Milícias do sentido, por Gustavo Conde

Na falta de um debate público, o que sobra é a gritaria e a gritaria é a raiz semântica de 'polarização'.

Milícias do sentido

por Gustavo Conde

‘Polarização’ virou o palavrão da vez. Tudo é culpa da ‘polarização’: as instituições carcomidas, a delinquência presidencial, o medo na sociedade, a violência policial, os retrocessos na saúde pública…

Quando o PT era governo, não havia a menor dúvida: a culpa era do PT – frase que virou até expressão popular para designar a hipocrisia de se projetar a culpa no ‘outro’.

Na época de Lula e Dilma, nenhum jornalista se atrevia a mencionar a palavra ‘polarização’. Aliás, seu uso foi crescendo à medida em que o PT foi permanecendo no governo, já que não havia um discurso sequer consistente para convencer o eleitor de que o ciclo do PT havia terminado.

Na falta de um debate público, o que sobra é a gritaria e a gritaria é a raiz semântica de ‘polarização’.

O grau de cretinice do nosso jornalismo de grife ainda postula mais uma máxima em seu dicionário dos horrores: a culpa da ‘polarização’ é do PT. De Lula e do PT.

Eles dizem, por exemplo, que a liberdade de Lula vai produzir uma nova onda de ‘polarização’, uma ‘polarização’ mais polarizada do que a que se polariza neste polarizado momento.

Depender dos protocolos grosseiros de produção de sentido da nossa elite jornalística é quase uma odisseia nas narrativas dos livros infantis para crianças psicopatas: eles massacram a língua portuguesa com o estilo vulgar dos aristocratas, respeitando a norma culta e torturando os significados como verdadeiras milícias do sentido.

Nesse ponto, a constatação pode chocar: do ponto de vista meramente técnico e estrutural, o nosso jornalismo opera de maneira idêntica ao bolsonarismo.

Elegem palavras-chave a serem replicadas furiosamente, sem possibilidade de contestação, propagam o discurso único e fogem do contraditório como o diabo foge da cruz.

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Por isso, é difícil para a Globo partir para cima de Bolsonaro com o ímpeto das emissoras de TV que derrubam presidentes em países subdesenvolvidos. Não se pratica uma ‘violência’ destas com o próprio filho, que mamou no seu próprio peito.

Globo e Bolsonaro são um capítulo à parte. É uma briga familiar que pode acabar até em morte, mas que pode ser controlada pelos guardiões do sistema (notadamente, sob o desvio temático que atende pelo nome de ‘agenda econômica’, pilotada por Paulo Guedes).

Há razões de sobra para sermos pessimistas quanto ao prosseguimento do golpe e do fascismo no Brasil. O povo continua sendo criminalizado e o mercado financeiro está feliz com um governo patético, que diverte e concentra as atenções da imprensa, sem com isso gerar coisa alguma em termos de acúmulo de energia social.

Enquanto isso, o jornalismo mais profundo fala em ‘polarização’.

Em tempos de supremacia do significante, é o uso desta palavra que marca uma época, não sua correlação com a realidade ou com a história – ambas instâncias, por ora, desidentificadas, sob o signo da fraude.

O uso da palavra ‘polarização’ é o que nos define neste momento. O ódio pela democracia sente repulsa por toda e qualquer possibilidade de contraditório.

Ter-se dois polos de discurso que se digladiam é o pressuposto básico das democracias tal qual a entendemos um dia.

‘Polarização’ e ‘contraditório’ são sinônimos na semântica do desmascaramento, antídoto contra opressões simbólicas da casa grande.

Sem ‘polarização’ não se tem democracia.

O custo é alto e trabalhoso e essa é exatamente a questão: a elite financeira quer a comidinha na boca e as roupas dobradas na gaveta.

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O jornalismo brasileiro, essa jabuticada podre, vai continuar a usar a semântica miliciana para manter vivo um sistema de exclusão que o beneficia.

A instância que deveria ser uma explosão de sentidos, dicções e formulações – o jornalismo que não morreu porque nunca nasceu – é irmã siamesa da estrutura bolsonariana de enunciação: tosca, simplista, deselegante e precária.

O jornal Folha de S. Paulo permite até um comentário à parte. As assinaturas do veículo canceladas por Bolsonaro deram ao jornal a oportunidade de iniciar uma campanha publicitária perturbadora de tão oportunista e hipócrita – mas assaz elucidativa.

Eles estamparam uma tarja preta em sua primeira página digital em que se diz: ‘apoie a democracia, assine a Folha’.

Pela lógica dos pressupostos, pedir o apoio a algo implica em que esse ‘algo’ esteja em um momento de fragilidade (não é preciso ser um linguista para entender isso).

Mas a tarja preta e o efeito melodramático de carimbar a primeira página com o reclame desvela algo muito mais grave: não estamos mais em uma democracia e até a Folha de S. Paulo sabe disso – o que salta o momento para o status de ‘gravíssimo’.

A democracia que a mesma Folha contribuiu para destruir com seu apoio ao golpe agora é estrela de uma campanha publicitária para angariar assinaturas.

Seria podre se não fosse tétrico.

O cenário conjuntural do país não é cenário nem conjuntural. É um caos, em que ninguém mais tem a absoluta noção do que fazer.

A ‘passagem ao ato’ dos brasileiros, Lula, tampouco é um preso político: ele é um preso estrutural, cuja liberdade estilhaçaria as sabotagens diárias contra a história e contra o povo brasileiro, povo este que, por sua vez, vai aceitando sua condição de desconhecimento para projetar a redenção do país a terceiros, sem dúvida um gozo messiânico tão ao gosto da nosso sistema ainda escravocrata. E para aqueles que acham, em seu autoflagelo consentido e cultivado, que os donos do poder sabem o que fazem, lamento informar: eles operam junto ao caos.

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Seria muita pretensão achar que só o povo tem pulsão de morte.

O furo nesse sistema que nos sequestrou ainda não despontou no horizonte. A guerra Globo-Bolsonaro é um bug do próprio sistema, que pode ser restaurado mesmo com a destruição de ambos.

O mundo do discurso, das palavras, em seus pilares mais estruturais, segue inoperacional, à espera dos grandes sujeitos protagonistas da história e de seus respectivos ímpetos eloquentes, espécimes em falta neste momento.

O sentido (das palavras) depende do sujeito, mas não de sujeitos tão assujeitados como estes que estão em suposta liberdade neste momento.

Misto de lealdade e paralisia, contrai meu estômago retórico ter de admitir capciosamente que teremos de esperar pelo retorno do ‘sujeito’, real, conceitual ou interno.

Em outras palavras: nossa crise-catástrofe nem é mais política. É ‘existencial’, com todos os sentidos que esta palavra pode sugerir.

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