Mudar as coisas de dentro antes de fazer a revolução lá fora

Sugerido por Gunter Zibell – SP

Da Revista Bula

Faça a revolução lá fora. Mas só depois de mudar as coisas aí dentro

Por André J. Gomes

Amanhã você vai sair — ou voltar — às ruas e fazer a revolução.

Sem medo, sem máscara, vai dizer “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” a todos os conhecidos e desconhecidos que passarem por você. No elevador, no estacionamento, no ônibus, na fila da padaria. E se ninguém responder, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

No trânsito, vai dar passagem a todos os outros carros assim que vir uma seta piscar, indiferente às buzinas nervosas de quem vier atrás. E quando alguém fizer a mesma gentileza por você, não vai esquecer de acenar em puro e simples agradecimento.

Ao ligar o ônibus coletivo com o qual circula pela cidade todos os dias, vai se lembrar de que está conduzindo pessoas e não caixas de verdura. E de que os milhares de veículos lá fora não são seus adversários em uma corrida para lugar nenhum.

Vai começar todo e qualquer pedido com “por favor” e concluí-lo com “obrigado”.

Quando reunir seu batalhão no quartel, em vez de gritar “ordinário, marche”, vai orientá-lo a ler a Constituição Brasileira e qualquer um dos livros de Carlos Drummond de Andrade. Para que seus soldados percebam, do alto de seus coturnos, o quanto as coisas às vezes não fazem mesmo sentido. E descubram o quanto a autoridade que lhes foi atribuída pode ser usada não para reprimir e subjugar, mas para fazer da vida uma extraordinária marcha para frente.

Porque é para frente que se marcha.

No hospital público em que você, doutor ou doutora, dá plantão de madrugada, vai atender cada paciente com a calma, a seriedade, a competência e o respeito devidos a qualquer ser humano. E vai sentir vergonha de todas as vezes em que se dirigiu a essas pessoas como se você fosse um ser superior vestindo branco e elas não passassem de malditas desvalidas atrás de uma injeção “de graça”.

Nas cerimônias religiosas, vai retribuir a confiança de quem o chama de padre, pastor ou pai de santo não apenas com uma benção, um sermão ou um passe, mas pedindo às pessoas que façam uma oração para aqueles que protestam e para aqueles contra quem se protesta. E que nessa oração, o único pedido seja a compreensão e a clareza, para que todos saibam realmente o que estão fazendo, contra quem, contra o quê e como estão se manifestando.

Nos veículos de comunicação que você dirige, vai determinar a seus repórteres, redatores, editores e afins que se concentrem no factual, que ouçam, analisem e publiquem todas as visões possíveis de cada fato. E que deixem os leitores, ouvintes e telespectadores concluírem como bem entenderem.

Nas escolas e nas faculdades, vai ensinar seus alunos a ver e pensar política de outro modo, para além dos discursos e dos partidos, com profundidade, amplitude e perspectiva. Com inteligência, liberdade e espírito crítico.

Nas redes sociais, antes de curtir e compartilhar qualquer post sobre qualquer assunto, você vai pensar. E vai pensar de novo, até se certificar de que realmente acredita naquilo.

E quando alguém próximo a você esbravejar palavras de ódio e apoio à violência — seja da parte de quem se manifesta depredando, seja do lado de quem defende agredindo — você não vai discutir. Vai respirar fundo, pensar consigo “let it be” e seguir em frente. Porque há vários lados nessa história, mas nenhum deles é “o adversário”. E você está em todos eles.

Você é o mínimo de inteligência que resiste em cada homem e cada mulher que ainda respiram neste mundo, brutalizados e amortecidos pela doença da normalidade que torna tudo banal — as mortes, os estupros, a violência doméstica, a roubalheira nos cargos públicos, o corrupto e o corruptor, o ódio e a maldade.

Amanhã você vai sair às ruas e fazer a revolução. E se ninguém mais aderir, não importa. Você vai manifestar um sorriso largo como uma avenida e seguir em frente.

Porque é para frente que se anda.

E a revolução “lá fora” só começa depois de uma outra, aquela que acontece “aqui dentro”.

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5 comentários

  1. beleza de sugestão, Gunter…

    como o sistema em si, focado principalmente nas contradições sociais, não apresenta qualquer possibilidade de ser reformado, eu também acredito que a reforma tem que ser ponto a ponto, interior…………………

     

    danem-se os fatores excludentes; danem-se os que fazem uso da força, pois geralmente ela serve apenas como rota de fuga para desorientados ou doentes de espírito, que se danem se desejarem, pois nada disso vai impedir meu sorriso e o desejo de ser gentil e atencioso para com todos os meus semelhantes…………………..

     

    nada pode ser mais forte do que o……………………………………………………………………bem, deixa pra lá

     

     

    • é você mesmo, peregrino com eco?

      NÃOUMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMMM…………………….ihhhhhhhhhhhhhhhhhh

       

      é que misturaram-se os comentários e o daqui era pra ser este:

       

      quando há casos e causas, não se discute…

      o perdedor é sempre quem não tem um pouco de força para ser mau

      hein!?

       

      e por falar nisso…………………….. e a reunião com o ministro, hein!? que decepção

  2. …. tai,   gostei  !!!  q

    …. tai,   gostei  !!!  q tal uma campanha para os motoristas pricipalmente de onibus sejam mais cortez com sua carga, digo com os passageiros.

    a Presidente ate poderia liberar verba do PAC …

  3. Né por nada nao, mas que xaropada voluntarista e moralista

    Que confunde o nível do comportamento inter-individual entre pessoas físicas com questoes estruturais da sociedade. Isso tá no mesmo nível que conselhos como “lave a mao antes das refeiçoes”. Tudo muito bom, muito válido, mas que nao tem nada a ver com revoluçoes sociais. 

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