Lasar Segall entre modernistas, por Walnice Nogueira Galvão

Os arquivos do museu que leva o nome do pintor guardam correspondência, ainda inédita mas em vias de ser explorada, com variados missivistas, inclusive colegas modernistas.

Lasar Segall entre modernistas

por Walnice Nogueira Galvão

Em Lasar Segall ressaltam as qualidades de integração. Vindo de fora como artista reconhecido, em pouco tempo estaria cercado de amigos. Basta colocá-lo no círculo dos poetas modernistas, de cuja amizade privava: ilustrou  livros, pintou e desenhou retratos. Eles, em contrapartida e dentro de suas competências, contribuíram com textos para os trabalhos dele.

É famosíssimo seu retrato de Mário de Andrade, modelo que inspirou os mais célebres artistas da época. Já Portinari nos oferece um escritor mais épico, mais majestoso, correspondente ao papel que desempenhou no movimento modernista como líder e mestre. Mas o escritor deixa entrever que o de Segall o inquietava mais, pela acuidade com que enxergara coisas trancadas dentro dele. Os dois retratos podem ser contemplados no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, juntamente com outros devidos a pincéis não menos renomados, como os de Anita Malfatti, Flávio de Carvalho, Tarsila do Amaral.

Um bom exemplo da camaradagem desses artistas são as decorações para os dois bailes da SPAM (Sociedade Pró-Arte Moderna), nos anos 30, que tiveram realização plástica de Segall com base em roteiro preparado por Mário. Infelizmente, com o acirramento à época da ascensão da direita, que não gostou da crítica à plutocracia contida no resultado da colaboração de ambos, a sociedade foi desfeita e os bailes não se repetiram. Parte dos gigantescos cenários foi recuperada e exposta em São Paulo na Hebraica, há poucos anos. E tem a mesma origem o bestiário presente na grande exposição “A cor de Lasar Segall: ensaio sobre a cor”, que inaugurou o Sesc da 24 de maio (ver JornalGGN 11.2.2019).

Os arquivos do museu que leva o nome do pintor guardam correspondência, ainda inédita mas em vias de ser explorada, com variados missivistas, inclusive colegas modernistas. Mas acima de tudo temos a felicidade de poder admirar o álbum Mangue, de sua autoria – e objeto de uma exposição intitulada “Poéticas do Mangue”, no mesmo museu, em 2012. As aquarelas originais, que serviram como matrizes para as gravuras do álbum, encontram-se ali preservadas.

O álbum traz três ensaios de apresentação, assinados por escritores modernistas da linha de frente, bons companheiros do pintor. São eles, pela ordem em que aparecem, Jorge de Lima, Mário de Andrade e Manuel Bandeira: naipe nada desprezível.

Hoje em dia Jorge de Lima é menos lembrado que os outros dois. Mas era figura de proa no primeiro modernismo, aquele que foi de briga, ou de demolição, antes da fase construtiva que se iniciou por volta dos anos ´30. Seu relativo esquecimento provavelmente é devido à guinada que sua vida e sua obra operariam, tendo ele cada vez mais se tornado católico praticante, esteticamente retrocedendo ao tradicionalismo nos trabalhos mais tardios. Abandonaria criações que ficaram para sempre ligadas ao movimento e que até hoje são referência, como “Essa negra Fulô”, de ritmos populares, na forma de uma balada em redondilha maior. O poema (constante de Poemas negros, ilustrado por Segall), entre outros, mostra bem a influência das ideias de Gilberto Freyre sobre a forte presença africana na formação do Brasil e sobretudo do Eros dos sinhôzinhos. Para desconcerto de seus companheiros de jornadas vanguardistas, o poeta passaria a escrever abundantes sonetos, de que é prova seu livro Invenção de Orfeu (1952), a todos os títulos sofisticado e de alta qualidade além do mais, místico. 

Mas para contrariar qualquer noção de que o poeta estaria esquecido, basta lembrar o recentíssimo e premiado filme de Cacá Diegues intitulado O Grande Circo Mìstico, com lindas canções de Chico Buarque e Edu Lobo, baseado em poema homônimo de Jorge de Lima.

Lasar Segall era concunhado de Gregori Warchavchik, o arquiteto que construiu em São Paulo a primeira Casa Modernista, sendo ambos casados com duas irmãs Klabin, Jenny e Mina. O arquiteto projetou também a casa do pintor com seu ateliê, na edificação que hoje é a sede do museu.

Ali, em exposição permanente, é possível verificar estas e outras curiosidades referentes à roda de convivência do pintor.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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