Nobel da Paz X Juiza da porteira. Imaturidade cronológica e emocional, por Armando Coelho Neto

Nobel da Paz X Juiza da porteira. Imaturidade cronológica e emocional

por Armando Rodrigues Coelho Neto

– Esse sujeito fala com Deus? Disse Gilmar Mendes, ministro do STF, numa alusão ao juiz federal Sejumoro. A frase ecoou na dita Suprema Corte, durante a análise de um habeas corpus, pró-ex-ministro Antonio Palocci, preso em setembro de 2016. Com aquela fala na memória, divaguei sobre o assunto e me deparei com duas histórias pessoais.

Tenho um sobrinho que ao nascer passou por sofrimento fetal de consequências irreversíveis. Já “adulto”, durante uma audiência, foi humilhado por uma juizinha, que teimava em dizer que ele “fingia muito bem” e que “tinha provas de que ele fazia faculdade”. Pobre coitado! Mal sabe assinar o nome e recebe cuidados especiais até hoje! Mas, a juizinha, prenhe de convicção, rejeitou os pleitos judiciais requeridos pelo seu representante legal. Ele precisou reunir laudos e mais laudos, sem contar que a documentação apresentada foi submetida à perícia para aferir a autenticidade. Desde então, desconfio da maturidade, da testosterona, da jovialidade e da senilidade “precoce” da magistratura brasileira.

Tem muito mais juízes falando com Deus do que se possa imaginar. Em minhas conversas com advogados, tenho ouvido relatos fantásticos sobrenaturais protagonizados por juizinhas, juizecos e outros que tais. Em todos os casos, destaque para a imaturidade de grande parte desses barnabés acima do bem e do mal que, segundo a ex-ministra Eliana Calmom (STJ), não podem ter suas vidas investigadas. Mas são eles que, com chancela oficial, dão status de criminoso ao ex-presidente Lula, num processo anulável e uma prisão ilegal.

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E por falar em não investigáveis ou sumariamente inocentados, me ocorre o juiz Sejumoro que divulgou ilegalmente falas da presidenta Dilma Rousseff. Gosto de lembrar esse fato. Simbolizaria a maior da lambança jurídica do século e a substituição da política pelo judiciário? Seria a nítida associação entre o golpe que leiloa o Brasil e a quadrilha que a tudo isso controla, num pretenso acordo nacional?

De repente me ocorrem as suspeitas de superfaturamento na construção do TRF-5 (Recife) que mal ocupou espaço na mídia e os “probleminhas” TRF-1 (Brasília). Sem contar os famosos embargos auriculares e as memórias sombrias de “Grande Balcão de Negócios”, nos quais advogados parentes de juízes conseguem vitórias inusitadas para seus clientes. Coisas que me levam a dizer, aqui/ali, que o Poder Judiciário brasileiro não sobreviveria a uma sindicância mal feita. Mas, como já dizia Sejumoro, isso não vem ao caso. O assunto mesmo é a imaturidade (cronológica e emocional) de significativa parte da magistratura.

No dizer de Gilmar Mendes, o juiz de Curitiba falaria com Deus. Já a juíza Carolina Lebbos, da 12ª Vara Federal de Curitiba – presumo, não fala com Deus, mas fala com Sejumoro, o que seria quase a mesma coisa.

Para não fugir do tema imaturidade (seja cronológica ou emocional), é provável que a tal juizinha não tivesse nascido ou fosse uma garotinha quando Adolfo Pérez Esquivel, hoje com 86 anos, se tornou Premio Nobel da Paz (1980) e quando ele foi recolhido às dependências da golpista Polícia Federal, em 1981. Testemunhei o escarcéu naqueles tempos ainda obscuros. Até Paulo Maluf, governador de São Paulo entrou na fita com um ríspido diálogo com o superintendente da PF, que acabou sendo “promovido” (caiu pra cima).

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Também é pouco provável que saiba o reconhecimento internacional do Frei Leonardo Boff, suas ações voltadas para Ética, Ecologia, Espiritualidade a fraternidade e seu empenho em favor do ecumenismo. A constrangedora imagem solitária de um sexagenário segurando o bastão, e que correu o mundo, tinha um quê do “Guardador de Rebanhos” eternizado pelo poeta Fernando Pessoa. Mas, como alguém rotulada como técnica e rígida teria estatura emocional para transcender a esse ponto?

Técnico e rígido, eis o mote complicador. Ciências humanas e exatas são coisas distintas e gente não é máquina. Juízes máquinas deixam o judiciário brasileiro sem alma, pois magistrados exageradamente técnicos e rígidos não contextualizam fatos, não contemporizam, não conseguem diferenciar o furto de um pacote de margarina do furto de um celular de última geração ou qualquer bem valioso. Afinal, a conduta formal é a mesma. Como são voltados pra si mesmos, julgam conforme seus próprios valores. Desse modo, Esquivel e Boff têm a mesma dimensão sociopolítica de um cidadão comum e podem ser barrados na porta da PF. Como disse o jornalista Ricardo Kotcho, “E se fosse o papa Francisco?”.

A imaturidade da juíza da porteira muito lembra a juíza que tripudiou de meu sobrinho. Está por certo indiferente à imagem de Leonardo Boff, 79 anos. Agiu como quem fugiu da aula de história ou perdeu noções básicas de humanidade e cidadania. Agiu sozinha ou falou com o interlocutor de Deus? A decisão foi mais imatura e desumana do que técnica e jurídica. Afinal, aplicar o direito não é uma simples adequação de fatos à norma. Os sexagenários Lula e Leonardo Boff e o octogenário Adolfo Esquivel não são pessoas qualquer. Se todo cidadão fosse qualquer não haveria foro privilegiado, nem privilegiados tão privilegiados quanto os que falam com Deus. Aqui a regra da igualdade se inverte.

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A já combalida imagem da magistratura, hoje associada a um espúrio “acordo nacional” para derrubar a democracia, se tornou mais turva ainda, até internacionalmente. Está intrinsecamente ligada ao covil de Fora Temer, com seus convescotes pagos com o dinheiro público e menu cinicamente divulgado pela mídia golpista. Tão insólitos quanto os encontros secretos com a Madre Superiora. Cassada a soberania popular, o país vive um governo de minorias: parte controlada pelo covil do impostor e a outra parte pelos que se dispõem a dar ares de legalidade a maior farsa jurídica da história do país.

Nesse contexto, a juíza da porteira deu péssima contribuição para consolidar a imagem de preso político de Lula e tripudiou da história de Esquivel e Boff, sem que nem ela nem Sejumoro cheguem aos pés de nenhum dos três.

É o fascismo. Ao tempo que fingem combater corrupção, a sociedade que lhes sustenta cultiva a ganância e o chegar lá a qualquer preço, enquanto seus atores preferem falar diretamente com Deus.

Armando Rodrigues Coelho Neto – jornalista e advogado, delegado aposentado da Polícia Federal, ex-representante da Interpol em São Paulo

 

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18 comentários

  1. $érgio Moro fala com Deu$

    Bush Jr. dizia que Jesus Cristo falava com ele durante à noite e o mandava bombardear o Iraque, onde as bombas matavam indiscriminadamente criminosos, inocentes, crianças, velhos, doentes, etc.

  2. Sociopatas agem dessa forma

    Os dois tem ações de verdadeiros psicoptas. É só verificar o rastro de crimes que cometem. O semideus é ainda pior, é quem manda no pedaço, e dissimulado, como são essas figuras sinistras passam a impressão de gente da mais alta confiabilidade acima de qualquer suspeita. Há muitos criminosos desse perfil no mundo, que passam anos e anos cometendo crimes de todas as espécies. Não são necesseraiamente serial killers, porém, os danos que causam às pessoas, à sociedade, às vezes são irreparáveis.Os mais críticos acham que são durões, outros desumanos,fascistas,  outros acham que agem fora da lei. Porém, muito poucos enxergam neles infelizmente aquilo que eles são: sociopatas perigosíssimos, e como tais, passíveis de serem presos e condenados. O duro é quem deveria estar cuidando disso se acovarda, se cala, lava as mãos.

  3. Era o tempo do “Pequeno

    Era o tempo do “Pequeno Príncipe”. A garotinha que me fora apresentada, não me lembro o motivo, vem com o “o essencial é invisível para o olhos”. Sem me lembrar também de porque, me defendi com um, totalmente descontextualizado,  “é isso que nos torna responsável por aquilo que cativamos”. Boquiaberta, não tinha idéia da orígem do que eu falava. Deslumbrada com “minha” frase, foi conquistada. O restante são só estórias perdidas no tempo. Mas que vieram à tona com a atitude dessa juizinha, bonitinha, adolescente, técnica e rígida, que também parece não ter lido, ou não ter entendido, Saint-Exupery. Não tem coração para ver o essencial, nem por isso deixa de ser responsável por aquilo que não cativou.

  4. Juizes sem tino…

    Juiza da porteira me parece ser a melhor definição até aqui para a “importância” que tem essa juiza no caso Lula. Juizes que se dizem técnicos e rigidos me dão frio na espinha. Geralmente são juizes que julgam de forma fria, sem alma, sem reflexão. E geralmente julgam muito mais rigidamente os pobres e miseraveis que aqueles que são de sua castas.

    • Juizes sem tino?

      É isso também. Mas vai além…

      Mesmo sem “sindicância mal feita” é possível ter um vislumbre dos, digamos, desacertos dessa tropa, muito generosa no julgamento dos da sua casta e ainda mais “flexível” no exame de causas dos patrocinadores de seus convescotes. Essa “caixa preta” ainda está protegida, fechada. Mas exala um mal cheiro insuportável.  Um dia qualquer explode.

  5. Não sei o que há com os
    Não sei o que há com os juízes. Estão em transe ou sempre estiveram. Seus twitters e Facebook estão cheios de preconceitos comuns a elite brasileira. Seus comentários sobre a justiça cheios de lugares comuns como se nunca tivessem cursado Direito. Ovacionam os ministros do supremo que votam contra a Constituição e repudiam os que procuram restabelecer o equilíbrio entre os poderes. A reforma do judiciário é urgente.

  6. Seria de bom tom que os
    Seria de bom tom que os parlamentares tomassem tenência e criassem uma CPI para apurar os probleminhas do judiciário………
    Afinal, são os freios e contrapesos….

  7. Que país é este?

    Que país é este, que justiça é esta, juizecos inflados de ego, ignorância, desumanidade e muita boçalidade. Ningém merece!

  8. Juíza da Porteira e Boi de Carro

    Boi de Carro

    (Kara Véia)

     

    Todo mundo tem direito a aposentadoria
    O meu dono me criou
    Trabalhando noite e dia
    Hoje estou velho e cansado
    Agora eu sou desprezado
    Por ele e toda família

    Me prendenraum num curral
    Sem nada ter pra comer
    Sou um boi velho e cansado
    Nem água tem pra beber
    Depois de trabahar tanto
    Vivo jogado num canto
    De mim ningém quer saber

    Estão vendendo o meu corpo
    Pra levar pro matadouro
    Escutei essa conversa
    Da boca do comprador
    Eles não tem sentimento
    Esse é o pagamento
    De quem tranto trabalhou

    Eu novo fui boi de carro
    Já cortei terra em arado
    Ajudei o meu patrão
    Ver o seu filho formado
    O meu dono me vendeu
    Só pra ver o sangue meu
    No matadouro derramado

    Quem escutar minha história
    Vai chorar como eu chorei
    Em saber que vou ser morto
    Por quem tanto ajudei
    Depois fazem um churrasco
    Bem em cima do meu rastro
    Nas terras que trabalhei
     

  9. monstrinhos

    Meninas e meninos mimados no mais alto poder.

    O pior é os altos salários e as mordomias pagos por todos nós, os miseráveis, suas vítimas.

  10. O problema da “juíza de

    O problema da “juíza de porteira”, assim como da maioria dos “novos juízes?”, é que não foi por vocação que escolheram a carreira, que deveria ser digna, mas sim pelo status, salário, penduricalhos, possibilidade de palestras, também com ganhos financeiros. Portanto, nada a ver com o cumprimento do que diz a “coitada” da nossa Constituição. O único objetivo dessa “nova” turma” (acredito que todos vindo da famigerada classe média ou média alta),não tem nada a ver com o cumprimento das Leis  Só status e dinheiro. É uma pena.   

  11.  Caro Armando,Sempre leio

     

         Caro Armando,

       Sempre leio com atenção seus textos. Ultimamente tenho me posto a pensar com meus botões, se em algum momento – quem sabe não tão distante – não nos decidamos por substituir juízes, juizinhas e juizecos, em geral, por computadores! Fiquemos com a mocinha aí do texto, jovem aspirante ao estrelato, como exemplo do qual pode-se partir para uma generalização ampla e efetiva – a literatura me permite! -: Requeriria-se de um juíz, mais que conhecimento técnico da lei, vivência prática profissional, anos de estudos, imersão nos mais diversos ambitos da sua área de atuação,  e por fim, experiência de vida mesmo.

       Um comparativo básico e rápido – não me chamem de apressado, porque há segundas instâncias melhores nesse aspecto – onde não consideremos o aspecto financeiro, porque seria covardia em favor da máquina; e ademais, não falemos da qualidade básica da lei, equilíbrio, porque… bem, porque não.  Por fim, não falemos de sabedoria – “saber interpor-se constantemente entre si próprio e as coisas é o mais alto grau de sabedoria e prudência” dizia o poeta Fernando Pessoa – porque, fundamental em qualquer aspecto da vida humana, essa é historicamente escassa no mercado  e, quando disponível, é mal aproveitada, mal empregada, senão descartada. Não a vemos – imagine! – nos tribunais superiores, que dirá na plebe rude judiciária.

       Assim, se a compararmos com os concurseiros cada vez mais jovens – que não melhoram muito com a idade, é verdade – além de inexperientes, prepontes e ineficazes, tem custo social altíssimo. Não valem a pena! – nem o processo, diga-se de passagem. Um computador ganha fácil, mesmo ganhando menos! Dotado de todos códigos jurídicos já tem ali o acervo legal pronto; novas jurisprudências, atualiza-se o bicho; vivência profissional? Nesse quesito há um empate; mas uma máquina não tem experiência, dirá alguém… pausa para risos; não é capaz de gerar sabedoria… próxima; incapaz de um gesto de humanidade, empatia… bem… máquina por máquina, prefiro uma japa.

     

    • Um vibrador substitui um penis e um computador substitui um juiz

      Um caixa eletrônico substitui um caixa de carne e osso, um piloto automático substitui um piloto humano, o vibrador comprado com o Cartão Corporativo da Presidência da República substituía o FHC.

       

      O computador tem uma vantagem sobre os juízes, ele não se apropria indebitamente do auxílio moradia e de outros penduricalhos.

  12. “E se fosse o Papa

    “E se fosse o Papa Francisco?” Aí este tambem seria barrado. Como o mentor, deve ser de uma seita qualquer que não respeita nem o Papa.. Agora se fosse Obama, até iria junto pois não perderia a oportunidade de aparecer na fita. Tambem não seria louca de correr o risco de ser massacrada pela mídia.

  13. QUEM ESSA SENHORA, A JUIZINHA

    QUEM ESSA SENHORA, A JUIZINHA DE RODAPÉ, ORA PLANTONISTA NA CADEIA DA PF DO PARANÁ PENSA QUE VAI?

    Estamos é lascados, pagando rios de dinheiro pra esse rebanho de fdp, digo, filhotes de papai, acabarem por destruir o pouco do judiciário que nos restava.

    Piorou muito com o advento dessa merda de pgr, onde um bando de deslumbrados concurseiros, juntaram-se aos juizecos de rodapé, e ora, cuidam de disputar com outros merdas, os concurseiros da pf, pela primazia de aparecer com suas palhaçadas midiáticas no JN da rede fraudulenta de fabricar notícias falsas dos irmãos marinho. As bandalheiras desses deslumbrados, já causam mais prejuizos ao país, que a corrupção que brincam e fingem combater.

    Teremos que pensar em acabar com toda essa pouca vergonha. Não dá mais! Nós pagamos, nós somos os donos, portanto, a responsabilidade por estancar tamanha sangria desatada é urgente, e é nosso dever democrático.
     

    Orlando

  14. PORQUE NÃO FALAM COM POVO O QUE REALMENTE PODEMOS FAZER

    Caro Armando, dos textos que leio na net sempre os seus estão entre os melhores, porém caro Armando, uns falam foi erro disso, juristas falam foi ilegal, uns dizem uma coisa e outros outras coisas, mas o povo não sabe o que devemos fazer para acabar com essa sacanagem toda, desculpe a palavra, mas é que não tem outra para descrever o que fazem com o Brasil e seu povo. Na realidade o judiciário foi quem golpeou o Brasil não tem outra explicação, porém ouvimos tudo, só não ouvimos o que fazer. O judiciário como dono Brasil acontecerá repetidamente o estupro constitucional e a qualquer hora a polícia política baterá em sua porta e “esteje preso”, no inquérito pedirão que prove sua inocência o que o deixará preso até que a morte o liberte. Meu caro, Armando o que ainda podemos esperar da ditadura do judiciário dos altos salários, auxílios e penduricalhos, palestras e punições, o que ainda o povo sofrerá sendo obrigado a beijar togas e ouvindo o barulho sinistro dos malhetes? Por fim, o que o povo ainda pode fazer para se livrar desse mal que assola o país? Como enfrentar o judiciário no seu intento de reinar o país para o bem do caviar, roupas caras e vinhos finos. Acho que você ler os comentaristas, se um dia ler o meu, ver se consegue pelo menos me responder alguma coisa para aliviar essa minha dor da impossibilidade, é uma dor de quem fora roubado quase todas as vontades positivas e as virtudes para o bem, porque roubaram de nós tudo muito mais que já roubam do Brasil em auxílios e etc.

    • Quem deu o golpe foi a elite parasitária

      O judiciário foi só um instrumento usado pelos parasitas sociais para por fim à redução das desigualdades sociais. Quando os Magistrados, Procuradores e Policiais perderem sua utilidade serão descartados como papel higiênico usado. Já descartaram o Teori Zavascki, o Janot e o Japonês da Federal.

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