Literatura, matemática e crises econômicas, por Izaías Almada

Juntar estes temas em um romance que não afugentasse os leitores pela suspeição de encontrarem na obra a linguagem das estatísticas e dos cálculos frios com números e teoremas, por incrível que possa parecer, não foi uma tarefa difícil.

Literatura, matemática e crises econômicas

por Izaías Almada

Dentre os livros que me foram indicados pelo professor Matheus Grasselli para orientar a pesquisa e o entendimento sobre o tema do livro THE VENETIAN FILES, três deles foram fundamentais: “Da Euforia ao Pânico”, dos autores Charles Kindleberger e Robert Z. Aliber (1), “A Economia das Crises”, escrito por Nouriel Roubini e Stephen Mihm (2) e, sobretudo, “A Ascensão do Dinheiro”, do historiador inglês Niall Ferguson (3).

Apenas como aperitivo para que se entenda o que afirmo acima, vou citar três opiniões abrigadas nas contracapas dos referidos livros: “Da euforia ao pânico” talvez seja a obra mais importante da literatura econômica devotada exclusivamente à análise do quase infindável número de crises que vêm assolando a economia e os mercados mundiais dos últimos séculos. Sua atualidade e relevâncias mantêm-se inalteradas há mais de trinta anos após sua primeira edição, evidenciando a profundidade da obra de Charles Kindleberger, um economista que, como poucos, sabe extrair das lições do passado preciosos indícios de como contribuir para resolver situações do presente e evitar problemas no futuro”. Alessandro Tommasi, economista e fundador da Infomoney.

“As advertências de Roubini (A Economia das Crises) são fundamentais em modelos sofisticados e cautelosa análise de dados, e têm se mostrado corretas – não só em geral, mas em detalhes. Então Roubini é uma Cassandra? Sim, é. Lembre-se de que as pessoas rejeitavam as terríveis profecias de Cassandra e todas se tornavam realidade.” Paul Krugman, Time.

Sobre A Ascensão do Dinheiro: “Niall Ferguson é um dos mais incisivos escritores de história política e econômica da atualidade” Sunday Telegraph

Ao ler essas obras tive a oportunidade de confirmar tais opiniões e perceber que não eram apenas um marketing para a venda dos livros.

Reunidas, são ao redor de mil páginas, pouco mais ou menos, que procuram explicar numa linguagem acessível para leigos sobre o assunto, o equivalente a sete séculos da história de como se organizou a economia mundial desde a inauguração dos primeiros bancos na Europa medieval.

Outros livros, como o do jornalista Daniel Estulin, “A Verdadeira História do Clube Bilderberg” (4) procuram investigar se é possível as finanças mundiais serem reféns de um grupo de pessoas poderosas que se reúnem anualmente para manterem o seu domínio. 

Não foi por acaso que eu e o professor Grasselli escolhemos uma frase de um ex-ministro da Defesa britânico, Denis Healy, para a abertura do nosso livro: “O que ocorre no mundo não acontece por acidente: existem os que se encarregam para que ocorra. A maioria das questões nacionais ou relativas ao comércio está estreitamente dirigida pelos que detêm o dinheiro”.

Muitas conversas, dezenas e dezenas de e-mails trocados foram aos poucos definindo uma linha narrativa que dividiu em dois períodos históricos o tempo da ação dramática: a Alta Idade Média e a crise econômica que teve o seu ponto crítico em setembro de 2008.

Em 2016, já mais à vontade com o assunto a ser tratado e de que maneira tratá-lo, depois de vários livros lidos e mensagens trocadas, sentimos que estávamos prontos para a escrita do romance propriamente dito, como faz prova o seguinte e-mail:

 On Oct 27, 2016, at 10:05 AM, Izaias wrote:

 

Olá Matheus,

Esqueci-me de fazer referência, na minha reposta ao seu e-mail, às ideias que você tem sobre o caso da falência do Lehman.

Quando é que você poderia mandá-las?

Fico no aguardo.

Ab.,

Izaías

 

Leia também:  A Economia solipsista e a negação do desemprego, por Albertino Ribeiro

A falência do banco Lehman Brothers seria o ponto de viragem da crise de 2008. A certeza de nos ampararmos num fundo histórico verdadeiro, nos abria portas para a ficção, deixando o leitor inteiramente à vontade para seguir as peripécias que sustentam a narrativa.

Juntar literatura, matemática e crises financeiras em um romance que não afugentasse os leitores pela suspeição de encontrarem na obra a linguagem das estatísticas e dos cálculos frios com números e teoremas, por incrível que possa parecer, não foi uma tarefa difícil. Ao contrário, foi a um só tempo estimulante e prazerosa.

Mais do que isso não posso dizer, pois para descobrir e entender quais são os segredos contidos nos Arquivos de Veneza terá o leitor que vir e caminhar junto com os autores pelas veredas e atalhos com que o homem foi construindo a história de sua riqueza material.

Todo livro tem sua própria história. 

 

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  1. Editora Gente
  2. Editora Intrínseca Ltda
  3. Editora Planeta do Brasil Ltda
  4. Editora Planeta do Brasil Ltda

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