Nada acontece por acaso (Parte I), por Izaías Almada

Recebo, então, um artigo do jornal luso ‘O Público’ com o seguinte título: “Do Obamagate ao QAnon, no planeta Trump há uma conspiração para cada pergunta”.

Nada acontece por acaso (Parte I)

por Izaías Almada

Diante da enxurrada de fatos políticos que aconteceram nas últimas duas semanas aqui no Brasil, eu estava à procura de encontrar um tema que pudesse unir alguns deles que me pareciam graves, com perspectivas da quebra, digamos assim, da normalidade democrática.

E não nos esqueçamos de que democracia no Brasil significa a manutenção de privilégios de uma casta endinheirada em desfavor de 90% da população do país.

Alguns dos fatos a que me refiro: divulgação da reunião ministerial de abril, o pedido de apreensão do celular do Jair, deputadas a mandar ver com o STF, operações policiais, a CPI das Fake News, a ameaça a um dos ministros do STF, a possível afronta do legislativo ao judiciário, tudo levando a um aquecimento político institucional e insinuações de um novo período ditatorial… E por aí afora.

Recebo, então, no meu e-mail, enviado por Luís Filipe Rocha, cineasta português meu amigo de longa data, um artigo do jornal luso ‘O Público’ com o seguinte título: “Do Obamagate ao QAnon, no planeta Trump há uma conspiração para cada pergunta”. Artigo assinado pelo jornalista Alexandre Martins.

O que será isso? Título mais estranho… E qual não foi a minha surpresa ao ver o conteúdo da matéria. Estava ali o que eu precisava. Li o artigo duas vezes, pois ele nos remete a várias informações adicionais, e de repente consegui minimamente fazer uma leitura dos fatos, sobretudo, da última semana. E nada acontece por acaso…

Um artigo sobre os EUA e as várias teorias das conspirações, esse apodo que nos é lançado sempre que procuramos apontar a origem de determinados acontecimentos na história política do Brasil contemporâneo. Vamos a ele:

Do Obamagate ao QAnon, no planeta Trump há uma conspiração para cada pergunta. A direita radical norte-americana promove a ideia de que só o presidente Trump protege o país de uma sociedade decadente e diz que o seu sucessor, Barack Obama, o quis derrubar. É uma ideia que vem das franjas radicai da Internet, mas é seguida na Casa Branca.

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Em Novembro do ano 2000, a poucos dias da vitória do republicano George W. Bush nas eleições para a Casa Branca contra o democrata Al Gore, num ambiente de cortar à faca e com acusações de fraude e corrupção, um obscuro site da Internet recebeu a visita de um viajante no tempo que regressara de 2036 para fazer um aviso sinistro. Daí a cinco anos, os Estados Unidos iriam mergulhar numa guerra civil entre os exércitos das grandes cidades e as milícias das zonas rurais.

Depois disso, e após uma década de batalhas, metade da população mundial seria varrida do planeta numa breve e apocalíptica guerra iniciada pela Rússia, que entrara no conflito em defesa dos soldados norte-americanos do campo.

“As grandes cidades americanas foram destruídas. A União Europeia e a China também foram destruídas. A Rússia é agora o nosso maior parceiro econômico e o Capitólio dos EUA foi transferido para Omaha, no Nebraska”, revelou o soldado do futuro John Titor numa das mensagens que publicou nos fóruns do Time Travel Institute, um site dedicado à discussão das viagens no tempo.

Até hoje, ninguém sabe ao certo quem é John Titor, nem em que ano ele vive atualmente.

Quase duas décadas mais tarde, em Outubro de 2017, outro militar norte-americano que dizia ter acesso aos maiores segredos do país, usou também os fóruns da Internet, desta vez no site 4chan, para revelar que o Presidente Donald Trump tinha um plano para aniquilar as forças sombrias do “globalismo”, que querem afastá-lo da Casa Branca.

Segundo o misterioso autor das mensagens, essa conspiração anti-Trump é orquestrada por figuras poderosas do Partido Democrata e das agências de espionagem, incluindo a ex-secretária de Estado Hillary Clinton e o antigo director do FBI James Comey, e conta com a colaboração dos atores liberais de Hollywood e dos governos de vários países.

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Em conjunto, estão envolvidos numa teia de corrupção e de tráfico de crianças para escravatura sexual em círculos satânicos, e criaram um plano tenebroso: inventar uma ligação do Presidente Trump à Rússia para depois o afastar da Casa Branca num processo de impeachment.

É o autor dessas mensagens publicadas inicialmente no 4chan, identificado apenas como Q, que dá nome à teoria da conspiração preferida da nova direita radical norte-americana, conhecida como QAnon (lê-se qiuanón) – o Q como referência ao certificado de segurança Q, que dá acesso à informação mais sensível no Departamento de Energia norte-americano e sugere que o autor é uma importante figura do Governo; e o Anon como abreviatura de anônimo.

Mas enquanto os avisos do soldado do futuro John Titor sobre a iminência de uma nova guerra civil nos Estados Unidos, há quase duas décadas, ficaram presos na relativa pequenez da Internet do início do século, as recentes denúncias do Q anônimo sobre a existência de uma conspiração contra o Presidente Trump tiveram terreno fértil para a sua propagação.

Dos cantos do 4chan, o universo QAnon saltou para veículos mais potentes como o Facebook, foi partilhado no Twitter pelo próprio Presidente dos Estados Unidos com os seus 80 milhões de seguidores, e nos próximos meses pode vir a ter a sua primeira crente assumida no Senado dos Estados Unidos – há uma semana, o Partido Republicano do Oregon escolheu como candidata oficial às eleições de Novembro Jo Rae Perkins, uma apoiante do Presidente Trump e promotora da teoria da conspiração QAnon.

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“Há muito tempo que muitos de nós suspeitávamos que alguma coisa estava mal. Agora, infelizmente, sabemos que é verdade. E temos de agradecer a um trio – Deus, o Presidente Trump e Q”, disse a candidata a senadora do Partido Republicano, no Twitter, em Janeiro.

Num artigo publicado na última edição da revista Atlantic, em que se alerta para a entrada das teorias da conspiração norte-americanas numa “nova e perigosa fase”, a editora executiva da revista, Adrienne LaFrance, sublinha que “o QAnon não tem uma localização física, mas tem uma infraestrutura, uma literatura, um corpo crescente de aderentes e muito merchandising”.

“Perante fatos inconvenientes, tem ambiguidade e adaptabilidade para sustentar um movimento deste tipo ao longo dos tempos. No QAnon, cada contradição pode ser explicada; nenhuma forma de argumentação prevalece contra ele”, diz LaFrance.

A velocidade que a teoria da conspiração ganhou assim que as primeiras mensagens foram publicadas nos fóruns do site 4chan, em Outubro de 2017, pode explicar-se com a rapidez com que foi promovida em alguns dos sítios (sites) com mais audiência nos meios da direita radical norte-americana.

(CONTINUA)

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1 comentário

  1. Prezado autor, boa tarde!

    Quer continuar em sua pesquisas? Navegue no blog lusitano oevento.pt. Vai encontrar replicações de QANON e afins em português.

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