How beautiful could a being be, por Ana Laura Prates

Cae que, assim como eu, não é religioso religou-me, enfim, ao meu entusiasmo esmorecido, lembrando-me que não temos tempo para o cansaço.

Foto: Marcos Hermes

How beautiful could a being be

por Ana Laura Prates

Hoje, dia em que Caetano Veloso faz 78 anos, publico nesta coluna um texto que escrevi ao assistir seu espetáculo mais recente, Ofertório. Ofertório foi o nome escolhido por Caetano Veloso e seus filhos, Moreno, Tom e Zeca para o show que apresentam reunidos, convidando-nos a comungar um par de horas da delicadeza mais absoluta que já presenciei. O nome do show foi escolhido em homenagem a Dona Canô, a matriarca dos Veloso, e Cae nos explica que escreveu a letra como se ela mesma estivesse recitando aquelas palavras.

O que nos é oferecido por esses 4 homens, nos remete ao osso do que nos permite uma nova ligação (religião) com o sem sentido da vida, mas que ainda assim encontra um deus (entusiasmo). Cae que, assim como eu, não é religioso religou-me, enfim, ao meu entusiasmo esmorecido, lembrando-me que não temos tempo para o cansaço. Bem antes ele já nos havia advertido de que “é preciso estar atento e forte”, pois “não temos tempo de temer a morte”.  Entreguei-me ao ritual pagão por ele comandado, e seguido por seus filhos e por nossos filhos, comovidos e tocados por sua generosidade feminina. Afinal, eu também estava naquela cerimônia com meus filhos, a quem transmiti uma sensibilidade difícil, pela qual somos afetados em algumas experiências políticas e por alguns estados de espírito.

A comunhão que nos foi ofertada por aqueles 4 homens foi atravessada por algo indeterminado e difuso da ausência radical que a mulher encarna, mas de modo extraordinário e subversivo. Operando essa rara e sutil inversão, éramos nós os deuses que recebíamos os bálsamos da intimidade que unia pais, filhos, irmãos e suas mães e mulheres divididas e vagas, mas decisivas na vida de cada um. Em tempos de exposições obscenas, nas quais o menos relevante são os fatos supostamente privados que se tornam públicos e o mais impróprio é a estética imoral com a qual esses fatos se publicam, os Veloso não respondem com a fobia pudica, a reserva cínica, ou a discrição elitista.

Antes, pelo avesso do avesso, eles expõem as vísceras e colocam na mesa, ou melhor, no altar sagrado do palco, suas cartas de amor expressas nas letras das músicas. Assim, lemos a incrível afinidade musical entre Moreno (a voz do pai) e Tom (a cara do pai); a fina ironia entre o mais velho e o pai; e o cuidado protetor de todos com o Zeca, todos os três zelando por aquele cristal finíssimo que nos envolve quando aquele ser encantado começa a cantar, lembrando que todo homem precisa de uma mãe. Convertidos ao entusiasmo e ao sem sentido da vida, saímos religados entre nós, sabendo finalmente que “cantar é mais do que lembrar é mais do que ter tido aquilo então. Mais do que viver do que sonhar é ter o coração daquilo” como diz a letra de Jenipapo absoluto. Agradeço aos Veloso pelo momento sublime de amor e comunhão que ofereceram à minha família, às nossas famílias, por toda a vida. E queria dizer ao Moreno que ele se equivocou apenas em um ponto: Santo de casa faz milagre sim! Obrigada e parabéns!

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