Mulheres no Masp: destaques, por Walnice Nogueira Galvão

Destaques para Sofonisba Anguissola (Cremona, 1535-1625) no Renascimento; Artemisia Gentileschi (Roma, 1593-1653) no Barroco ; Elisabeth Louise Vigée Le Brun (Paris, 1755-1842) no Rococó/Neoclassicismo.

Cleópatra de Artemisia Gentileschi - fragmento

Mulheres no Masp: destaques

por Walnice Nogueira Galvão

Na exposiçãoHistórias de mulheres”  pedem destaque três grandes artistas, florões de três diferentes períodos que se desdobram em sequência: Sofonisba Anguissola (Cremona, 1535-1625) no Renascimento; Artemisia Gentileschi (Roma, 1593-1653) no Barroco ; Elisabeth Louise Vigée Le Brun (Paris, 1755-1842) no Rococó/Neoclassicismo.

Quem chega ao Masp é logo apresentado a Sofonisba Anguissola, primeira pintora mulher a alcançar fama internacional.  E isso durante o Renascimento, quando não faltavam gênios: ela mesma era amiga de Michelangelo. Seria a pintora oficial da corte de Felipe II, em Madri, antes de Velázquez, que já serviria  a outro rei. Giorgio Vasari a elogia ao escrever sobre a arte de seu tempo.

Em seguida, ergue-se a monumental Cleópatra de Artemisia Gentileschi. Grande artista do Barroco italiano, a autora ficou encoberta pelos gigantes artísticos  coevos. Vemos Cleópatra de pé em toda a sua majestade, envolta num manto azul vívido, quando de hábito aparece deitada ou reclinada, no momento da morte; Artemisia também a figuraria assim, em outras telas. Nesta, de pé, com a áspide discretamente enrolada no punho direito, exala vitória na escolha orgulhosa da morte de preferência à humilhação na derrota. Seu horizonte seria o “Triunfo” em Roma, a rainha em grilhões arrastada pelas ruas, atrelada à carruagem do vencedor, enquanto a ralé vociferava e atirava lixo. O último grande chefe gaulês, Vercingetórix, líder da rebelião de seu povo, amargaria esse rebaixamento,  para anos depois morrer ingloriamente na prisão.  

Artemísia,  como o pai antes dela, era dona de ateliê-escola, em que treinou como aprendizes as filhas. Viveu em Roma, Veneza, Florença, Londres e Istambul, sempre à frente de seu ateliê-escola. Aceita na Academia de Belas Artes de Florença, recebia prestigiosas encomendas, entre seus fregueses estando os Médici e o rei Carlos I da Inglaterra. 

No bojo da presente tendência de resgate das mulheres que foram apagadas da História, circula pelo mundo uma mostra itinerante de sua obra, que ainda não veio ao Brasil. Nessa individual exclusiva de Artemísia salta aos olhos sua preferência por  cenas mitológicas ou bíblicas em que mulheres mutilam homens, degolando-os ou decapitando-os. A obsessão com o tema dá o que pensar, quando vem à mente seu histórico de estupro com o consequente processo público a que o pai a obrigou, em que ela teve que dar testemunho no tribunal. Em outras telas, a ameaça de violência emana dos homens contra as mulheres, como no caso dos anciãos espionando Susana no banho ou o suicídio da matrona romana Lucrécia estuprada pelo filho do rei. Temas comuns na pintura clássica; mas, no caso de Artemísia, corroborando os da degola.

Outra das maiores, vinda na sequência, é Elisabeth Louise Vigée Le Brun, a pintora oficial de Maria Antonieta: a rainha posou para cerca de 30 de seus retratos, só ou em família. Foi membro da Academia de Belas Artes da França e, em sua vida nômade, de outras de uma dezena de países. Teve ateliês e viveu em diferentes capitais, enquanto registrava as efígies das pessoas mais importantes de seu tempo. Até há pouco era conhecida como Madame Le Brun, sem direito sequer a seu próprio nome. 

Embora tenha telas em museus de vários países, a maioria está no Louvre. Levou duzentos anos carregando a pecha de ser uma pintora menor, apenas retratista e paisagista.  Mesmo em seu próprio país e com a facilidade de um acervo local, só em 2015 recebeu a honra da primeira retrospectiva, no Grand Palais. Aí foi possível aquilatar a injustiça de um ostracismo bicentenário. A exposição viajou em seguida a Nova York, para uma temporada de aclamações no Metropolitan.

Estas são as três artistas esquecidas que ressaltam na presente mostra. No futuro, completariam o panorama as pintoras impressionistas Berthe Morisot, Mary Cassat e Suzanne Valadon, bem como a brasileira Georgina de Albuquerque, em vias de serem retiradas do limbo em que jazeram por mais de um século.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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