Números, bolhas e mistérios da política que confundem e nada esclarecem, por Álvaro Miranda

Em qualquer hipótese, porém, números dentro ou fora de nossas bolhas parecem revelar, pelo menos, coisas estranhas em seus contrastes.

Números, bolhas e mistérios da política que confundem e nada esclarecem

por Álvaro Miranda

Dou a mão à palmatória àqueles que conseguirem me provar suas análises da atual conjuntura política através de equações “seguras” da matemática. Ou de números e dados soltos que pretendem explicar fatos e fenômenos. Resultados de institutos de pesquisa, visualizações e curtidas em diferentes plataformas podem revelar ou mentir ou ainda confundir em seu estado bruto – e deveriam mais nos convidar a fazer interrogações do que emitir conclusões sumárias.

Sei que minhas ilações aqui podem parecer fruto mais do desejo e das preferências do que de uma abordagem “científica” menos especuladora. Em qualquer hipótese, porém, números dentro ou fora de nossas bolhas parecem revelar, pelo menos, coisas estranhas em seus contrastes.

Se é para nos ater a números, vejamos. A viralização em aplicativos de relacionamento a partir do Youtube, por exemplo, da música “micheque” da banda de rock Detonautas, que, segundo consta, teria levado a mulher de Bolsonaro a dar queixa na polícia, pode ser um elemento de contraste com o que se infere dos números divulgados pela última pesquisa CNI-Ibope, que mostram um suposto aumento da popularidade do seu marido.

No sábado, perto de 15h, o YouTube mostrava 826.520 visualizações da música, com 82 mil curtidas contra 7,4 mil reprovações. Às 20h50m deste domingo, as visualizações e as curtidas praticamente mais do que dobraram, alcançando, respectivamente, 1.653.582 com 180 mil curtidas e 18 mil polegares para baixo.

No caso das pesquisas, alguns dados curiosos. Seis em cada 10 brasileiros se dizem de centro ou indefinidos, segundo o levantamento realizado pelo Instituto Locomotiva a pedido do RenovaBR. Se isso reflete a realidade, trata-se de aspecto relevante, junto com a repercussão da música, a se considerar como outro possível contraste em relação à pesquisa CNI-Ibope divulgada agora em setembro.

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Aliás, a pesquisa CNI-Ibope traz também uma contradição. Mostra a reprovação geral do governo, mas destaca o suposto aumento da popularidade de Bolsonaro. Aponta esse, repito, SUPOSTO aumento agora em relação a 2019, mas, numa de suas partes, na seção 2, sob título “Aprovação do governo por área de atuação”, mostra uma reprovação geral. Ou seja, o título dessa parte da pesquisa deveria ser “Reprovação do governo por área de atuação”.

O próprio documento da pesquisa destaca o aumento da popularidade, começando seu texto por ele, parecendo minimizar a reprovação geral, colocando-a em segundo plano. Entretanto, algumas bolhas da internet recebem a pesquisa com apreensão, fazendo sobressair um mistério: por que certos segmentos de esquerda preferem a perplexidade e o desânimo ao pessimismo ativo da reflexão e das indagações?

Por sua vez, pela pesquisa do Instituto Locomotiva, Bolsonaro estaria longe de ter maioria a se confirmar o perfil ideológico da população: uma “minoria” de 19% se declara de esquerda e 24% seriam de direita. Porém, outros 27% seriam de centro e uma suposta maioria numérica de 30% opta por nenhuma das três classificações.

Não sou analista de pesquisas, mas sim um leigo curioso e perguntador. Seriam inúmeras as perguntas necessárias, que, pela quantidade, não caberiam num singelo e rápido texto para internet. A começar por essa: a pesquisa CNI-Ibope foi feita por telefone? Se foi, outra pergunta: quem atende, hoje em dia, ligações de números pelo celular sem identificação de chamada? Ou o Ibope aparece já se anunciando na tela do celular? Se pelo fixo de nossas residências, sem bina, vale também a mesma pergunta e outra: dá para confiar mesmo?

Por outro lado, em muitas situações declarar-se de esquerda ou de direita pode parecer meio vago e revelar muito ou nada no sentido de se saber se informação para entrevista à pesquisa, no presente, significa a mesma predisposição para o voto daqui a dois anos.

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Mesmo acreditando-se de esquerda ou de direita, se o sujeito for cauteloso, vai lembrar que voto é mais complicado que câmbio flutuante, pois neste, há deliberações de quem está no comando do governo. Já o voto, não sendo, em tese, controlado, é uma aposta, e não um cheque em branco, seja para sacar 89 mil reais ou qualquer outro valor, independente do emitente.

Fato é que não sou daqueles que defendem a falácia de alguns pragmatistas estadunidenses do século XIX e XX, segundo a qual a verdade seria aquilo que acreditamos que seja. Não! Os números da pesquisa CNI-Ibope revelam possível situação a convidar reflexões, mas também indagações e muitas dúvidas.

A pesquisa requer leitura do texto, mas também do seu subtexto. Considerando os destaques dados por seus elaboradores, bem com a estruturação do texto de sua apresentação, a partir da pesquisa CNI-Ibope, pergunta-se, dentre outras coisas, apoia-se a “maneira de governar do presidente”, mas qual maneira? Que sentido tem a parte final da pesquisa dando conta da avaliação de todos os governos, de José Sarney a Jair Bolsonaro, só com gráficos, sem um texto analítico sobre eles?

O mais curioso e contraditório, porém, é o fato de, nos itens da aprovação por área de governo, o maior apoio ocorrer somente em relação à segurança pública, algo que é atribuição constitucional dos governos estaduais e não do governo federal. Em TODOS os demais itens, a REPROVAÇÃO É SEMPRE MAIOR DO QUE A APROVAÇÃO, tais como nos relacionados ao combate à fome, educação, saúde, combate à inflação, combate ao desemprego, meio ambiente, taxa de juros, impostos. Não seria o caso de seus opositores pegarem isso como gancho e construírem o antimarketing, em vez de caírem na prostração da perplexidade?

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Ficam várias perguntas no ar, entre as quais essa: os entrevistados que responderam apoiam a maneira de Bolsonaro governar ou seu jeitão de ser? A pesquisa CNI-Ibope poderia ter explicado melhor a conexão entre percepção dos brasileiros sobre o governo e a percepção dos brasileiros a respeito do noticiário sobre o governo. Coincidem, não coincidem? Que inferências podemos fazer dessas duas percepções?

Como se não bastassem a perplexidade desnecessária e as inferências subjetivas, existe também o mau hábito de certas bolhas não fazerem perguntas e apenas aceitar como verdade aquilo que é divulgado em documentos formais por entidades e instituições reconhecidas. Há também as velhas mentiras sempre renovadas de Bolsonaro sobre fatos e números, sendo a última essa de fazer com que uma dona de casa buscasse a Justiça para receber os mil dólares que ele disse pagar como auxílio emergencial perante a ONU.

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