Jean Wyllys nos representa! Nós o representaremos!, por Beatrice Papillon

Jean Wyllys nos representa! Nós o representaremos!

por Beatrice Papillon

Ao saber da decisão do Jean Wyllys de não voltar pro Brasil, num auto-exílio imposto pelas ameaças contra a sua vida e agravado pela cara de pau do Estado brasileiro de garantir à OEA que ele estaria perfeitamente seguro, me ocorre a frase icônica do seriado mexicano: “E agora, quem poderá nos defender?” A pergunta ecoa pelo meu quarto, percorre as paredes forradas de posters da Cher, sobrevoa a penteadeira e, afinal, cai morta diante do armário cuja porta está irremediavelmente escancarada. Eu mesma, portanto, me respondo: Viada, se acalme!

Quem acompanha atentamente as conjugações políticas que levaram Marielle Franco à execução, não menosprezou as ameaças denunciadas por Jean. Em todas e todos nós havia um silêncio interno de expectativa e angústia a nos preparar para o pior. O anúncio da decisão do Jean, se por um lado nos tira parte do chão, por outro enche de alívio. Fique em paz, querido. Nos vemos logo.

Ainda que ele decida pendurar definitivamente as chuteiras (com seus cadarços rainbow, ressalte-se), sua contribuição para a luta de uma sociedade que se quer livre já foi um avanço de décadas. Seus mandatos se extenderam por diversas áreas da defesa dos direitos humanos e minorias, mas é fato que a comunidade LGBTTQIA+ se viu especialmente turbinada pela ascenção e triunfo dessa gay babadeira na vida pública nacional. Nunca antes na História desse país, um deputado bateu palma na cara do Congresso para afirmar sua homossexualidade e seu orgulho.

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Aquele único ato já dizia muito sobre a força de Jean contra a descrença popular na política representativa. Mas neste sentido, a atuação dele transcendeu o que tocava só a nossa comunidade e as pautas minoritárias. O fechamento do deputado com as pessoas que representa restaurou a confiança também em outros eleitores que já estavam desiludidos com a política partidária. Sua integridade legitimou a importância da representação parlamentar na vida nacional e portanto contribuiu decisivamente para a credibilidade do nosso sistema político. Na sabedoria do povo, é fato que todo voto deve ser de confiança. E assim foi, em meio à lama federal, quando muita gente já tinha desistido de acreditar nessa bagaça, que Jean e sua equipe lançaram uma luz de esperança. O gato provou que nem todo político é cheio de equê. O Brasil todo lhe deve esse reconhecimento.

A luta segue em campo minado. Mas às manas e manos, digo que segurem a periquita e não “priemos cânico”! Enfrentaremos as Damares, as Bolsonaras, as Mouronas e quem mais vier. Atravessaremos a tormenta, muito lindas, na base do “ninguém solta a mão de ninguém”. E é por esse mesmo princípio que é importante que Jean se proteja. O mundo certamente vai reverberar a notícia. Jean é reconhecido internacionalmente como uma das lideranças LGBTQIA+ mais influentes do planeta. Sua partida é também um ato simbólico de grande importância. Isso significa que ainda temos ele no jogo, só não estará no Congresso. Se em suas campanhas o slogan dizia “Jean é um de nós”, a sua coragem se espalhou em todos e todas que compartilhamos dela. Essa é a força irrefreável de uma grande liderança política e social: não são a morte, o cárcere ou a distância que apagarão a grandeza, muito menos a presença de alguém. Se para nós, que lutamos pela liberdade, Marielle é uma semente e Lula é uma ideia, hoje, Jean Wyllys é uma coragem! Mesmo longe, tão perto.

(Não posso terminar sem comemorar o momento mais literalmente babadeiro do Jean. Aquele hino de acontecimento!! O dia em que a indignação de milhões de pessoas rodopiou entre as papilas do deputado e viraram perdigoto na trajetória bélica que sua cusparada traçou para atingir a cara do coiso ruim. Representou, querido! A senhora lacra!)

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Axé, amado!

Salvador, 24/01/19

 

 

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