Militarização das escolas é terraplanismo da educação, por Dora Incontri

A educação tem sofrido ataques, desmontes, distorções desde a pré-escola até o ensino universitário, incluindo a pesquisa de ponta, em que já tínhamos atingido alguma excelência.

Militarização das escolas é terraplanismo da educação, por Dora Incontri

Estava resistente à necessidade de escrever sobre educação nessa coluna, embora seja minha área de atuação militante há mais de 30 anos. Simplesmente porque o que estamos vivendo nesse momento no Brasil no campo da educação, assim como em todos os outros setores, é um verdadeiro pesadelo. Deprime só de tocar no assunto.

A educação tem sofrido ataques, desmontes, distorções desde a pré-escola até o ensino universitário, incluindo a pesquisa de ponta, em que já tínhamos atingido alguma excelência. Não é preciso mostrar o que vem sendo feito de maléfico para exterminar com a liberdade de ensino, acabar com a educação pública e direcionar ideologicamente (em nome de impedir uma suposta doutrinação de esquerda) o que sobrar das instituições de ensino fundamental, médio e superior.

De dedodurismo contra professores a censura de livros – tudo vale nessa guerra contra a liberdade de aprender, de ensinar e de ser.

Estou inserida numa tradição de educadores que trabalharam para mudar a educação tradicional – que nunca chegou a ser efetivamente transformada em profundidade, salvo em algumas ilhas de experimentação alternativa, no Brasil e no mundo – para uma educação de verdadeira autonomia do educando. Desde Comenius – tão pouco conhecido no Brasil, um dos clássicos que tenho pesquisado e divulgado – passando por Rousseau, Pestalozzi, Maria Montessori, Janusz Korczak, Alexander Neill, Paulo Freire… – a militância de todos esses educadores teve elementos de valorização da infância e sua criatividade, de pensamento crítico e livre, de afeto entre educador e educando…

Resgatei também os educadores espíritas que trabalharam nessa mesma linha, começando pelo próprio Kardec, que foi discípulo de Pestalozzi e educador na França por mais de 30 anos. No Brasil, tivemos um Eurípedes Barsanulfo e uma Anália Franco, que em pleno início do século XX, em que ainda se usava a palmatória, faziam uma educação amorosa, acolhedora, de diálogo e inclusão.

A militância que vinha fazendo por 30 anos, muitas vezes foi em nome de uma Pedagogia Espírita ou pelo menos de uma educação livre e humanista. A Pedagogia Espírita nunca se pretendeu confessional, mas ao invés inter-religiosa e inspirada por esses educadores, espíritas ou não, que tiveram em comum essa quebra de paradigma do ensino passivo, disciplinador, opressor da consciência crítica, formatado autoritariamente. No meio da luta por mudar a educação, achava que ainda estávamos muito longe da escola ser um lugar alegre, agradável, livre, criativo, acolhedor das diferenças e estimulador da aquisição interdisciplinar de um conhecimento construído na interação, na pesquisa, no debate…

E agora o que vejo se formar no horizonte desse século XXI? Um retrocesso sem limites. Abro hoje as notícias e leio estarrecida a proposta do (des)governo de militarização das escolas. O que precisaríamos fazer é bem o contrário: levar educação para os quartéis e para a polícia: uma educação que os despertasse para uma masculinidade não-violenta, não opressora, não patriarcal, não homofóbica. Uma educação que os levasse a lidar com a disciplina restaurativa e não com a disciplina hierarquizada, opressora, castradora…

O manual das escolas militarizadas indica que os militares – que vão receber salários que poderiam ao invés ser passados para os professores, tão explorados há tantos anos – serão responsáveis pela gestão, pela disciplina, pela transmissão de valores cívicos. E se não houver militares disponíveis, serão policiais e bombeiros.Ou seja, bem essas pessoas que nada entendem de psicologia, de pedagogia, de direitos humanos, e que foram doutrinadas a obedecer e se submeter e resolver o que deve ser resolvido na bala e no cassetete, essas pessoas serão responsáveis pela direção das escolas. Ou seja, teremos os especialistas em educação submetidos aos especialistas em disciplina de caserna, que em todos os tempos sempre foi autoritária, opressora e muitas vezes sádica. Há pérolas como o controle do corte de cabelo e penteados, para meninos e meninas, a vigilância das postagens na internet… Não há outro nome para isso a não ser fascismo. É a mesma coisa que dar a tarefa de colocar satélites em órbita para um terraplanista!

Mas vejam, Maria Montessori fugiu de Mussolini. Mussolini morreu, passou, mas ainda hoje há escolas montessorianas no mundo. Janusz Korczak, que fazia assembleias com as crianças, morreu com seus 200 alunos num campo de concentração nazista. Mas hoje, suas ideias (junto com as de Montessori) inspiram o reconhecimento de direitos internacionais da infância. Os nazistas passaram à história como assassinos sanguinários.

Então, sim, para uma educadora como eu, que já atuei com crianças e adolescentes, que atuo com formação de educadores, e sempre me pautei no afeto,  no diálogo, na liberdade e no despertar de consciências autônomas e críticas, de repente acordar num país, (des)governado por amigos de milicianos, que estão dando o tiro de misericórdia na educação brasileira, pode ser desanimador, desesperador mesmo. Mas toda essa gente passará. E nós continuaremos construindo e reconstruindo sempre que necessário e com maior profundidade e coerência, os caminhos do afeto, da paz, da liberdade e do progresso.

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1 comentário

  1. Militarização das escolas é coisa sem importância.
    É apenas a criação de uma “Juventude Hitlerista” Tropical.
    Quando o Brasil se der conta, será tarde!

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