“Ordem e Progresso” de Temer: significado de bandeira e hino, por Carlos Dias


Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Por Carlos Ernest Dias*

Hino Nacional: onde está a mãe gentil dos filhos deste solo?

Nós, brasileiros e brasileiras temos sérios problemas com dois dos principais símbolos daquilo que se chama República Federativa do Brasil: O hino e a bandeira. Ambos vêm sendo usados de forma descuidada e irresponsável por determinados segmentos das classes dominantes do país.

Ao recuperar o lema “Ordem e Progresso” como slogan de governo, Michel Temer e seus cavaleiros reforçam a grave omissão protagonizada por aqueles outros que fundaram a República e escolheram a frase como lema da bandeira nacional. Isso porque o original criado por Auguste Comte dizia “O amor por princípio, a ordem por base e o progresso por fim”.

Mais recentemente, a bandeira brasileira vem sendo apropriada por alguns segmentos das endinheiradas classes políticas e econômicas como símbolo de um suposto e confuso patriotismo verde-amarelo que só se sustenta graças à manutenção no noticiário daquilo que já foi chamado por alguns estudiosos de “ficção necessária”, a qual tem um nítido exemplo na letra do Hino Nacional Brasileiro.

Esta letra é algo que, assim como a História do Brasil contada por algumas instituições, nasceu fantasiosa e continua fantasiosa, sendo feita de construções poéticas parnasianas que não correspondem e nunca corresponderam à história real vivida pelo povo brasileiro neste território. Senão vejamos:

 

Onde está o povo heroico que deu o brado retumbante?

Onde está a igualdade conquistada com braço forte?

Qual é o berço esplêndido?

E porque estamos deitados eternamente nele?

Onde estão as glórias do passado?

Onde está a mãe gentil dos filhos deste solo?

Onde está a clava forte da justiça?

Bem, essa última não é ficção e a gente sabe muito bem onde está atualmente, e parece corresponder ao “big stick” norte-americano.

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Segundo o verbete “Hino Nacional Brasileiro” da Enciclopédia da Música Brasileira[i], a primeira letra do hino foi escrita por Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva na época da abdicação e retorno de Pedro I a Portugal em 1831. Posteriormente, em 1841, na coroação de Pedro II o hino foi executado com letra de autor desconhecido. Daí em diante, segundo a mesma fonte, o HNB foi executado em diferentes solenidades civis e militares, mas sem letra. A atual letra, composta em 1909 por Joaquim Osório Duque Estrada (1870-1927), só viria a ser aprovada por decreto em 1922, no governo do presidente Epitácio Pessoa.

Mas há também a música, composta por Francisco Manuel da Silva (1795-1865), que é o mesmo autor do famoso lundu “A Marrequinha de Iaiá” publicado em 1853, em parceria com o tipógrafo Paula Brito, como escreve J. R. Tinhorão[ii]. A música do Hino, é claro, não tem nada de lundu. É de caráter marcial, com direito a introdução e coda, e com o enorme luxo de poder ser inteiramente repetida devido aos dois versos de Duque Estrada (talvez este seja o único hino nacional que é cantado em dois versos).

Em 1937, sob Getúlio Vargas o HNB passou por revisão e foi aí que se definiram as duas formas oficiais de sua apresentação: uma instrumental na tonalidade de Si bemol maior e uma outra para canto em Fá maior. A primeira forma é tocada apenas uma vez, e apenas na forma cantada é que o HBN deve ser executado em sua versão integral com os dois versos de Duque-Estrada. Parece evidente que a versão do HNB a ser executada em jogos de futebol deve ser a instrumental em Si bemol tocada apenas uma vez e de preferência sem a longa introdução e sem a coda triunfal do final.

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A trajetória do HNB ilustra com clareza a irresponsabilidade das elites consulares brasileiras no trato com os símbolos nacionais e como elas se valem de recursos fantasiosos para comandar uma República que nunca incluiu o bem estar da maioria da população em seus programas. E o pior, mostra como elas usam esses símbolos para continuar sacaneando o sangrado, sofrido e violentado povo brasileiro. Povo iludido sobre suas verdadeiras mães gentis, que foram as índias brasileiras emprenhadas por portugueses no século XVI, como nos conta o Darcy Ribeiro[iii].

Todas essas contradições parecem ser desconsideradas quando se cria o espetáculo televisivo de alguns milhares de brasileiros que tiveram grana para ir a Rússia forçarem a barra para cantar até o final o longuíssimo Hino Nacional Brasileiro no estádio antes do jogo do Brasil na última quarta-feira.

Na Copa de 2014 no Brasil era até aceitável a “manifestação patriótica” da torcida cantando o hino, mas na Rússia?

Será que não é uma claque?

Deve haver algum orgulho quando se canta um hino com letra fantasiosa que não corresponde à realidade do país e de sua gente?

Deve haver algum orgulho quando se canta um hino de forma inadequada deixando jogadores aquecidos desaquecer por longos minutos antes do jogo?

Que alimenta um falso patriotismo futebolesco que enriquece mídia, federações, jogadores e fabricantes de chuteiras?

Para quê? Para contar ao mundo sobre nossa “Pátria amada, Brasil”?

Mas onde está o amor, que até da bandeira foi retirado?

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Gosto muito da Copa, com sua diversidade de povos, cores e países. E é claro que há muitos brasileiros que amam o seu povo e o seu país. Mas amar é cuidar, e este não é o caso das classes dominantes brasileiras. Não cuidam das pessoas, dos rios, mares e florestas, não cuidam nem do espaço aéreo e acabam de entregar a base espacial. Cuidam apenas de si mesmas e de seus muitos privilégios e riquezas, e tampouco se preocupam em preservar a história do país, que sempre foi por elas contada cinicamente, calando a verdade sobre importantes fatos históricos ocorridos.

Esta é, pois a ficção necessária para a manutenção de poderes simbólicos e culturais, os verdadeiros poderes de hoje, os quais garantem mais uma repaginação da dominação política e econômica que o Brasil carrega há cinco séculos.

Um povo que não tem contato com seu passado verdadeiro e realmente vivido jamais conseguirá construir um  bom futuro.

Pior ainda se essas mentiras estão no próprio Hino Nacional do país.

 

* Doutor em Música e Cultura e Professor da Escola de Música da UFMG


[i] Enciclopédia da Música Brasileira: erudita, folclórica, popular. 2ª ed., rev ampl. São Paulo: Art Editora, 1998.

[ii] Tinhorão, José Ramos. História Social da Música Popular Brasileira. São Paulo: Editora 34, 1998, p 140.

[iii] Ribeiro, Darcy. O povo brasileiro: evolução e sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

 

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2 comentários

  1. Novos símbolos

    O futuro do Brasil e um país melhor, passam por mudanças e enfrentamentos que evitamos durante séculos. Concordo plenamente com o artigo. Este hino não corresponde a realidade da maioria da população e, a bandeira são símbolos de uma sociedade secreta que alimenta a segregação e conspirações dentro do Brasil. De forma que precisaríamos mudar tudo, hino, bandeira e colocar para correr a “elite” escrota e alienada do nosso país.

  2. A questão do hino é que não

    A questão do hino é que não querem dar o crédito a Indepedencia do Brasil a D. Pedro I. Aí se cria uma letra bonita com um história sem protagonista e sem conecção com os fatos. Ou como foi feito no hino da proclamação da república um letra em que se critica o passado e tenta reescrever a história. O problema do Brasil é que cada grupo que chega ao poder ou grupo ideologico querer reescrever fatos históricos. 

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