Juntos, mas nem tanto, por Luís Felipe Miguel

A “frente” que o “Juntos” promete não aponta nem mesmo para a restauração de uma democracia liberal no formato menos exigente que se possa imaginar.

Juntos, mas nem tanto

por Luís Felipe Miguel

Tem gente que defende o manifesto do “Juntos”, mesmo reconhecendo que ele é virado à direita e se cala sobre os direitos dos trabalhadores, com o argumento de que é necessário primeiro reconquistar a democracia.

Tenho sérias dúvidas sobre a fixação dessas etapas e sobre a possibilidade de separar uma coisa da outra.

Mas o ponto aqui nem é esse. É que, a fim de acomodar tantos conspiradores contra a Constituição e golpistas impenitentes, a “frente” que o “Juntos” promete não aponta nem mesmo para a restauração de uma democracia liberal no formato menos exigente que se possa imaginar.

Existe democracia quando a expressão da vontade política do eleitorado é tutelada e pode ser derrogada quando contraria grupos poderosos (como na derrubada da presidente Dilma Rousseff)?

Existe democracia quando o processo eleitoral é maculado pelo veto imposto a determinadas candidaturas (como ocorreu com Lula)?

Existe democracia quando consensos produzidos há décadas são destruídos por decisão unilateral, sem diálogo e sem negociação (como aconteceu com os direitos varridos pelas “reformas” de Temer e de Bolsonaro/Guedes e, em última análise, com a própria Constituição)?

Existe democracia com o aparelho repressivo de Estado atuando para criminalizar um lado do espectro político (nem preciso explicitar a referência à Lava Jato)?

Num texto publicado hoje, que só posso classificar como bobo e despolitizado (“jogamos amor e flores no ventilador”), uma das articuladoras do manifesto diz que ele reúne quem “acredita que a única saída possível é por meio da política, com respeito ao que determina a nossa Constituição”. O golpe contra Dilma, a prisão de Lula e o fim dos direitos trabalhistas casam com “o que determina a nossa Constituição”?

Quem não responde um sonoro “não” a todas essas perguntas não está defendendo nenhum tipo de democracia, nem a mais minimalista delas.

Derrubar Bolsonaro é um objetivo pontual, mas importante e digno. Não dá é para vesti-lo com a falsa roupagem de que se unir a ele significa por si só defender a democracia, a liberdade e a Constituição ou se somar a um “projeto comum de país”.

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