Negras e negros: o grupo de risco histórico do capitalismo, por Paula Nunes

Nos Estados Unidos e no Brasil movimentos negros estão dedicados a viver: saem às ruas para dizer “basta!”.

FERNANDO FRAZÃO / AGÊNCIA BRASIL

Negras e negros: o grupo de risco histórico do capitalismo

por Paula Nunes

Estamos diante da pandemia mundial do coronavírus que já matou mais de 800 mil pessoas no mundo, sendo 115 mil no Brasil. O vírus, sorrateiro e perigoso, atinge pessoas de todas as idades, raças, classes sociais e gêneros. Mas essa tragédia global, que levanta reflexões importantes sobre a vida e a morte por si só, se soma às enormes desigualdades sociais e raciais, que acabam sendo o critério de maior influencia sobre quem vai seguir de pé e quem vai ficar pelo caminho.

As milhares de pessoas contaminadas pelo covid-19 no Brasil sentem, além dos sintomas da própria doença, a angústia de não saber se terão atendimento público no sistema de saúde, se poderão trabalhar de casa ou se terão o auxílio emergencial no mês seguinte. Idosos, asmáticos, hipertensos, diabéticos e outras pessoas com enfermidades vivem a angústia, dia a dia, sem saber se serão os próximos a serem infectados. Essa incerteza diária sobre a continuidade da vida é sentida pelas populações negras, agora também pelo medo do vírus, mas desde sempre pela violência de sociedades e Estados racistas.

No primeiro semestre de 2020, durante a pandemia, o índice de assassinatos cometidos pela Polícia Militar no Estado de São Paulo cresceu 21% em comparação com o mesmo período do ano anterior. Foram 435 pessoas mortas pelas mãos armadas do Estado.

Nos Estados Unidos, na cidade de Kenosha, em Wisconsin, mais uma filmagem de um negro sendo assassinado pela polícia foi divulgada ontem. Jakob Blake levou sete tiros pelas costas, na frente de seus três filhos, enquanto abria a porta do próprio carro. Morto pelo simples fato de ser negro.

Não se trata de comparar as dores de quem está perdendo pessoas pelo coronavírus e quem está morrendo pelas mãos das polícias no mundo. Trata-se de compartilhar essa mesma dor de quem sai todos os dias de casa sem saber se vai conseguir voltar. A dor de não saber se haverá amanhã.

O coronavírus também mata mais a população negra e pobre no Brasil. Um estudo do Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde, da PUC-Rio, que avaliou as variáveis demográficas e socioeconômicas da população infectadas pelo vírus, mostrou que quase 55% de pretos e pardos morreram, enquanto esse valor ficou em 38% entre pessoas brancas. No cruzamento de dados entre escolaridade e raça os dados apontam que a mortalidade entre pretos e pardos sem escolaridade é de 80,35%, contra 19,65% de brancos com nível superior. Nos Estados Unidos, pesquisas apontam a mesma tendência.

Se compararmos as pessoas que mais morrem com o coronavírus e fruto da violência policial concluiremos que são as mesmas: pessoas negras, sem acesso à serviços de saúde, moradoras das periferiais, em condições precárias de moradia, com condições precárias de saneamento básico, que necessitam sair para trabalhar para não passar fome.

As probabilidades de mortes, portanto, passam pelas mãos do Estado. No Brasil e nos Estados Unidos, tanto Bolsonaro como Trump reforçam as políticas que aprofundam as desigualdades sociais e, mais do que isso, estimulam a política do ódio aos setores mais oprimidos e explorados da sociedade. Em São Paulo, Dória faz discursos de incentivo à violência policial e Covas além de também ter iniciado o fim do isolamento social, segue a mesma tendência de não enfrentar as mazelas das desigualdades raciais e sociais.

Nos Estados Unidos e no Brasil movimentos negros estão dedicados a viver: saem às ruas para dizer “basta!”. Não é apenas sobre garantir condições de vida durante a pandemia, mas sobre buscar o fim do racismo estrutural enraizado nessas sociedades. A bandeira “vidas negras importam”, levantada nos protestos, carrega a marca do combate anticapitalista ao racismo. A população negra é parte do grupo de risco histórico das sociedades capitalistas. E será ela mesma quem irá protagonizar a construção de uma nova sociedade onde a vida – todas as vidas – estejam acima do lucro.

Paula Nunes – advogada, especialista em Segurança Pública, ativista do movimento negro e pré-cocandidata da Bancada Feminista do PSOL, candidatura coletiva à vereança em São Paulo   

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Apoie agora