Mulheres no Masp, por Walnice Nogueira Galvão

Sem revanchismo nem vitimização, há várias revelações de grandes artistas que foram deliberadamente ignoradas, e em certos casos até tiveram trabalhos seus atribuídos a autores homens. 

Mulheres no Masp 

por Walnice Nogueira Galvão

O Masp vem dando maior atenção aos movimentos sociais, em campanha que, denunciando o olvido e a injustiça,  quer conferir visibilidade aos excluídos deste mundo. 

Já ofereceu uma bela exposição temporária intitulada “Histórias afro-atlânticas”, que reuniu 450 obras de 214 artistas, cobrindo desde o século XVI até este nosso XXI. Contribuíram 54 instituições no âmbito planetário, com aportes de inúmeras coleções particulares, trazendo à luz tesouros raramente vistos.

Estiveram representados África, Américas, Caribe, Europa. Dos nossos, dentre os principais, Frans Post, Eckhout, Taunay, Debret, Rugendas, Pedro Américo e Portinari, lado a lado com demais confrades.

Dividida em 8 capítulos, a mostra contemplou: Mapas e margens; Emancipações; Cotidianos; Ritos e ritmos; Rotas e transes; Retratos; Modernismos afro-atlânticos; Resistências e ativismos.

Exposições individuais acrescentaram-se à coletiva. Puderam ser vistos Aleijadinho, Maria Auxiliadora, Melvin Edwards, Sônia Gomes, Rubem Valentim, Lúcia Laguna, chegando até Emanoel Araújo e incluindo o importante pintor uruguaio Pedro Figari (o único branco do time). E mais um catálogo com textos dos curadores, um livro com estudos sobre o tema e dois seminários internacionais. O projeto em sua inteireza ocupou três anos. 

Ultimamente o Masp, na esteira de museus de outros países, devotou-se às mulheres.  Não querendo minimizar os feitos dos museus, é bom lembrar que o cinema tomou a dianteira na recente voga feminina e feminista (ver Jornal GGN 10.1.2018). Da sétima arte vieram as iniciativas de ação prática, com os movimentos MeToo e Time´sUp. Valendo-se da alta disseminação do cinema, levaram as intervenções a eventos que são vistos por 1 bilhão de pessoas através da televisão, como é o caso das cerimônias de premiação do Oscar, do Globo de Ouro, e outros. Quanto aos filmes, ficção e documentário tiveram um tremendo incremento,  trazendo às telas uma discussão atualizada de temas candentes relativos a toda a humanidade mas que são bandeiras das mulheres, como autonomia, abuso e assédio, contracepção, aborto, profissão e trabalho, segregação, discriminação, sexismo.

É nessa voga crucial que embarca o novo interesse do Masp. Já realizou em 2019 duas espetaculares exposições individuais e simultâneas, porém separadas, da arquiteta Lina Bo Bardi, ali mesmo no prédio que projetou e edificou, e da pintora Tarsila do Amaral (ver Jornal GGN 25.6.2019). Esta última atingiu um recorde, registrando 400 mil visitantes.

Agora, a exposição se intitula “Histórias das mulheres” e vai até 1900, exibindo cerca de uma centena de peças do séc. I até o XIX, de autoras atuantes nas artes plásticas que foram apagadas da História.  Em todo o enorme e ilustre acervo do Masp, o maior do país, só havia dois quadros de mulheres nesse lapso de tempo, e ambos de estrangeiras, comprovando a hipótese da misoginia, para nosso vexame. 

Sem revanchismo nem vitimização, há várias revelações de grandes artistas que foram deliberadamente ignoradas, e em certos casos até tiveram trabalhos seus atribuídos a autores homens. 

Bordados são agora exibidos, recebendo uma promoção na hierarquia e constituindo um terço do total de peças da mostra. A pintura era reserva masculina, sendo rara a Escola de Belas Artes ou os ateliês onde as mulheres podiam entrar – a não ser como modelos nuas, expostas aos olhares e aos comentários dos homens.  Em troca, agora procura-se sublinhar que o bordado é “a pintura das mulheres”. São verdadeiras joias, algumas até seculares (Império Otomano) ou mesmo milenares (Inca). Há casos em que o próprio pano em que se sobrepõem as artes da agulha já é de seda e tecido a mão. Mas não se expõem apenas essas raridades, vêem-se ao lado peças mais singelas de patchwork, nome pelo qual são conhecidas as colchas de retalho.

Uma mostra paralela, mais militante e nossa contemporânea, com artistas que defendem abertamente causas feministas, ocupou outro andar do Masp.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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