Marcas da tragédia, por Willian Novaes

Marcas da tragédia

por Willian Novaes

Agonia ir até as imediações da tragédia de 01º maio sabia que seria uma paulada, mas não imaginava o tamanho da brutalidade de presenciar o descaso público de forma tão cínica e cruel. Do nada, 400 PESSOAS perderam o teto e algumas, a vida. Do nada, passaram a serem chamadas de preguiçosas, invasoras e os movimentos sociais de máfia. Não entendia bem, a declaração do candidato a governador.

Sei do tempo sombrio da atualidade, mas esperava mais compaixão, afinal são 400 PESSOAS, entre mulheres, homens, jovens, adolescentes E muitas CRIANÇAS, inclusive bebês. 

Que nada!!!! Todos os poderes se curvaram em desculpas para não serem associados ao prédio que ruiu no centro da cidade mais rica do país. Todos ou parte dos sobreviventes foram jogados na porta da Igreja dos Homens Pretos, uma ironia do destino. A maioria deles negros e pardos. Todos estão largados, separados de uma outra legião de pobres por uma barreira metálica. Disputam numa cena dantesca a melhor peça de roupa usada num balaio gigante improvisado em pleno Largo do Paissandu. O miserável do mais miserável.

A cena é forte. Comem em pé, deitados em colchões encardidos e segundo eles sem banheiros. “Para um show cedem 30 banheiros facinho, mas pra gente nada”, diz um jovem. Essa cena machuca, mostra a ineficácia do sistema, da sociedade em geral. No meio da tragédia, mais uma cena impactante, a da igreja vizinha a tragédia, restou apenas a torre principal, com a cruz e o altar. 

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Numa outra atitude hipócrita, o estado que homenageia assassinos e genocidas com os nomes das suas estradas, ruas e viadutos, sem ser incomodado. Já as redes sociais, com a sua verdade absoluta, massacrou um morador morto. Ricardo, o Tatuage, não sei se era bandido ou não, sei que morreu aos olhos dos Bombeiros e até ontem era o único corpo encontrado. Recebi durante a semana inúmeras fotos de Ricardo ou alguém parecido com ele ostentando, típico dos manos do crime. Se Tatuage era mesmo bandido, pouco importa, morreu como herói ao salvar outras pessoas, segundo relatado pelos sobreviventes.

Willian Novaes é jornalista e escritor.

 

 

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