Negros peruanos: das cantigas escravas à Susana Baca, por Luis Gustavo Reis e Eduardo Bonzatto

Negros peruanos: das cantigas escravas à Susana Baca

por Luis Gustavo Reis e Eduardo Bonzatto

Que viva mi papá,

que viva mi mamá,

que viva Ramón Castilla

que nos dió la liberta

(Nicomedes Santa Cruz)

Um ditado popular diz que, no Peru, quem não tem sangue inca tem sangue mandinga. Para um ouvido desavisado, “mandinga” pode significar “feitiço”, “bruxaria” ou o próprio “demônio”, concepções equivocadas e preconceituosas a respeito das culturas negras.

O termo mandinga diz respeito a um grupo étnico da África Ocidental, descendentes de uma das mais brilhantes civilizações da história da humanidade: o Império do Mali.

O ditado peruano tem raízes na História e escavar as areias que o encobrem oferece um campo fértil para a compreensão dos povos que formaram o Peru. Para compreender esse fenômeno, portanto, voltemos ao período colonial.

Em 1520, Francisco Pizarro levou consigo uma legião de negros escravizados de ambos os sexos para combater na guerra de conquista do Peru. Por ter lutado ao lado dos colonizadores, esses negros passaram a ser hostilizados pelos índios.

Logo nos primeiros anos da colonização, os espanhóis empregaram africanos escravizados nas lavouras, em minas de ouro e de prata, bem como em diferentes tipos de atividades urbanas. Os primeiros escravizados que chegaram ao Peru vieram da Espanha, América Latina e Caribe. Tempos depois, traficados diretamente da África, desembarcaram mandingas, iorubás, angolas, ararás, bantos, moçambiques que fizeram Lima ser considerada uma “cidade negra”.

O tráfico de escravizados rendeu lucros pomposos, inclusive para diversas ordens religiosas patrocinadoras de seu funcionamento. Entre essas ordens estavam os jesuítas, que empregavam os cativos em igrejas, conventos e colégios, e forneciam “escravos batizados e amansados” para diferentes regiões do então Vice-Reinado do Peru.

No calor escaldante das moendas de açúcar e nos terrenos escorregadios das minas de ouro, ouvia-se diferentes canções entoadas pelos escravizados, inventadas ou aprendidas em África. Nelas, a queixa do trato de determinados senhores, a trama de rebeliões e fugas. Nessas canções, invocavam-se deuses, celebravam-se o amor, a vida e o anseio permanente pela liberdade.

A condenação ao trabalho e as restritas possibilidade de deslocamento, geralmente autorizadas e controladas, não representaram a paralização total do corpo, este sim indócil, rebelde, irreverente. Não raro, noticiava-se que as reuniões organizadas pelos negros tinham o objetivo de planejar rebeliões e atentar contra a ordem, assim como havia negros que aproveitavam dias festivos para “embriagar-se, cometer delitos” e sair “pelas ruas bailando com seus tambores atrapalhando a passagem de pessoas e cavalos assustados”.

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Desde o século XVI, a cidade de Lima já registrava a presença de negros que ensinavam música e dança, destacando indivíduos renomados como Elejaldo, Hueso, Monteblanco e Tragaluz. Havia também os especialistas em tocar tambor em cerimônias públicas.

Em 1555, também em Lima, foram contratados percussionistas negros para homenagear o vice-rei Antonio de Mendoza e dezenas de funcionários da Coroa espanhola. O próprio colégio jesuíta de San Pablo, um dos maiores da região, tinha uma orquestra de músicos negros que tocava clarinete, chirimía (um tipo de flauta), tambor, violão, trombeta, alaúde e rabeca.

Os negros também organizaram diversas confrarias que congregavam diferentes músicos e instrumentos. Esses grupos tocavam em todo tipo de evento (público e privado), recebiam pagamento pelo serviço, dividiam parte do pecúlio com seus senhores e o restante juntavam até conseguir comprar a carta de alforria de algum membro do grupo.

Vários foram os escravizados que alcançaram a liberdade por meio de grupos de ajuda mútua, uma importante organização de solidariedade entre os parceiros de cativeiro.

O legado dos negros, sobretudo as cantigas, permaneceu no pós-abolição e impulsionou uma gama de músicos, dançarinos, coreógrafos e cantores de diferentes estilos musicais, entre eles o afro-peruano Porfirio Vásquez que já no começo do século XX foi considerado el patriarca de la música negra.

Porfiro Vásquez teve vários filhos, muitos deles seguiram a profissão do pai e se tornaram músicos de destaque, como Vicente Vásquez (guitarrista) e Abelardo Vásquez Díaz (cantor, percussionista, bailarino e compositor). Abelardo, inclusive, é conhecido como el maestro de la música costeña e um dos principais intérpretes das cantigas populares de seu país.

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Vários grupos musicais afro-peruanos foram concebidos dentro da tradição das cantigas. Um dos nomes expressivos da música negra no país é o grupo Peru Negro, formado por Ronaldo Campos de la Colina no final da década de 1960. O grupo ganhou prestígio popular e ainda hoje é referência importante da cultura negra peruana.

Mas a formação do grupo é recheada de peculiaridades. O Peru Negro foi formado por Ronaldo Campos quando ele trabalhava como “gaveta” para um grupo de música crioula em um restaurante turístico de Lima. A pedido do proprietário, ele criou um estilo musical “típico” dos negros e o nomeou de “Peru Negro”.

Gaveta é um termo especial para essa narrativa tão inventiva. Segundo a história, como parte dos escravizados enviados ao Peru estavam privados de seus instrumentos de percussão, eles passaram a utilizar caixas de madeira e gavetas (cajón) para animar suas danças. Passados os séculos, atualmente o cajón (instrumento no qual o músico senta em cima e bate com as mãos) é considerado patrimônio cultural do Peru. A invenção desses escravizados passou, portanto, de marginalizada a um dos símbolos máximos do país.

Aqui entra uma reflexão intrigante: privados pela distância histórica das raízes ancestrais africanas, o grupo de teatro e danças Cumanana, criado por Victoria Santa Cruz e Nicomedes Santa Cruz Gamarra, lançou os fundamentos musicais que marcaram definitivamente as heranças negras no Peru. Antes de sua morte, em 2014, Victoria Santa Cruz resumiu sua relação com suas raízes africanas da seguinte maneira: “Na mesa de jantar, depois da ceia, aos domingos e dias de festas, nos acostumamos a batucar na mesa por questão de necessidade. Fazíamos combinações rítmicas sem saber que havia um continente africano dentro de nós”, afirmou.

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Alguns cantores contemporâneos, como Lalo Izquierdo, Lucila Campos, Arturo Zambo Cavero, Carlos Soto, Eva Ayllón e Susana Baca cultivam parte das cantigas negras tradicionais. Susana Baca, por sinal, ganhou o Grammy Award, em 2002, um dos prêmios mais importantes do cenário musical, pelo seu disco Lamento Negro.

O jornal The New York Times publicou uma matéria sobre Susana Baca que dizia: “Todas as músicas que compõem este disco carregam uma força vital fluindo dos diferentes ritmos que compõem o mundo rico e variado da cultura peruana. São os ritmos ancestrais dos avós que nos contaram suas histórias; os ritmos mestiços das procissões religiosas; os ritmos da cadência em busca de palavras na poesia e o eterno ritmo do coração e da celebração”. E finaliza com uma frase da cantora: “Nosso maior desafio é encontrar o verdadeiro ritmo da liberdade – algo como o vento que permite que um pássaro voe, ou uma nova linguagem mais poderosa que a fala”.

Originada nas cantigas inventas pelos escravizados, passando por grandes nomes no século XX, a música afro-peruana se espalhou pelo mundo e tornou-se um dos elementos definidores da cultura do país.

A sabedoria popular é irretocável: incas e mandingas ainda vivem no Peru.

Luis Gustavo Reis é professor e editor de livros didáticos.

Eduardo Bonzatto é professor da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

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