Que Jesus queremos?, por Dora Incontri

Somos espíritos, filhos das estrelas, cidadãos do universo, onde Deus habita e somos nós mesmos habitados por Ele.

Que Jesus queremos?, por Dora Incontri

Jesus ocupa uma centralidade no espiritismo proposto por Kardec, porém de maneira diferente da visão do cristianismo tradicional – leia-se das Igrejas católica e protestante. Tão diferente que muitas vezes católicos e protestantes não aceitam que os espíritas sejam cristãos e mesmo alguns espíritas negam essa adjetivação. Mas Kardec a usou sim e escreveu o Evangelho segundo o Espiritismo, lançado em 1864.

Que visão, entretanto, ele oferece a respeito de Jesus? Em primeiro lugar, nega a condição de Deus encarnado. A concepção espírita de Deus, que se situa num plano cósmico e infinito, como causa primária de todas as coisas, não se coaduna com a ideia de uma encarnação divina nesse quadrante insignificante de um sistema solar numa das bilhões de galáxias que povoam o universo. Já no século XIX, Kardec falava de outros mundos habitados, fugindo definitivamente de uma teodiceia geocêntrica. Somos espíritos, filhos das estrelas, cidadãos do universo, onde Deus habita e somos nós mesmos habitados por Ele.

Então, quem é Jesus?  – um ser humano excepcional, elevado, iluminado, que passou no mundo com o propósito não de nos salvar (porque a ideia de salvação também não faz parte da cosmovisão espírita), mas para contribuir em nosso processo de evolução, de educação espiritual, mostrando caminhos de amor, fraternidade e paz. Exemplo, mestre, guia, irmão mais avançado na senda do progresso, que todos os seres humanos percorrerão. Nessa visão, o espiritismo de Kardec admite que houve outros grandes mestres, como Buda, Confúcio, Lao Tsé, Maomé, Francisco de Assis…em qualquer época, em qualquer lugar do planeta encarnaram-se grandes orientadores espirituais, para inspirar a ascensão humana. Mas nascido numa cultura greco-judaico-cristã, o espiritismo kardecista se conecta com o modelo de Jesus e segue sua trilha.

Nessa concepção, Jesus se humaniza, mas não perde sua posição de veneração. Porque se humaniza, torna-se mais óbvio que devemos imitá-lo. Muito mais difícil seria, para não dizer impossível, imitar um Deus. Mas ele disse que somos deuses e poderíamos fazer tudo o que ele fez e ainda mais, desde que tivéssemos fé.

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E o que ele fez? O que até hoje poucos cristãos fazem, de qualquer denominação que sejam. Ele tratou todos os seres humanos com amor acolhedor e reverente, incluiu os marginalizados, se relacionou com respeito e amizade com as mulheres, que então eram mera propriedade dos homens e ainda hoje continuam sendo violentadas e abusadas; valorizou a presença das crianças; curou doentes; caminhou ao lado dos mais simples e dos mais pobres; não condenou a conduta sexual de ninguém (ao invés chocou os preconceitos da época ao andar com “pecadores”e prostitutas). Não fez diferença entre judeus e pagãos, entre homens e mulheres, entre adultos e crianças…

Mas contra um tipo de gente, Jesus se insurgiu, se rebelou e usou do chicote e de palavras duras: os exploradores da fé, os fariseus, os hipócritas moralistas que oprimiam as massas com o rigorismo de regras sem sentido, arrancando-lhes a dinheiro e submissão. “Sepulcros caiados” é o mínimo com que Jesus os trata.

Mas também foi duro com os ricos, com as “açambarcadores do pão material” – para usar uma expressão que está no Evangelho segundo o Espiritismo– e disse que eles não poderiam entrar no Reino dos Céus com suas riquezas, a menos que a elas renunciassem. Disse mais, que os que tinham fome e sede de justiça seriam saciados. E como estamos famintos!

Ora, esse Jesus humano, amoroso, próximo de nós, descrito nos Evangelhos e reafirmado por Kardec foi golpeado ainda no tempo em que o mestre vivia, por um advogado de Bordeaux, um tal de Roustaing. Ele dizia ter recebido através de uma única médium (Kardec trabalhava em suas pesquisas com inúmeros médiuns de diversos países) os Quatro Evangelhosrescritos pelos evangelistas em espírito e anunciava pretensiosamente que esses livros eram a “revelação das revelações”. Numa linguagem indigesta, empolada, em páginas e páginas sem fim, reaparece a figura de um Jesus caricato, já rejeitado pelos primeiros cristãos, ao combaterem a heresia dos docetistas: a ideia de que Jesus sequer tinha se encarnado num corpo físico. Portanto, seu nascimento, sua convivência humana conosco, suas dores, seu sacrifício e sua morte – tudo isso não passaria de uma encenação. De um Jesus humano e puro, que Kardec nos apresentava, aparecia um Jesus caricato, fantasmagórico. Desse livro, derivava toda uma visão de mundo contrastante com a proposta racional, evolucionista, emancipatória de Kardec. Aparecem ideias de anjos caídos, de gravidez psicológica de Maria, de entidades míticas… em suma, era a antítese do que queria Kardec, que era tomar o cristianismo em seu aspecto ético e entender Jesus em sua dimensão humana.

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Ora, isso poderia ter passado como um incidente sem importância, porque o próprio Kardec, em sua última obra A Gênese, os milagres e as predições segundo o Espiritismo, refutou a ideia de Roustaing (embora sem citar-lhe o nome) e procurou explicar ainda de forma mais racional alguns aspectos da vida de Jesus, como seus milagres e profecias.

O roustainguismo porém virou um problema no movimento espírita que se sucedeu à morte de Kardec e ainda hoje é um espinho entre nós. Uma das pessoas que ficou à frente do movimento, inclusive da Revista Espírita, Gaëtan Leymarie, não tardou a abrir as portas do espiritismo a toda espécie de misticismo e… ao próprio roustainguismo, financiado por um milionário discípulo do advogado de Bordeaux. Foi feita uma edição adulterada da Gênese, perdeu-se o critério de criticidade e transparência que Kardec imprimiu à sua obra. Todo o caso está brilhantemente pesquisado por Simone Privato, em seu livro lançado no ano passado, O Legado de Kardec.

Esse espiritismo maculado chegou ao Brasil e instalou-se desde cedo na Federação Espírita Brasileira, que até hoje tem como cláusula pétrea de seu estatuto o quê?… justamente o roustainguismo.

Muitos poderiam pensar (e pensam), que tudo isso não passa de um debate teológico irrelevante, que cada um acredita no que quiser e que nada disso importa aos espíritas e, muito menos, aos não-espíritas.

Mas não é assim. Por isso, intelectuais espíritas como Herculano Pires em São Paulo, dedicaram-se a criticar esse desvio. Acontece que acompanhada dessa visão de mundo mítica, igrejeira, catolicizante (no que o catolicismo teve de pior e não em suas versões mais progressistas), vem toda uma tendência conservadora, reacionária. O vigor crítico, emancipatório de Kardec se perde. O espiritismo envereda pela estagnação e o Jesus que deveria trazer justiça e igualdade, amor e solidariedade, se torna um nome usado em palavras mansas e vazias, para justificar poderes e o status quo.

Isso tem sido uma constante na história do cristianismo. Jesus trouxe uma mensagem transformadora, profética, poética, vigorosa, de um amor enérgico e não de um pieguismo submisso e teimam em adorá-lo como um rei, como uma imagem, sem a corporeidade da ação e da presença em nós e no mundo.

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As instituições religiosas hierarquizadas, donas de domínio financeiro, têm todo o interesse em entronizar um Jesus amorfo, melado, que fica nas nuvens etéreas e não desce ao barro do mundo, para fecundá-lo. Colocam-no longe de nós, porque se o tivermos lado a lado e dentro do coração, nos sobrará forças para lutar contra a injustiça, amar a humanidade e clamar pelo Reino de Deus, na terra – e já! – denunciando aqueles que a ele se opõem, inclusive e principalmente os que o fazem em nome de Jesus.

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