Na morte de Ennio Morricone (1928-2020), por Walnice Nogueira Galvão

Esnobado a vida inteira por Hollywood, esse que é provavelmente o maior compositor de trilhas sonoras do cinema, só ganharia por muito favor um Oscar em 2016, aos 87 anos

Na morte de Ennio Morricone (1928-2020)

por Walnice Nogueira Galvão

Esse que se foi aos 91 anos tem a seu crédito a bagatela – que deve ser recorde – de 500 composições, sendo 400 para cinema e TV, as outras 100 para concerto. Sim, porque era músico clássico, com formação em Conservatório, e nunca deixou de compor música clássica. Atuou durante sete décadas, ganhou numerosíssimos prêmios, entre os quais muitos Discos de Ouro, cada um correspondendo a um milhão de discos vendidos. No total, foram 70 milhões. Influenciou desde outros compositores de trilhas sonoras para cinema, rádio e TV, até bandas de rock e cantores pop. O maior violoncelista do mundo, YoYo Ma, gravou um CD inteiro chamado Ennio Morricone.

Recapitulando seus trabalhos, comecemos pela Itália, sua pátria. Foram seus fregueses Vittorio Storaro e Giuseppe Tornatore, desde esse hino de amor à sétima arte que é Cinema Paradiso.  E sobretudo Sergio Leone, inventor do spaghetti western, que renovou um gênero cinematográfico moribundo,  nele introduzindo uma ácida pitada de crítica. Mas também musicou Elio Petri (Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita), Bertolucci,  Mauro Bolognini, Pasolini, Liliana Cavani. Inesquecível é A batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo, que celebrou a guerra colonial em que os argelinos expulsaram os franceses imperialistas.

Chamado a participar no exterior, os convites vieram de diretores americanos da primeira linha como Mike Nichols e Oliver Stone. Sem falar em Quentin Tarantino,  fã tão ardoroso que lhe deu uma sequência de seus filmes mais recentes: Bastardos inglórios, Django livre  e Os oito odiados. E mais Brian De Palma, Barry Levinson, Terrence Malick, Roman Polanski. E às vezes alguns inesperados, como o francês A gaiola das loucas, de Edouard Molinaro:  não só um, mas todos os três. Ou O exorcista 2. Ou ainda Pedro Almodóvar, em Ata-me!

Para a TV, basta mencionar Os Simpsons e Os Sopranos, tão diferentes entre si.

Esnobado a vida inteira por Hollywood, esse que é provavelmente o maior compositor de trilhas sonoras do cinema, só ganharia por muito favor um Oscar em 2016, aos 87 anos, por Os oito odiados, de Quentin Tarantino. Um pouco antes, em 2007, recebera o Oscar honorário pela carreira – raramente atribuído a um compositor. Ainda assim, Os oito odiados foi um de seus últimos trabalhos, ou seja, por pouco morreria sem receber um Oscar. É claro que o vexame seria todo de Hollywood, e não dele.

Entre as unanimidades, estão a música do filme de Sergio Leone The good, the bad and the ugly (Três homens em conflito), à qual o júri de confrades da Variety deu o primeiro lugar e que entrou para o Grammy Hall of Fame em 2009. E outra trilha, a de A Missão, foi em 2005 considerada pelo American Film Institute (AFI) uma das 25 melhores de todos os tempos.

A Missão (Inglaterra, 1986), dirigido por Roland Joffé, ganhou a Palma de Ouro de direção no Festival de Cannes e muitos outros galardões em várias categorias e latitudes. E deveria ser obrigatório em nossas escolas. O filme trata da bela obra dos jesuítas cuidando dos índios em Sete Povos de Missões, entre Rio Grande do Sul, Argentina e Paraguai, nos tempos coloniais.  Tanto os portugueses quanto os espanhóis cobiçavam aquela concentração de mão-de-obra, e finalmente os aldeamentos foram arrasados. Os milhares de indígenas ali agrupados foram ou escravizados ou dizimados, e é o que mostra o filme. Jeremy Irons faz um padre jesuíta e Robert De Niro um nobre espanhol em penitência por ter cometido assassinato. Ambos lideram os índios e apresentam posições divergentes, entre o não-enfrentamento e a resistência armada.

A trilha sonora executada pela Filarmônica de Londres, fusão de música sacra barroca e cantos indígenas, é de uma beleza inefável. No filme, soa no dia a dia e soa enquanto eles são massacrados, arrebatando o espectador, dando a impressão de que está ouvindo os anjos. Não dá para entender como Morricone não ganhou o Oscar,  que só viria  trinta anos depois, em 2016 – quando é provavelmente o melhor e maior compositor de trilhas sonoras da história do cinema, e A missão sua obra-prima.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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