Nada acontece por acaso (Parte II), por Izaías Almada

E a narrativa sobre um mundo que precisa do Presidente Trump para se livrar da corrupção e da decadência moral prossegue nas caixas de correio eletrônico, a cada e-mail quase diário de angariação de fundos.

Nada acontece por acaso (Parte II)

por Izaías Almada

Poucas semanas depois das primeiras mensagens, em Novembro de 2017, o Presidente Trump partilhou um tweet do site magapill.com, conhecido por promover o QAnon; um mês depois, em Dezembro, as supostas revelações do anônimo foram discutidas no canal RT, que é financiado pelo Governo da Rússia; e, em Janeiro de 2018, o pivô (âncora) Sean Hannity, da Fox News, também se referiu ao QAnon na sua conta no Twitter.

Em apenas dois meses, a ideia de que o Presidente Trump é o único antídoto contra o veneno de uma sociedade corrupta e devassa, onde os líderes políticos mais à esquerda e os atores de Hollywood abusam sexualmente de crianças, saltou dos fóruns da Internet mais ou menos obscuros e chegou a dezenas de milhões de pessoas através do Twitter, do Facebook, do Youtube e da Fox News. Algo com que nem o soldado do futuro John Titor sonharia no ano 2000.

E a narrativa sobre um mundo que precisa do Presidente Trump para se livrar da corrupção e da decadência moral prossegue nas caixas de correio eletrônico, a cada e-mail quase diário de angariação de fundos.

Num dos mais recentes, enviados no sábado pelo Trump Make America Great Again Committee – um dos grupos oficiais da campanha de reeleição do Presidente norte-americano –, é dito aos apoiantes de Donald Trump que Hillary Clinton “está a tentar vingar-se da derrota de 2016” ajudando “o colega corrupto e socialista” Joe Biden.

E, na sexta-feira, outro e-mail do mesmo grupo alerta para “o conluio ao mais alto nível do Deep State”, numa referência ao alegado Estado paralelo e subterrâneo que, de acordo com o universo QAnon, faz de tudo para expulsar Trump da Casa Branca.

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“Eles estão a tentar intimidar o povo americano e a arrancar este país das tuas mãos”, lê-se no mesmo e-mail, escrito como se tivesse sido o próprio Presidente Trump a enviá-lo aos seus apoiantes. “Não posso deixar que eles façam isso, e você também não, como verdadeiro patriota americano que é.”

As teorias da conspiração à volta de figuras do Partido Democrata, quase sempre lançadas por grupos ou indivíduos com ligações à direita radical norte-americana, ganharam dimensão no Verão de 2016, no auge de outra campanha eleitoral atribulada – a que resultou na eleição de Trump como Presidente dos Estados Unidos.

Foi nessa altura que nasceu a acusação de que os líderes do Partido Democrata geriam uma rede de pedofilia na cave da pizaria Comet Ping Pong, em Washington – um caso que ficou conhecido como Pizzagate e que foi promovido por figuras da direita radical como Jack Posobiec, cujas mensagens no Twitter são partilhadas pelo Presidente Trump.

No final de 2016, ao fim de meses de rumores sobre exploração sexual de menores no Partido Democrata, um habitante da Carolina do Norte guiou mais de 550 km até à capital norte-americana e entrou armado na pizzaria Comet Ping Pong.

Edgar Welch, de 28 anos, queria libertar as crianças que estariam a ser tratadas como escravas sexuais pelos Clinton e outros grandes nomes do Partido Democrata. No fim, não encontrou nada do que esperava e foi condenado a quatro anos de prisão por disparar uma arma e criar o pânico na pizzaria.

Segundo uma contagem feita pelo jornal New York Times, até Novembro de 2019 o Presidente Trump tinha partilhado no Twitter pelo menos 145 mensagens publicadas em contas não verificadas e que promovem teorias da conspiração como o QAnon, o Pizzagate ou a mais recente, o Obamagate.

No dia 10 de Maio, no meio de uma avalancha de 126 mensagens no Twitter, o Presidente Trump fez chegar aos seus seguidores um tweet com apenas uma palavra, escrita em maiúsculas e adornada com um ponto de exclamação: “OBAMAGATE!”

Desde então, a “hashtag” #Obamagate tem sido usada como prova de que o ex-presidente norte-americano coordenou a conspiração para manter Trump longe da Casa Branca – afinal, a peça que faltava para convencer os cépticos do QAnon de que a guerra subterrânea entre o Partido Democrata e o Presidente Trump é mesmo real.

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A mais recente teoria da conspiração parte da divulgação de documentos no caso do ex-conselheiro de Segurança Nacional da Casa Branca Michael Flynn, que se demitiu pouco depois de tomar posse, em 2017, e mais tarde admitiu que mentira ao FBI no âmbito das investigações sobre as suspeitas de conluio entre a campanha de Trump e a Rússia.

No início do mês, o Departamento de Justiça deixou cair as acusações contra Flynn. Depois disso, foram conhecidos documentos que têm em comum alguns nomes da Administração Obama, e em que se destaca Joe Biden – o adversário de Trump nas eleições de Novembro.

Segundo os apoiantes do Presidente norte-americano, esses documentos provam que Obama e Biden, e também o antigo diretor do FBI James Comey, se reuniram na Sala Oval dias antes da cerimônia de tomada de posse de Trump, em Janeiro de 2017, para sabotarem a sua presidência.

Em particular, os antigos responsáveis quereriam montar uma armadilha para apanhar Michael Flynn e, a partir daí, fazer estremecer a Administração Trump até à queda final.

Questionado, na semana passada, sobre as possíveis consequências para Obama ou Biden do caso que o Presidente Trump já descreveu como “o maior crime político na História da América”, o procurador-geral William Barr pôs água na fervura.

“Não estou a contar com a abertura de investigações criminais sobre nenhum deles. As nossas preocupações sobre potenciais crimes estão focadas noutras pessoas”, disse Barr, numa declaração que foi também entendida como uma crítica ao Presidente que o nomeou: “Enquanto eu for procurador-geral, o sistema de justiça não será usado para fins de política partidária”.

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Também na semana passada, o próprio Presidente Trump não conseguiu responder de forma direta à pergunta de um jornalista que queria saber que crime terá cometido Obama. “Você sabe qual é o crime. O crime é óbvio para toda a gente”, disse Trump, sem entrar em pormenores.

“O Obamagate tem o poder de adotar novas formas, e é essa sua capacidade de mudança que o torna muito difícil de derrotar”, disse a colunista Molly Roberts, do Washington Post. “No final, o crime não é óbvio para ninguém, e é provável que o Presidente Trump queira que isso continue assim.”

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Então, caro leitor, após esse interessante artigo do jornalista Alexandre Martins, não dá para sentir o cheirinho de algumas coincidências com os porões de Washington D.C?

Até na paranoia o Jair imita o seu patrão Trump. Mais do que um deboche, um escárnio para os brasileiros.

Será que aqui no Brasil já somos reféns dos adeptos das Fake News, que as defendem como sendo “liberdade de imprensa”? Como já disse: nada é por acaso.

Leia a parte I clicando aqui.

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1 comentário

  1. Boa noite prezado Izaías Almada!

    Para acrescentar mais angú neste pirão, existe nestes blogs uma tal teoria que o planeta passará por um evento que promoverá a libertação das forças da Cabala Negra, onde estes pedófilos, satanistas, partido democrático, socialistas, Deep State irão sumir do mapa. Além deste QAnon, tem outros personagens que propagam isto. Eles até “protegem” o mito tupiniquim. Um destes nomes chama-se CoBRA. Vai lá naquele endereço que eu enviei na parte 1.

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