jornalistas que se recusarem a cumprir sua missão serão chamados de terroristas e ameaçados. Bolsonaro é a favor da tortura. Portanto, ninguém deve ficar surpreso se os jornalistas começarem a ser torturados.

Mas os jornalistas não serão apenas vítimas. Eles também serão responsáveis por tudo o que ocorrer. Foram eles que forneceram ao bolsonarismo a matriz das “fake news” ao inventar ataques terroristas (o caso da bolinha de papel que atingiu José Serra) e veicular mentiras como se fossem verdades (o caso da ficha policial falsa de Dilma Rousseff, que a Folha de São Paulo afirmou que podia ser verdadeira). Todo o arsenal de estratégias sujas que foi para destruir o PT está sendo agora utilizado contra os jornalistas. As cadelinhas do fascismo foram treinadas pelos respeitáveis jornalistas que não respeitaram o direito do público de ser informado.

Quando expôs seu temor de um governo de ninguém Hannah Arendt sugeriu também que informação é poder. No Brasil bolsonariano ninguém poderá ser governado pois é evidente que a verdadeira fonte de poder do tirano é a desinformação. Mas essa desinformação tem uma característica importante que a distingue das “fake news” do primeiro mundo. Entre nós as igrejas evangélicas foram transformadas em correias de transmissão das mentiras repetidas pelo governo.

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Os donos dos templos substituíram os barões da mídia. Eles construíram um império de desinformação organizado de maneira vertical que pune cruelmente qualquer defecção. Pastor que não prega a favor de Bolsonaro é perseguido e/ou expulso de sua igreja. Em troca de sua devoção ao mito, as igrejas ganharam espaço na administração, poder para censurar a cultura e a educação, verbas públicas e, é claro, isenção tributária.

Sem ter como disputar esse espaço, a esquerda tenta se virar utilizando a internet. Enquanto ela apenas reagir Bolsonaro continuará rindo e colocando em prática seu mantra “ninguém será governado”. Que política pública foi destruída ontem? Qual será desmantelada hoje? Quantas serão descontinuadas amanhã?

Dilma Rousseff caiu porque a fidelidade da população ao governo dependia dos resultados econômicos. No momento em que eles começaram a desaparecer a classe baixa se desinteressou pela política e a classe média se uniu à classe alta para remover os entraves democráticos à adoção do neoliberalismo. Laura de Carvalho deixou isso bem claro no livro Valsa Brasileira.

A fidelidade a Bolsonaro não depende de resultados econômicos. Ela depende exclusivamente do império de desinformação colocado em cena pelos pastores evangélicos. Furar o bloqueio que eles construíram não será uma tarefa tão fácil quanto derrubar Dilma Rousseff com ajuda da imprensa. Inclusive e principalmente porque a própria imprensa que condena alguns métodos do bolsonarismo tem tomado o cuidado de esconder a catástrofe econômica que está sendo construída pelo governo federal.

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Golaço do governo, só recorde, e a mídia não divulga.
– Maior Déficit Público da história
– Maior retirada da Poupança da história
– Maior crescimento dívida pública
– Maior valor já pago por combustível
– Maior déficit na balança comercial
– Maior cotação do dólar da história

https://twitter.com/hilde_angel/status/1227427274510798849

O desabafo da jornalista Hildegard Angel foi compartilhado no Twitter por uma pequena quantidade de pessoas. Andorinhas envenenadas por pesticidas no verão. Em milhares de tempos evangélicos espalhados por todo o país, 24 horas por dia 7 dias por semana os pastores bolsonaristas dirão que o mito salvou o Brasil dos comunistas-ateístas-gayzistas, que nós seremos uma potência econômica… e vamos passar a sacolinha. Amém.

A partidarização da religião tem que começar a ser tratada como um grave problema institucional. Caso contrário em pouco tempo o Brasil será transformado no Irã da América Latina. As mulheres usarão Burcas. O carnaval será proibido. Os gays serão executados em praça pública. Os comunistas serão perseguidos e exterminados como insetos. A glória do senhor exige uma purificação. Mais Bíblia, menos Constituição. E nunca mais um governo laico será possível, pois assim como se recusam a governar para impor sua religião os evangélicos se recusarão a ser governados quando o candidato deles perder a eleição.

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