Mário Filho e a guerra “pretos-mulatos versus brancos” no futebol brasileiro, por Sebastião Nunes

Jornalista escreveu aquela que deve ser uma das mais importantes análises sobre o racismo no Brasil: “O negro no futebol brasileiro”

Mário Filho e a guerra “pretos-mulatos versus brancos” no futebol brasileiro

Por Sebastião Nunes

Talvez a análise mais importante sobre o racismo no Brasil tenha sido feita no livro “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, cuja primeira edição é de 1947.

Ironicamente, o livro saiu apenas três anos antes da Copa do Mundo de 1950, quando o Brasil perdeu a final para o Uruguai, em pleno Maracanã, provocando uma ferida tão dolorosa que nem as sucessivas conquistas posteriores curaram: só foi aliviada pelo tempo, quando as gerações “humilhadas” naquele dia fatídico desapareceram, dando lugar às novas, gente vacinada pelo tempo, que só lembrava-se da “tragédia” como história.

Há quatro tipos de ironia aqui:

Primeiro, o Brasil era o grande favorito. Depois de vitórias épicas nas etapas iniciais, o título parecia “favas contadas”, apenas a liquidação de uma fatura vencida há tempos e em vias de ser resgatada.

Segundo, os craques brasileiros já figuravam entre os mais valorizados, faltando-lhes apenas o reconhecimento formal pela conquista de título de campeão mundial.

Terceiro, a derrota fez renascer o racismo, aparentemente morto e enterrado no futebol, e naquele momento redivivo, com a culpa recaindo nos jogadores negros da seleção, especificamente Barbosa, Juvenal e Bigode, como revela o próprio Mário Filho no prefácio à segunda edição, de 1964.

Quarto: era (e ainda é) nas atividades artísticas, o futebol entre elas, que mulatos e negros mais claramente podiam (podem) se expressar, não dependendo de riqueza, poder ou educação formal – privilégios das elites.

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CAMPO NEUTRO

Trazido ao Brasil por ingleses, o futebol durante as primeiras décadas de sua existência foi exclusividade de brancos. E de ingleses.

Importa lembrar que Mário Filho retrata basicamente o futebol do Rio de Janeiro, passando rapidamente por São Paulo, quando havia amistosos entre times ou selecionados dos dois estados.

O primeiro a surgir foi o “The Bangu Athletic Club”, tendo como fundadores sete ingleses, um italiano e um brasileiro, branco, naturalmente.

Antes do Bangu, havia dois clubes, o “Paissandu Cricket Club” e o “Rio Cricket and Athletic Association”. Os nomes dizendo tudo. Ou quase.

Quando nosso primeiro “scratch” foi jogar em Buenos Aires, um dos jogadores, Sidney Pullen, era filho de inglês, mas nascido no Brasil. Segundo Mário, “os argentinos não acreditaram que um brasileiro tivesse aquele nome bem inglês, aquela cara mais inglesa ainda. Foi preciso exibir certidão de idade, todos os documentos. Pouco depois, quando as desconfianças argentinas ainda não tinham se apagado, Sidney Pullen partiu para a Inglaterra como soldado inglês”.

O primeiro jogador brasileiro de origem e nome foi o beque Cândido Viana, cronista esportivo, que escrevia no “Jornal do Commercio”. No papel de cronista, tinha entrada franca no Paissandu. “O Paissandu precisava de um beque. Coincidência feliz: ele, Viana, era beque, estava às ordens do Paissandu”, conclui Mário Filho.

BANGU X FLUMINENSE

Relata Mário que “o Bangu não podia contar com ingleses que chegavam da Inglaterra, todos eles com lugar garantido no Paissandu ou no Rio Cricket. A colônia inglesa de Bangu, lá longe, isolada por assim dizer, era pequena. Quantos mestres tinha a Companhia Progresso Industrial do Brasil? Por isso o Bangu nunca foi um clube fechado no sentido do Paissandu ou do Rio Cricket, pelo menos em futebol”.

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Quando os brasileiros natos começaram a jogar? Mário escreveu:

“Em 1904, ano em que o The Bangu Athletic Club nascia, era mais comum ver-se garotos atrás de um balão, embora somente em junho, do que atrás de uma bola o ano todo. E os ingleses, para formar dois times, tinham de arranjar gente para tapar buracos. Tanto que, quando o The Bangu estreou em futebol, disputando um match de verdade, com o Rio Cricket, em Icaraí, dois brasileiros já figuravam no ‘eleven’, nome usado pelos cronistas mais eruditos. Mas esses brasileiros eram brancos.”

Conta Mário Filho que o primeiro mulato surgiu no time do Bangu, mais de um ano depois da fundação. Eram cinco ingleses, três italianos, dois portugueses e, com cinquenta por cento de sangue preto, Francisco Carregal: pai branco, português; mãe preta, brasileira.

Existe uma foto desse time do Bangu, que não vi. Diz Mário que se olha para a fotografia e só se vê bigodes. Bigodes caídos, enrolados, torcidos. Somente três jogadores não usavam bigode.

O primeiro crioulo de verdade, filho de preto com preta, só entra em campo quando o “goalkeeper” Manuel Maia surge em cena.

No Fluminense, que acabava de construir seu campo, era diferente. Lá não havia perigo de que entrassem Francisco Carregal, ainda que mulato limpo, nem Manuel Maia, apesar de bom preto.

Nesses anos de supremacia branca, a guerra racial estava longe de começar.

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