Henry Kissinger e o trágico na História, por Daniel Afonso da Silva

Henry Kissinger e o trágico na História, por Daniel Afonso da Silva

Sob qualquer que seja o aspecto, Henry Kissinger segue sendo um dos mais sofisticados e solicitados observadores políticos mundiais. Não certamente simplesmente por sua passagem pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos nem tampouco por sua longevidade – Henry Kissinger nascera em 1923 e está, portanto, em seus noventa anos entrados.

Seu leque de admiradores e contratantes vai dos liberais aos neoliberais aos conservadores aos neoconservadores aos democratas aos republicanos assim como dos totalmente insuspeitos componentes do politburo chinês aos socialistas e trabalhistas europeus e latino-americanos; e mesmo à presidente brasileira, que em sua recente visita aos Estados Unidos teria dito ter tido uma bela e instrutiva conversa com o ilustre ancião.

Sua trajetória remonta à Europa do entreguerras.

Após fugir da perseguição de Hitler migrando aos Estados Unidos em 1938, ele produziria e guardaria consigo certa percepção do trágico na História. Como, de resto, todos os judeus e não-judeus que conseguiram antever o armagedom que viria a ser Auschwitz. Numa inspirada passagem de seu notável “Culture and imperialism”, o inspirador Edward Said afirmaria que esses expatriados levavam consigo certa responsabilidade moral e intelectual de serem responsáveis por um tipo de civilização que estava prestes a desaparecer naqueles tempos incertos e sombrios manejados por Hitler, Stalin e Mussolini.

Essa percepção do trágico na História seria reforçada em Kissinger em seu retorno à Europa como soldado norte-americano 1944. Em farda ele sorveria o desespero dos escombros de sua Europa natal encarnada em sua Alemanha de sempre. A “drôle de guerre” não tinha sido assim tão “drole”. De Berlim sobrara apenas a memória de outrora. Essa imagem de desolamento jamais lhe ausentaria.

A postura do “never again” iria imantar toda a sua geração. André Malraux chamaria essa convicção de “la force du non dans l’Histoire”. Mas para Kissinger para além do “never again” e da força do não virara obsessão também entender as razões do inferno terrestre. Dessa motivação adviria o seu interesse pela História e mais precisamente pelo trágico na História. O único momento em que essa obsessão estivera ausente de seu horizonte de especulação e reflexão foi durante sua passagem pelo governo. Diria ele sobre esse período: “High office teaches decision-making, not substance (…), a period in high office consumes intellectual capital; it does not create it”.

Desde seu ingresso em Harvard como estudante, sua fascinação foi por Otto von Bismarck. Poucos mais que Bismarck tiveram o senso do trágico na História na afirmação política do destino de uma nação. Após unificar seu país, o nobre chanceler alemão levaria com esmerada expertise a relação com os demais estados estabelecidos.  Muito especialmente com a França que fora amplamente humilhada na guerra franco-prussiana de 1871 e com os Estados Unidos que vinha despontando como a principal potência mundial após sua guerra civil. A conferência de Berlim de 1884-5 foi a mostra mais emblemática dessa capacidade diplomática de Bismarck em mobilizar a História a seu favor.

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Foi após a saída de cena de Bismarck que os alemães propuseram impor a qualquer custo o seu lugar ao sol e o sonambulismo dos demais partícipes do concerto europeu acabaria desmascarado na grande explosão que foi 1914-1918.

Kissinger levaria dessa experiência dos momentos Bismarck e após-Bismarck a convivção do imperativo da diplomacia, da História e do trágico. Diplomacia, História e trágico no sentido estratégico de Clausewitz – para servir de último recurso antes das armas – e não no senso liberal adotado pelos seguidores do presidente Woodrow Wilson.

Tão ou ainda mais cáustico que Edward H. Carr e Reinhold Niebuhr, Kissinger consideraria o idealismo dos wilsonianos como um moralismo imoral. Mesmo assim, o futuro prêmio Nobel da paz teria dificuldades em se reconhecer no pessimismo realista de Hans J. Morgenthau e George Kennan e mesmo de Raymond Aron.

Antes de ingressar no governo do presidente Richard Nixon onde se notabilizaria, ele seria assessor internacional de Nelson Rockfeller. Nesse período assinaria seu exaltado estudo “Nuclear weapons and foreign policy” de 1957. Também de 1957 seria a publicação de seu discreto “A world restored”. Mas efetivamente o seu desconhecido “The meaning of history”, uma tese apresentada em Harvard e mantida inédita, seria seu trabalho mais importante. Nesse escrito Kissinger põe em questão a noção de História e de trágico contida na formulação de paz perpétua de Immanuel Kant. Foi certamente nesse momento que o futuro secretário de estado moveria o seu interesse para o “balance of power” do imenso século 17 guiado pelos sábios cardiais Richilieu e Mazarino.

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Após adentrar o staff do presidente Nixon pelas mãos de seu padrinho Nelson Rockfeller em fins de 1968, Kissinger entraria para a história da diplomacia como um de seus mais controversos servidores.

Toda vidraça acaba sendo alvo de pedradas.

Não seria diferente com Mr. Kissinger.

Desde os tempos de aluno e professor de Harvard, ele se destacava por sua sagacidade e assertividade. Ao ascender ao governo foi alçado à condição de “intelectual” mais importante do momento. Após suas tratativas semi-secretas com os vietnamitas – do norte sob o governo do presidente Lyndon Johnson e do sul sob a era Nixon – em Paris a partir de 1968, a imprensa norte-americana passou a considerá-lo como o “super K”.

Não restam dúvidas de que ele fora um dos homens mais importantes e poderosos dos Estados Unidos – e, quem sabe, do mundo – durante esses anos setentas.

Mas o apogeu passou.

As milhares de páginas de memórias relatadas em “White House Years” dão a completa dimensão das tão propaladas investidas norte-americanas sobre a China de Mao e sobre a URSS de Brejnev. Também indicam as impressões ianques da França do velho general De Gaulle assim como da Espanha do recém-entronado rei Juan Carlos. Mas também indicam o seu declínio na função durante o governo do presidente Gerald Ford.

A partir do presidente Jimmy Carter sua participação no governo norte-americano seria somente episódica. Mas sua influência sobre o governo norte-americano desde então continua ascendente. O presidente Obama é por muitos considerado um “kissingeriano”. Um misto de Maquiavel, Richilieu, Clausewitz e Otto von Bismarck de mistura com Abraham Lincoln e Martin Luther King concatenados na pessoa de Henry Kissinger.

Dizia um antigo que à força de escrutinar gestos e olhares o diplomata conhece todas as rugas da alma humana. O mesmo vale ao historiador em seu destino de escrutinador de vestígios e passados. Desde ao menos “Diplomacy” de 1994, Kissinger vem se dedicando exclusivamente a decodificação de gestos e olhares dos vestígios do presente, do passado e do futuro. O sucesso planetário desse seu “Diplomacy” não deixaria nada a desejar à farta recepção intelectualizada de “The end of history and de last man” de Francis Fukuyama, “The clash of civilizations” de Samuel Huntington e mesmo de “The age of extremes” de Eric J. Hobsbawm. “Diplomacy” é uma obra simultaneamente de historiador e ator. Como seriam os seus numerosos escritos até o recente “World order”.

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No muito interessante “The meaning of Kissinger. A realist reconsidered” saído no último  número da revista Foreign Affairs (setembro-outubro 2015), Niall Ferguson chama a atenção para importância do pensamento de Henry Kissinger para além das polêmicas e das ofensivas contra ele. Evidentemente que por servir aos Estados Unidos ele foi – e é – criticado a priori. Mas especialmente após “The trial of Henry Kissinger” de Christopher Hitchens, sua figura foi implicada aos crimes contra a humanidade cometidos no Chile de Augusto Pinochet. Mesmo assim, como explicar que ele seja aclamado pelas mais variadas colorações de intelectuais e políticos mundo afora?

Niall Ferguson, esse magnífico autor de “The great degeneration”, “Colossus”, “Civilization” entre outros, parece nos indicar a pista: a convicção de Kissinger sobre a força do trágico na História.

Desde os mais remotos outonos de Maquiavel e Clausewitz já ficou evidente que o passado não ensina nada a propósito do futuro. Mas o presente resulta desse passado que nem sempre passa. Em uma bonita passagem de seu “Interesting times”, o saudoso Eric J. Hobsbawm (1917-2012) nos diria que “o passado é outro país, mas marca profundamente que viveu nele”. Kissinger mobiliza com habilidade a memória desses passados na compreensão e explicação do presente dos estados com vistas a forjar seus futuros. Com essa habilidade ele consegue indicar a complexidade dos processos e sugerir soluções.

Beira o truísmo lembrar, mas parte muito diminuta dos observadores políticos possui essa convicção sobre a importância do passado no presente para o futuro. Menos ainda a maior parte dos políticos atuais em função, que no império do presente vêem no ontem e no amanhã quando muito urnas.

Daniel Afonso da Silva é pesquisador no CERI-Sciences Po de Paris.

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6 comentários

    •  Destesto ser troll, mas

       Destesto ser troll, mas texto de alto nível com infindáveis citações e expressóes estrangeiras?

      • Ah, esses acadêmicos

        Ah, esses acadêmicos inteligentes…. escrevem, escrevem, escrevem e terminam não dizendo absolutamente nada de aproveitável. Nesse aspecto, tenho que reconhecer, o tão criticado André Araújo sempre traz textos interessantes. Seus artigos trazem algo aproveitável, uma história aqui, uma estória acolá, e no fim temos um belo texto. Caro Marcos, vc tem toda razão, o artigo não passa de citações bobas jogadas ao vento, cheio de pedantismo, pura masturbação acadêmica.

        • O AA eh um excelente

          O AA eh um excelente comentarista DE DIREITA -um dos unicos do blog e do Brasil, que eu saiba- e nao cabe no assunto, que foi postado por alguem do “cian po” de Paris.

          Quanto a “citacoes infindaveis”, se adicionam ao texto, sao invisiveis.

          Quanto a citacoes “estrangeiras” eu nao noto tampouco por nao registrar nem quando estou lendo ingles ou portugues.

          Quanto a esse mestre da politica e diplomacia, a ultima vez que ouvi falar ha uns 4 anos atraz ele nao foi aa festa de aniversario que a bilionaria faz pra ele todo ano pois estava doente    (insider informacion, certamente, isso nao deu nos jornais).  Eu pensei que era Parkinson’s aa epoca, mas evidentemente 90 anos nao eh janela de oportunidade pra essa doenca.  Tou muitissimo feliz de saber que ele ainda esta “sao e salvo”.  Um belissimo homem.

      • Ah, esses acadêmicos

        Ah, esses acadêmicos inteligentes…. escrevem, escrevem, escrevem e terminam não dizendo absolutamente nada de aproveitável. Nesse aspecto, tenho que reconhecer, o tão criticado André Araújo sempre traz textos interessantes. Seus artigos trazem algo aproveitável, uma história aqui, uma estória acolá, e no fim temos um belo texto. Caro Marcos, vc tem toda razão, o artigo não passa de citações bobas jogadas ao vento, cheio de pedantismo, pura masturbação acadêmica.

  1. Li o texto demoradamente para

    Li o texto demoradamente para entender o que se propunha e afora várias citações, frases em outros idiomas não consegui encontrar o início, o meio nem o fim do fio da meada.

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