Indústria reduz participação nas exportações após anos de maus-tratos, por Lauro Veiga Filho

Desde 1997 a 2019, nove itens e/ou produtos responderam por mais de dois terços do aumento acumulado pelas exportações totais e todos relacionados a recursos minerais e a produtos de base agrícola.

Indústria reduz participação nas exportações após anos de maus-tratos

por Lauro Veiga Filho

Depois de décadas de maus-tratos, submetida a juros escorchantes e a taxas de câmbio valorizadas – o que favoreceu tremendamente a entrada de produtos importados e, portanto, sacrificou a produção local –, a indústria de transformação reduziu vigorosamente sua participação na pauta brasileira de exportações. O dólar barato desempenhou um papel relevante nesse movimento, agravado ainda por distorções que têm afetado negativamente a produtividade no setor e sua capacidade para competir com os importados e brigar por mercados lá fora.

Num reflexo do processo de desindustrialização precoce em marcha nas últimas décadas, as séries estatísticas da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), disponíveis a partir de 1997, mostram que a fatia da indústria de transformação nas exportações totais caiu de 80,9% naquele ano para menos de 58,0% no ano passado. Isso não significa que as vendas externas do setor deixaram de crescer. Pelo contrário, elas experimentaram um aumento de 204,9%, saindo de US$ 42,833 bilhões para US$ 130,618 bilhões. Mas as exportações totais, puxadas principalmente por petróleo, minério de ferro e produtos agrícolas, com destaque, nesta área, para grãos e carnes, alcançaram um crescimento de 325,7% no mesmo período, avançando de US$ 52,947 bilhões para US$ 225,383 bilhões (ou seja, um acréscimo de US$ 172,436 bilhões em pouco mais de duas décadas).

O período entre 2002 e 2008 concentrou praticamente 80% de todo o aumento acumulado naqueles 22 anos pelas exportações do País. Não por coincidência, o período foi marcado por uma fase de elevação nos preços das commodities agrícolas e minerais, alimentada pelo apetite crescente do mercado chinês, que assumiu papel de protagonista nesta área, tornando-se principal mercado de destino das vendas externas brasileiras, largamente concentrada em minério de ferro, soja em grão e, mais recentemente, carnes bovina e suína.

Recursos naturais

Desde 1997 a 2019, nove itens e/ou produtos responderam por mais de dois terços do aumento acumulado pelas exportações totais e todos relacionados a recursos minerais e a produtos de base agrícola. Pela ordem, petróleo, soja em grão, minério de ferro, carnes, milho, pastas químicas de madeira (pasta de celulose), açúcar, farelo de soja e ouro apontaram um incremento somado de US$ 110,623 bilhões naquele intervalo, enquanto o acréscimo registrado para o total exportado pelo Brasil aproximou-se de US$ 172,436 bilhões. Mais precisamente, uma contribuição de 64,2%. Na soma daqueles nove itens, as vendas atingiram US$ 123,495 bilhões no ano passado, representando 54,8% de toda a pauta, num salto de 859,4% em relação a 1997, quando haviam somado US$ 12,872 bilhões, respondendo por 24,3% das vendas externas totais.

A descoberta do pré-sal em 2006 e o seu desenvolvimento nos anos seguintes, graças à tecnologia criada e desenvolvida pela Petrobrás para exploração de óleo a grandes profundidades na costa brasileira, tiveram impacto decisivo também na pauta de exportações. Em 1997, as vendas externas do setor, considerando os embarques de óleo bruto e processado, representavam um traço nas estatísticas, correspondendo a vendas de US$ 318,4 milhões (apenas o 31º item da pauta). No ano passado, aquele valor atingiu US$ 30,314 bilhões, ou seja, 95,2 vezes mais, o que assegurou a liderança na pauta de exportações.

A segunda maior contribuição veio da soja em grão, que teve as vendas externas elevadas em 963,3% em 22 anos, saindo de US$ 2,452 bilhões para US$ 26,077 bilhões, com a China assumindo participação de 78,4% naquele total. As exportações de minério de ferro, por sua vez, igualmente puxado pela demanda chinesa, cresceram 703,3% entre 1997 e 2019, pulando de US$ 2,846 bilhões para US$ 22,682 bilhões.

As vendas brasileiras de carnes (bovina, aves e suína, incluindo miúdos) avançaram de US$ 1,289 bilhão para US$ 15,304 bilhões, o que correspondeu a um salto de 1.087% (quer dizer, praticamente 12 vezes mais). Os embarques de milho, com o avanço dos plantios de segunda safra no País e aquecimento da demanda global, foram multiplicados em nada menos do que 140,3 vezes, crescendo de apenas US$ 51,957 milhões para quase US$ 7,290 bilhões.

A indústria de papel e celulose aumentou suas vendas externas de pasta de celulose em 645%, saindo de US$ 957,777 milhões para US$ 7,135 bilhões. As exportações de açúcar e de farelo de soja cresceram mais moderadamente, com altas de 193,0% (para US$ 5,179 bilhões) e de 118,4% (para US$ 5,855 bilhões) respectivamente. As vendas de ouro brasileiro no exterior, por sua vez, aumentaram 620,3% no período avaliado, passando de US$ 507,896 milhões para US$ 3,658 bilhões.

“Invasão estrangeira”

Ao mesmo tempo em que perdeu espaço nas exportações, a indústria de transformação registrou um aumento expressivo de insumos e outros bens importados, que passaram a responder por 18,4% do consumo doméstico de produtos industriais no dado de 2018 – estatística mais recente divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). Em 2003, início da série da instituição, essa fatia havia sido de 10,3%.

Mas alguns setores foram mais afetados pela invasão dos importados. A indústria de outros equipamentos de transportes percebeu uma elevação dos importados de 16,4% para 67,5%. Na indústria farmacêutica, essa participação avançou de 23,1% para 40,3% e chegou a 30,2% na indústria de máquinas e equipamentos, saindo de 20,5% em 2003. A indústria de máquinas e de material elétrico observou uma elevação de 12,2% para 25,2% na participação de bens importados no consumo doméstico dos produtos que fabrica. Na indústria de petróleo, o salto na produção doméstica e nas exportações não veio acompanhado de maior produção local de bens industriais destinados ao setor, já que a fatia das importações nesta área elevou-se de 12,4% para 27,5%.

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