Memórias fantástico-jornalísticas do mar subterrâneo brasileiro, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Uma crônica envolvendo política, realismo fantástico e ironia em torno da política brasileira

Memórias fantástico-jornalísticas do mar subterrâneo brasileiro

por Fábio de Oliveira Ribeiro

“Um feito histórico”

Foi assim que a imprensa noticiou a descoberta do mar subterrâneo que existe entre São Paulo e Rio de Janeiro. Duas fotos ilustram a matéria, a maior era a do presidente Jair Bolsonaro entregando uma medalha ao Ministro da Ciência Evangélico-Política da Terra Plana. Também ganhou destaque a assinatura do Decreto modificando o nome daquele órgão para Ministério da Ciência Evangélico-Política da Terra Plana e Oca.

“Revelado o mistério”

Esse foi o título de uma longa matéria provando que o mar subterrâneo descoberto pelo Ministério da Ciência Evangélico-Política da Terra Plana e Oca era resultante do acúmulo da água do riacho que desaparece na Caverna do Diabo em Eldorado. No destaque uma foto do presidente Jair Bolsonaro visitando o maior ponto turístico da cidade em que ele cresceu.

Imediatamente o Pastor Malafaia começou a sugerir que o mar subterrâneo deveria ser interditado aos fiéis até que o nome ímpio do local fosse modificado. Bolsonaro hesitou, pois a caverna eldoradense era mundialmente conhecida como sendo do Diabo e rebatiza-la em nome de Jesus poderia acarretar uma redução do turismo. A hesitação do presidente era justificável, pois a reação negativa dos evangélicos era difusa e não seria resolvida com um simples Decreto.

“A caverna é de Jesus, o Diabo nela é do PT”

A imprensa deu um grande destaque ao fato do PT defender a manutenção do nome do Diabo na caverna que ligava o mundo da superfície ao mar subterrâneo. Bots comandados pelos filhos do presidente levantaram a hashtag #PTdefendeDiabo no Twitter. Entrevistada, Gleisi Hoffmann tentou desfazer a confusão. No dia seguinte o âncora da Rede Globo anunciou com a voz embargada.

“Presidenta do PT é defensora do Diabo”

Foi então que Lula fez um movimento extremamente ousado. Ele resolveu visitar o local utilizando um dos sumidouros existem entre São Paulo e Rio de Janeiro que foram descobertos por geólogos da USP ligados ao PT. As estruturas para dar acesso ao mar subterrâneo seriam construídas em segredo por sindicalistas da CUT com materiais fornecidos pelo MST. O diabo é que a informação vazou.

“MST invade o mar subterrâneo descoberto por Bolsonaro”

Com base nessa reportagem, a Polícia Federal iniciou uma investigação preliminar a mando do Ministério da Justiça Bíblico Terrivelmente Autoritário. Guilherme Boulos foi intimado para depor e teve que explicar a diferença entre o MTST e o MST. A prisão preventiva de João Pedro Stédile foi pedida pelo MPF à Justiça Federal de São Paulo.

Imediatamente Marcelo da Costa Bretas publicou na imprensa a decisão em que ele se dizia competente para processar e julgar aquele caso. ‘O mar subterrâneo é uma projeção do território do Rio de Janeiro sob a crosta terrestre paulista.’ Ao receber o processo, o juiz federal paulista rejeitou a tese do colega carioca. ‘A Caverna do Diabo abastece com água o mar subterrâneo de São Paulo que se projeta no subsolo carioca.’ Inevitável, o conflito positivo de competência teve que ser levado ao conhecimento do Tribunal competente.

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“Boulos usa o Diabo da caverna para provocar a guerra no judiciário”

A disputa judiciária foi temporariamente esquecida. Naquele momento era mais interessante explorar eleitoralmente a escandalosa devoção de Boulos ao Diabo na caverna invadida pelo MST. Alguns jornais, entretanto, preferiam realçar a imagem de Marcelo Bretas. Ele seria o único juiz em condições de julgar a invasão do mar subterrâneo descoberto pelo Ministério da Ciência Evangélico-Política da Terra Plana e Oca.

Enquanto isso, os sindicalistas descobriram um fenômeno interessante. A boca de um dos sumidouros aumentava e diminuía de tamanho. Entrar e sair do mar subterrâneo por aquela abertura poderia ser algo muito perigoso. O local foi interditado pouco antes da estrutura de acesso ser concluída ligando o mundo oco àquele sumidouro.

No dia marcado, Lula desceu ao mar subterrâneo e se esbaldou. O local havia sido adequadamente iluminado. A equipe de filmagem acompanhava todos os movimentos do presidente num barco inflável. O cabo fixado em dois pontos do teto permitia panorâmicas invertidas da câmera móvel 3D especialmente trazida da Europa para registrar o grande feito do líder da esquerda brasileira.

Lula percorreu a nado a distância entre dois sumidouros em grande velocidade com vigor de uma criança. As imagens do feito foram produzidas, editadas e divulgadas PT, fato que causou grande irritação nos comerciantes de notícias. A liberdade deles de contar essa história de uma maneira depreciativa havia sido usurpada. Uma dualidade de narrativas começou a dominar a cobertura dos conflitos políticos envolvendo o mar subterrâneo. A questão chegou a ser debatida intensamente numa reunião Ministerial.

Por um lado, a imprensa continuava se esforçando para realçar a grande descoberta de Jair Bolsonaro e para ligar o PT e Boulos ao Diabo no nome da Caverna que originalmente dava acesso ao mar subterrâneo invadido pelo MST. Por outro, era inegável que Lula havia conquistado os ‘corações e mentes’ dos habitantes do planeta ao ser o primeiro homem filmado nadando em segurança num local temido pelos evangélicos e considerado inseguro pelos militares. As coisas estavam assim quando ocorreu o desastre.

“Lula decapitou um pobre palhaço”

Essa foi a primeira das matérias feitas com base nas imagens da visita de Lula ao mar subterrâneo que haviam sido inexplicavelmente vazadas ou furtadas dos computadores da sede do PT. A cena era dantesca.

Com grande esforço Lula retirava da água o cadáver de um homem vestido de palhaço e o carregava o pela escada. Ao chegar próximo do sumidouro, o ex-presidente jogava a vítima para a superfície. A abertura se fechava e, separada do corpo, a cabeça do palhaço voltava a cair no mar subterrâneo.

A comoção pública gerada pela divulgação do crime foi muito grande. Imediatamente o MPF do Rio de Janeiro denunciou Lula por homicídio e Marcelo Bretas decretou a prisão preventiva do ex-presidente. Porém, antes do mandado de prisão ser expedido, o juiz federal paulista desafeto do colega carioca entrou na lide se dizendo competente para apreciar e julgar o caso.

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Imediatamente os advogados de Lula ajuizaram um HC e conseguiram evitar a prisão do ex-presidente até que o Judiciário decidisse qual fôro seria competente para processar e julgar aquela ação criminal. A vitória inicial de Lula foi manchada por um novo escândalo.

“Lula espeta a cabeça do palhaço numa estaca”

A segunda reportagem da série feita com as imagem vazadas ou furtadas dos computadores do PT, mostrava Lula mergulhando no mar subterrâneo e voltando dele com a cabeça decapitada do palhaço numa estaca improvisada. Ele sobe novamente a escada. A bocarra enfeitiçada do sumidouro no teto do mundo oco continua abrindo e fechando, abrindo e fechando. Lula conta o tempo e joga tudo para a superfície. Após rodopiar no ar, a estaca cai numa fenda da superfície e a cabeça do pobre palhaço é filmada como se tivesse sido espetada no local.

Dessa vez a comoção foi ainda maior. Em razão disso o PT resolveu liberar todas as imagens sem cortes na internet. Analisando-as, a imprensa internacional descobriu a verdade que havia sido deformada de maneira inescrupulosa pelos jornalistas que editaram as imagens no Brasil.

No dia em que Lula desceu ao mar subterrâneo ele estava acompanhado apenas da equipe de filmagem. Assim que ele se joga na água um maluco vestido de palhaço aparece no vídeo acompanhando-o à pequena distância. O diretor da filmagem pede ao homem para se afastar, mas ele continua apenas nadando.

Presumindo que o intruso havia entrado no mar subterrâneo pela Caverna do Diabo dias antes e nadado até o local preparado para receber a visita do ex-presidente petista, a equipe de filmagem rapidamente decide o que fazer. Alguém pergunta a Lula se ele quer prosseguir. O ex-presidente diz que sim.

O ex-presidente cumprimenta amistosamente o inesperado colega de jornada e segue em frente. A certa altura o palhaço para de nadar e afunda. Alguém no bote grita que ele vai se afogar. Lula estava à grande distância dele, mesmo assim volta e tentou salvá-lo. Infelizmente o pobre palhaço não consegue sobreviver. Visivelmente abalado o presidente faz um grande esforço para levar o falecido até a superfície. A equipe de filmagem caprichou nas imagens. É evidente que Lula não sabia que havia subido a escada que dava acesso àquela maldita abertura que abria e fechava. O resto da história já é conhecido.

“MPF adita a denúncia e acusa Lula de ter vilipendiado o cadáver do palhaço”

Essa vitória de Pirro conquistada pelo PT foi intensamente lamentada na internet.’As autoridades brasileiras sempre aplicam a Lei doa a quem doer e haja o que hajar’, disse o procurador federal responsável pelo caso. Inconformados, os militantes petistas o acusaram de ter alterado a denúncia inspirado pelo medo de ser processado por abuso de poder.

Resolvida a questão do conflito de competência o caso ficou ainda mais estranho. Isso ocorreu quanto o Instituto Médico Legal atestou que o palhaço não era um ser humano e sim um autômato.

O corpo do palhaço era definitivamente humano, mas era impossível dizer quando a morte havia ocorrido. Os tecidos do falecido tinham sido preservados mediante um tratamento químico desconhecido no Brasil. O que fazia o cadáver se movimentar eram as polias e motores implantados cirurgicamente e governados por uma sofisticada CPU miniaturizada existente na sua cavidade peitoral.

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Os órgãos internos haviam sido removidos para dar espaço aos equipamentos eletro-eletrônicos isolados hermeticamente. As baterias foram instaladas onde ficavam os pulmões. Ao que parece o autômato havia parado de funcionar por causa de uma pane geral provocada por infiltração de água. Essa foi a hipótese levantada pelo engenheiro convidado a examinar o palhaço.

Imediatamente os teóricos da conspiração começaram a levantar hipóteses curiosas e absurdas. O fato de ser impossível identificar o cadáver indicava que ele era estrangeiro, possivelmente russo ou norte-americano.

A tecnologia empregada na fabricação da CPU podia ser chinesa, mas apenas os cirurgiões alemães estariam em condições de implantar os motores e polias que davam movimento ao autômato. A linguagem utilizada no software era criptografada e nenhum especialista em computação brasileiro foi capaz de decifrá-la. Eram os autômatos astronautas artificiais controlados por alienígenas?

Peritos independentes investigaram minuciosamente a abertura para o mar subterrâneo que abria e fechava e descobriram que à certa profundidade havia um poderoso sistema eletromecânico acionado remotamente. O equipamento poderia perfeitamente ter sido fabricado no Brasil. O general Heleno negou ter mandado instalar aquela guilhotina para decapitar ou, no mínimo, ferir o ex-presidente petista.

A crise aumentou quando o The Intercept obteve e divulgou arquivos secretos que comprometeram o governo. Existiam provas de que o general Heleno havia recebido relatórios dos agentes secretos infiltrados no PT, MST e MTST afirmando que Lula pretendia tomar posse do mar subterrâneo descoberto pelo Ministério da Ciência Evangélico-Política da Terra Plana e Oca.

O escândalo do atentado contra Lula ganhou grande espaço na imprensa européia quando o Papa Francisco exigiu explicações ao Embaixador do Brasil no Vaticano. Parlamentares começaram a colher assinaturas para instalar uma CPF. Foi então que, preocupado com a preservação da governabilidade, o Exército colocou em ação a Operação Sobradinho.

Uma imensa área desabitada acima do mar subterrâneo foi cuidadosamente minada por engenheiros militares. A explosão controlada foi cataclísmica e provocou o colapso de seções inteiras do teto da terra oca. A cratera resultante foi lentamente preenchida pela água.

O local recebeu o nome Lago Brilhante Ustra e o caso foi encerrado. Ninguém mais precisava saber quem era o palhaço ou como, quando e onde o autômato havia sido construído. Os vestígios do mecanismo instalado para decapitar Lula desapareceram sob os escombros no fundo do novo mar interior brasileiro.

A requerimento do Departamento de Estado, o automato foi encaixotado e enviado aos EUA para ser estudado por cientistas norte-americanos. Infelizmente, o artefato desapareceu misteriosamente do laboratório em que estava.

 

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