Livros que não esqueço (III), por Izaías Almada

Segundo Aristóteles, a obsessão de alguém em atingir um determinado objetivo, seja ele de qualquer natureza, pode causar a falha trágica. Nada mais esperado no Brasil atual, não?

Livros que não esqueço (III)

por Izaías Almada

Mudei-me de Belo Horizonte para São Paulo no ano de 1963 com 20 anos de idade, mais precisamente no dia 25 de janeiro, quando a cidade comemorava os 409 anos da sua fundação. 

Até então só havia deixado BH para viagens ao interior das Minas Gerais e para as praias do Rio de Janeiro. Tomei a decisão sem consultar meu pai que, mesmo aborrecido, não criou qualquer obstáculo à minha intenção.

Ao contrário da mineirada que babava por alguma praia carioca ou mesmo no litoral do Espírito Santo, resolvi que seria São Paulo o meu destino, pois lá ficava a Escola de Arte Dramática que, dois anos antes, tinha ido apresentar uma parte do repertório de montagens da escola com professores e alguns dos alunos que iriam se formar naquele final de ano.

Shakespeare compunha parte do repertório e pude assistir, emocionado, uma cena de “Otelo” representada por Paulo Mendonça e Ilka Zanotto, o suficiente para tomar a decisão que viria a tomar. 

Queria estudar o teatro a sério e Belo Horizonte não era uma cidade que recebesse na época muitas companhias do Rio ou de São Paulo e o teatro que lá se fazia era amador. Seu movimento teatral era incipiente e contava com um pequeno e formidável grupo, o Teatro Experimental, o TE como era carinhosamente chamado. A partir de 1959 o TE desenvolveu um sério trabalho de teatro na cidade e vários de seus integrantes ganharam os palcos de São Paulo e Rio de Janeiro.

A GRÉCIA CLÁSSICA E ARISTÓTELES

Paulo Mendonça era professor de História do Teatro no primeiro ano do curso de interpretação da Escola de Arte Dramática. A matéria era eliminatória ao final do primeiro semestre de aulas, um jeito sutil de eliminar os alunos que lá estivessem apenas por diletantismo ou para satisfazer algum tipo de vaidade e narcisismo que pudesse estar escondido nos trinta alunos que conseguissem ultrapassar os testes iniciais de acesso ao curso. Embora a vaidade seja quase que inerente ao trabalho do ator, nem sempre ela correspondia ao talento necessário.

Foi no meu primeiro semestre como aluno da EAD que li alguns dos principais clássicos da tragédia grega: Ésquilo, Sófocles e Eurípedes. E também o autor de comédias Aristófanes. E, sobretudo, tomei contato com a definição aristotélica de tragédia: “Tragédia é a imitação de uma ação séria e completa, que possui certa extensão, empregando-se não a narração, mas a interpretação, onde os atores, fazendo-nos experimentar a compaixão e o medo, visam à provocar a catarse de tais sentimentos”. 

Ainda segundo Aristóteles, a obsessão de alguém em atingir um determinado objetivo, seja ele de qualquer natureza, pode causar a falha trágica. Nada mais esperado no Brasil atual, não?

Édipo, Medeia, Antígone, Electra, As Bacantes, para citar algumas das mais conhecidas tragédias eram analisadas nas aulas semanais e curiosamente iam definindo o real interesse dos alunos pelo curso, muitos deles eliminados na prova de meio de ano. 

Ao contrário do Deus cristão, os deuses gregos foram criados à imagem e semelhança do homem. A mitologia grega criava para mim um mundo de encanto e de surpresas para quem não estava acostumado a comparar as diferenças do comportamento humano nas mais variadas situações. 

E mais: poder perceber que aqueles pioneiros da poesia trágica criaram há mais de 2500 anos teorias de representação das ações e dos sentimentos que, mesmo com o avanço e do progresso da humanidade, alguns não foram desmentidos pelas descobertas e pelos estudos da psique e da mente humana. Os complexos de Édipo e de Electra, por exemplo, não me deixam mentir.

Ao lado de Paulo Mendonça, a professora Leila Khoury, era responsável por um curso intensivo sobre mitologia e nela tínhamos que ler e dissecar um dos livros que jamais esqueci: A Ilíada, de Homero. Durante um ano íamos marcando o livro e distinguindo o que era a fala dos deuses e dos homens na narrativa poética sobre a Guerra de Troia. Leitura inesquecível.

Contudo, o professor Paulo Mendonça ainda seria responsável por me influenciar a ler um dos livros que mais me marcaram naqueles anos 60, não só pela maneira pela qual me interessei pela sua leitura, mas também pelo lado premonitório e involuntariamente cruel ao me dizer numa das suas aulas que eu o lembrava do personagem Tchen da obra clássica do escritor Andre Malraux, “A Condição Humana”. Por quê? Perguntei ao professor. Leia o romance, respondeu. Foi o que fiz dias depois.

O GGN prepara uma série de vídeos que explica a influência dos EUA na Lava Jato. Quer apoiar o projeto? Clique aqui.

1 comentário

  1. A Condição Humana, que nos lembra quem somos e nosso destino ou condição. As ideias de Tchen giram em torno sempre de um so pensamento… E naqueles fatidicos anos 60, devia ser mesmo um personagem inspirador.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome