Laços históricos, crises no presente e o alerta através da arte, por Arnaldo Cardoso

Se são lamentáveis os atuais motivos que aproximam Brasil e Itália, é animadora a intensificação da circulação de produções artísticas/intelectuais que promovem o pensar e o agir na busca de mudança de tais realidades.

Laços históricos, crises no presente e o alerta através da arte

por Arnaldo Cardoso

São muitos os laços históricos que ligam Brasil e Itália, substanciados pelos cerca de 22 milhões de descendentes de italianos que compõem a população brasileira resultantes do fluxo de imigração iniciado em 1870 e que exerceu crescente influência no país nas décadas finais do Império e, ainda mais a partir da República, e estes podem estimular bons projetos de cooperação, mas é o presente político dos dois países o que tem estimulado aproximações e comparações cada vez mais frequentes.

Essas comparações ganharam maior espaço a partir da ascensão em 2018 de um governo populista de extrema-direita na Itália e, um ano depois, o mesmo ocorrendo no Brasil, inclusive produzindo recíprocas declarações de admiração e apoio entre os novos governantes. (No meio acadêmico, um debate se instalou tratando da adequação ou não do uso do conceito de fascismo para se referir à realidade política – regime, governo, sociedade (?) – dos dois países). 

Já em 2009, quando teve início no Brasil a Operação Lava Jato e seus graves desdobramentos sobre a vida política brasileira o traçar de paralelos com a Itália passou a ser recorrente, inclusive estimulado pelas declarações do juiz responsável pelo processo de investigação de corrupção no Brasil quanto a sua inspiração na famosa Operação Mãos Limpas, realizada na Itália dos anos 1990, que investigou esquemas de pagamento de propina por empresários a políticos de diferentes partidos em licitações viciadas para obras públicas e que abalou a vida política italiana, sendo uma de suas consequências a chegada do empresário e “outsider político” Silvio Berlusconi ao governo do país, numa campanha eleitoral apoiada na crítica ao sistema político e à corrupção.

Remontando às origens da Operação Mãos Limpas vale lembrar as revelações feitas nos anos 1980 de relações criminosas entre a máfia, o Banco do Vaticano e membros da classe política italiana no rumoroso caso da quebra do Banco Ambrosiano que teve como um de seus desfechos o aparecimento do corpo de um de seus ex-dirigentes, Roberto Calvo, conhecido como “o banqueiro de Deus”, enforcado e pendurado na ponte de Blackfriars, em Londres.

Se são lamentáveis os atuais motivos que aproximam Brasil e Itália, é animadora a intensificação da circulação de produções artísticas/intelectuais que promovem o pensar e o agir na busca de mudança de tais realidades. Nessa direção, merece nota a exposição “Palermo” da fotojornalista siciliana Letizia Battaglia em cartaz no IMS de São Paulo até 22 de setembro.

Através de 90 fotografias e matérias estampando primeiras páginas de jornais percorre-se as ruas da cidade que ficou conhecida como “capital da Máfia” nos anos do chamado “Saque de Palermo”, quando imperava o mando de uma organização criminosa (Cosa Nostra) associada a políticos e empresários que, só em 1984 foi parcialmente desmontada, a partir da colaboração do mafioso Tommaso Buscetta. 

Na mesma exposição, através de um documentário sobre a fotógrafa tomamos conhecimento de que após anos de cobertura jornalística dos crimes cometidos pela máfia e da compreensão da correspondente deterioração da vida na cidade, a fotógrafa ingressou na política institucional elegendo-se deputada regional pelo Partido Verde e desde então vem se engajando em projetos sociais articulando denúncias de ações lesivas à cidadania como a especulação imobiliária em Palermo, apoio a jovens profissionais e diversas campanhas de conscientização. 

Assim como a exposição de Letizia Battaglia outras produções como o último documentário do diretor italiano Nanni Moretti, “Santiago, Itália”, que resgata os dias sangrentos no Chile sob Pinochet nos quais a embaixada italiana em Santiago ao acolher centenas de perseguidos políticos salvou suas vidas, cumprem a missão de alertar sobre os perigos dos momentos em que o rompimento ou mesmo a degradação de valores numa sociedade comprometem o Estado de direito e o respeito à dignidade da pessoa humana. 

Como se viu ao longo do século passado, diferentes manifestações artísticas abriram espaço para pequenas revoluções ou movimentos de resistência, que em momentos críticos, se tornam condição para existência.

Arnaldo Cardoso, cientista político, pesquisador e professor universitário.

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