Lições do jornalismo servil, por Alexandre Coslei

O papel medonho dos jornalistas está na subserviência às pautas ditadas pelos barões que controlam os maiores veículos de comunicação do país. É uma postura humilhante, mesmo que se justifique pela necessidade do emprego e da sobrevivência.

Lições do jornalismo servil

por Alexandre Coslei

Foram dois eventos recentes que nos obrigaram a enxergar a realidade assombrosa sobre o jornalismo brasileiro. A primeira constatação ocorreu em 2015 quando a multinacional Uber entrou no Brasil patrocinando uma campanha feroz e uníssona contra os taxistas. A segunda demonstração aconteceu em 2016, com a imprensa engajada às forças mais repulsivas e antirrepublicanas da política na disseminação de uma publicidade perversa contra o governo federal e pelo impedimento da ex-presidente Dilma Rousseff. Nos dois casos, a mídia facilitou o sucesso de duas ações que acumulam consequências danosas para o futuro da nossa sociedade, cujos efeitos já começam a se manifestar. 

No caso do Uber, consolida-se a ideia do trabalho sem direitos e o cultivo de empresas que confessam aversão por laços empregatícios formais. No golpe parlamentar contra a ex-presidente Dilma, ainda estamos acompanhando a implosão institucional do Estado, sua degeneração moral e o vácuo da racionalidade que permitiu a ascensão de uma extrema direita tosca e sombria. 

O que há em comum entre dois episódios que parecem absolutamente desconectados? A predominância da vontade implacável do grande capital expandir seus tentáculos eliminando direitos sociais e constitucionais que subtraem o lucro e restringem o controle de poderosas corporações sobre as escolhas da política econômica. 

O papel medonho dos jornalistas está na subserviência às pautas ditadas pelos barões que controlam os maiores veículos de comunicação do país. É uma postura humilhante, mesmo que se justifique pela necessidade do emprego e da sobrevivência. O comportamento servil daqueles que deveriam zelar e lutar pela independência do pensamento e da imparcialidade na interpretação dos fatos, muitas vezes reflete um jornalismo que se rende como cúmplice voluntário das campanhas de ódio que soterram a missão  de informar todos os aspectos de questões que irão causar impacto direto no cotidiano dos cidadãos. O atual jornalismo brasileiro está muito mais próximo à fraude e à omissão, afastando-se conscientemente da autenticidade que deveria guiar os profissionais da área. Não seria exagero afirmar que a verdade é vista frequentemente pela nossa imprensa como um elemento incômodo a ser contornado. 

Em 2015, testemunhamos todos os colunistas do jornal O Globo se deixarem pautar pelo objetivo vil de promover uma empresa estrangeira, de capital privado, que invadia o Brasil revestida pela falácia da tecnologia, mas cuja única intenção é encampar e monopolizar os ganhos da produção dos taxistas, que atuavam como força de trabalho autônoma. Criaram a “máfia dos táxis”, transformaram o taxista no maior vilão de todos os tempos, tudo isso para entregar um segmento de serviço, que sustentava milhares de trabalhadores com dignidade, à ganância de acionistas internacionais. 

Em 2016, vimos Dilma também transformada em vilã do universo pelos maiores jornais do país, sendo massacrada e ofendida como mulher, deposta e com seu governo apreendido pelos tentáculos mais insensíveis do mercado financeiro. Usam as mesmas táticas de manipulação da opinião pública e subversão das leis quando almejam potencializar o lucro corporativo.

Que me perdoem os diletantes digitais, mas a evolução não é um conceito que tenha lógica quando se liga à degradação social. Porém, é necessário reconhecer que a tecnologia nos trouxe uma maliciosa armadilha, explora severamente uma nova geração de mão de obra sob a ilusão de que democratiza oportunidades. 

Um jornalismo corajoso e comprometido com a sociedade nos conduziria a questionar o admirável e desumano mundo novo que está emergindo envernizado por uma modernidade obscurantista. Infelizmente, em nossa terra, os jornalistas concordaram em se reduzir a desprezíveis incubadoras de ogros e vigaristas. A maior lição que o nosso jornalismo nos deixa é que precisamos aprender a pensar além dele e apesar dele. 

6 Comentários

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Jorge Leite Pinto

- 2019-09-02 14:49:14

Quem tem dinheiro para "comprar ou fundar um grande jornal" JAMAIS vai dar liberdade alguma a jornalista nenhum. Aliás nem vai procurar jornalista, um verdadeiro, mas sim uma "pena amestrada". Ademais, o que o senhor chama de "melhores profissionais"? Os independentes, que obviamente não serão enquadrados nos ditames do "mercado" e seus patrões corporativos ou os subservientes aos quais se refere o texto?

Olirio

- 2019-09-02 14:21:52

Sr. Renato Sant Ana! Essa é a teoria simplista de escolher um fim, (e veja que fim), para justificar os meios.

Renato Sant Ana

- 2019-09-02 12:08:45

É fácil resolver isso: o sr. Alexandre compra ou funda um grande jornal, paga muito bem aos melhores profissionais do mercado com liberdade total. Vamos ver o resultado. É fácil cagar regras idiotas sem nunca ter entrado ou trabalhado na redação de um grande jornal. Se trabalhou, não aprendeu nada.

Jossimar

- 2019-09-02 11:58:39

Por dinheiro são capazes de escrever até que a própria mãe é uma prostituta. Com algumas poucas exceções este é o profissional mais é o mais pilantra que existe. Quero dizer, depois de juízes, procuradores e policiais federais ou não.

altamiro souza

- 2019-09-02 11:37:01

corajosa análise... o jornalismo acabou faz tempo... o que há é uma descarada defesa das mentiras do mercado,das mentiras patronais..... restou os que ainda trabalham no estilo mino carta. o resto continua office-boy sofisticado,como já disse quando era estagiário na década de setenta..... naquela época tb os patrões enganavam pernitindo criticas aos generais mas jamais ao esquema capitalista de mercado.

- 2019-09-02 11:20:42

Alexandre, Crítica bastante generosa à classe de jornalistas, tendo em vista o sem número de exemplos de espírito de servidão que já ocorrem há muitos anos. Quando um cretino fantasiado de jornalista anuncia que " se não for aprovada a reforma da Previdência, o brasilsil quebra", fica mais do que evidente que, além de ter esquecido que país não quebra, o distinto vendeu a sua alma ao diabo, ou melhor, ao seu patrão, e não se envergonha disto. Qual jornalista se lembrou que era brasileiro, e criticou o "Dilma vai tomar no c..." gritado a plenos pulmões na abertura da Copa 2014, numa rara demonstração de civismo para cerca de 4 bilhões de pessoas diante de suas televisões? Sinceramente, Uber é nada, quando comparado àquela manifestação. Como eu digo, não faltam exemplos de omissão proposital e subserviência explícita por parte da mídia tupiniquim, classe considerada por muitos como a pior de todas entre as mídias em países democráticos.

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