Hoje, não vou falar de juiz ladrão (Samba do crioulo doido), por Armando Coelho Neto

Falo de futebol no ex-país do futebol, mas que continua país do Carnaval, uma das poucas alegrias que o fascismo jabuticaba não consegue acabar.

Hoje, não vou falar de juiz ladrão (Samba do crioulo doido)

por Armando Rodrigues Coelho Neto

Era tudo farsa e “ele” usava uma fantasia preta. Aquela história de processo, julgamento, Vossa Excelência pra cá, Vossa Excelência pra lá, era tudo pra inglês ver. O canalha não era juiz e fazia do pelourinho da cidadela seu comitê eleitoral. Ele tinha time (torcia por si mesmo). Como juiz gavetão, tinha primeiras, segundas e terceiras intenções. O pilantra era aliado de meliante, amigo de amigo de vagabundo de morro. Daqueles que envergonham o morro. Já não se fazem nem juízes, nem vagabundos como antigamente. Como diz Chico Buarque, o malandro hoje é regular, profissional, “com aparato de malandro oficial”.

Não, não vou falar de juiz, nem de ex-juiz ladrão, juiz bandido, juiz mudo, juiz omisso e conivente com a corrupção que tem ao seu lado. É tudo patifaria, tudo estelionato, pois afinal de contas sempre esteve jogando para galera. Não estava apitando sério jogo algum. Aquele gramado, aquelas traves, aquelas faixas delimitando os campos adversários eram tudo farsa. O trio de arbitragem era bandido, o jogo estava comprado, e sequer o gandula estava cumprindo seu papel. Trocava literal e metaforicamente as bolas.  Além disso, parte do público entrou com ingresso falso. Nas casas de aposta os robôs foram pagos com dinheiro sujo. Se fosse na política, seria comissão adiantada.

A máscara caiu, o juiz é ladrão e todo mundo já sabe. Como o problema nunca foi moral, juiz bandido serve para uma torcida elitizada, preconceituosa e corrupta. O time no qual o juiz atuava venceu. Venceu no tapetão antecipado que ele próprio inventou. De nada adiantou mostrar que o rei estava nu, nem apresentar recurso nas instâncias superiores do futebol, por que uma horda de canalha usava a cueca do time dele. Com freada de bicicleta e tudo! Bandidos de quinta categoria, de quinta região, das quintas dos infernos. Todos comparsas do juiz ladrão. Quadrilha!

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A imprensa que convocou o público para ir ao estádio sabia ser jogo de carta marcada. Fez de contas que a coisa era séria, ajudou a roubar o jogo e hoje tenta fazer média com a torcida perdedora. Finge brigar com o ladrão da faixa de campeão, sabendo quem financiou o capitão do time. Tudo farsa.  Sobrou para a jornalista que “queria dar seu furo” – no linguajar da bicha-amarga-enrustida-Mor da Nação. Coisas da biba do beijo “hétego” que transformou em ódio o espírito esportivo, na partida conduzida por um juiz ladrão. Meeengôoooo!

Hoje, nem iria escrever. Mas, em atenção ao leitor que não brinca Carnaval, estou compartilhando esse metafórico deboche, inspirado no “Samba do crioulo doido”, de Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). O crioulo enlouqueceu ao tentar fazer um samba com todos os personagens da História do Brasil.

Diferentemente do samba original, no meu samba Joaquim José da Silva Xavier não briga para se eleger Pedro II. A briga é entre dois canalhas da mesma laia disputando a princesa Leopoldina, que só pretende casar em 2020. Os dois querem ser imperador do Brasil, o que é um paradoxo para um país que está retornando à condição de colônia (comprada a preço de banana). É o Brasil abaixo do bueiro, abaixo de poleiro, abaixo do descomedor de cobras.

Das estradas de Minas (do samba) já não se fala mais, por que o jogo nunca foi jurídico ou moral. O Vigário dos Índios foi cooptado e os coitados dos silvícolas estão fadados a sem-terra. Como no samba, já foi proclamada a escravidão do trabalhador. Na “República do Sevirol” cada um se vira como pode – como escravo, vai ter que trabalhar até morrer. Seja como Uber de carro próprio ou alugado, de bicicleta, camelô. A TV Globo já está até ensinando professor a fazer extra, dando aulas de reforço, fazendo palestra, ensinando redação para empresas. Lindo!

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Como na escravidão, não há direitos, mas todo mundo tem trabalho. Sem senzala, claro (!), mas com pelourinho, pois as PMs amotinadas estão prontas pra dar porrada em insurretos pretos, quase pretos, pobres… nos inconfidentes de pele clara.

Resumo da ópera, Leopoldina virou trem e Dom Pedro é estação também. “Oô, oô, oô, o trem tá atrasado ou já passou”, diz o samba. Não sei se na vida real o trem já passou, mas certamente está atrasado. Sem falar do juiz ladrão ou do campeonato roubado, lembro que roubaram a partida. O cartola que comprou tudo é amigão do General – outro canalha, diga-se de passagem, que nem nacionalista é -, assim como quase toda sua tropa!  Arre! Por isso também não falo de política, ainda que preocupado com a esquerda ou o que sobrou dela. Cadê?

O trem está atrasado. Reza a lenda, que até acabou (não acabou) o tal Duplo Expresso – que adianta quatro horas lá fora e cá dentro consome mais quatro, metade das quais em solilóquios ensimesmados, entre os quais se diluem o que ele próprio produz de importante. Não dava pra resumir e ou desenhar?

“Mas, Chica da Silva tinha outro pretendente”, diz o samba. É. Realmente, a Globo parecia ter outro pretendente, mas Trump a obrigou a se casar com o “tira” dente, pois já não se fazem mais Tiradentes como antigamente. Herói, hoje, é vagabundo fabricado pela mídia. Não! Não vou falar de juiz ladrão. Mas, é normal num país onde o grande herói nacional era ladrão de cavalos. Talvez por isso qualquer pangaré se converta em maçom grau 33 e o miliciano Adriano Nóbrega tenha sido agraciado com a Medalha Tiradentes – maior honraria da Assembleia do Rio de Janeiro.

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Eis a razão pela qual não quero falar de juiz vendedor de sentenças… Ops! Vendedor de partidas. Falo de futebol no ex-país do futebol, mas que continua país do Carnaval, uma das poucas alegrias que o fascismo jabuticaba não consegue acabar. Esqueçam a Guarda Metropolitana (com apoio da PM) batendo em camelô vendendo cerveja. Se abstenham um pouco dos furtos, crimes famélicos e das aberrações fruto do álcool e outras drogas…

A resistência está na rua sob o refrão “Ei Bolso…VTNC”, um coro que ajudo a engrossar. É Carnaval, vale a pena dar uma espiada nas ladeiras de Olinda, com o seu “Lute como um Carnaval”, “Lute como uma praia”. Vale assuntar a Praça Roosevelt (São Paulo); vale assistir o desfile da Sapucaí. Afinal, Estação Primeira da Mangueira já deu o grito de largada…

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex-integrante da Interpol em São Paulo.

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5 comentários

  1. E por falar em juiz ladrão, no futebol, claro, circula pelas redes sociais uma foto num restaurante em Paris (dessa vez sem farra aparente), onde é possivel ver Rodrigo Maia, Dias Toffoli bem ao lado, João Doria e mais alguns convivas. A informação é de que serão recebidos para um jantar oficial nesta terça na embaixada com o atual embaixador bolsonarista. Com Congresso, com Supremo, com tudo.
    Mas além da Mangueira abrir bravamente o carnaval, semana que vem Lula, Haddad, Dilma e comitiva chegam em Paris para que dia 2, Lula receba o titulo de cidadão honorario da cidade, em um cerimonial no Hôtel de Ville, a prefeitura da cidade. Nessa mesma semana sera lançado o livro com Lula A Verdade Vencera na edição francesa que tem prefacio da ex-presidenta Dilma. Nem tudo termina em samba.

  2. Parabéns ARMANDO vc falou tudo apenas usando essa excelente figura de linguagem: a metáfora
    Solta os “bichos” que ficam coçando na garganta…

    Nas minhas notas encontro:

    #MulherXendengue ;

    #OChupimDoPovoBrasileiro;

    #OMarrecoDeMaringá ;

    #OJuizecoLadrão

    #MoroCapangaDaMilicia;

    E AGORA Acrescento mais essa:

    #BichaAmargaEnrustidaMorDaNação.

    Espero acrescentar mais uma todas às segundas-feiras.

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