O aniversário da Operação Valquíria: a resistência militar de Stauffenberg, por Roberto Bueno

A Alemanha estava sendo virtualmente destruída pelas escolhas de Hitler, tanto no plano militar como em suas opções em matéria de política interna.

O aniversário da Operação Valquíria: a resistência militar de Stauffenberg

por Roberto Bueno

Neste próximo dia 20.07.2020 contam 76 anos da Operação Valquíria organizada por altas patentes das forças armadas alemãs. Em posição proeminente no complô para libertar a Alemanha estava o Coronel Claus Philipp Maria Schenk Graf von Stauffenberg (1907–1944). Stauffenberg ocupou altas posições nas forças armadas do III Reich sob o comando de Adolf Hitler, oficial oriundo e formado segundo referenciais de nobreza típicas da aristocracia bávara de Württemberg. Parcialmente mutilado em ação militar na África, Stauffenberg foi patriota alemão convicto dos valores conservadores e nesta condição inserido nas forças armadas que logo deparariam com a ascensão de figuras dúbias que discrepavam da distinção e nobreza dos aristocratas. Os novos poderosos ligados ao NSDAP viabilizaram a ascensão de figuras menores a postos-chave das forças armadas e da administração em geral, tais como Hermann Goering e Heinrich Himmler, mas também Hans Frank e Rudolf Hess, conjunto para quem a morte era regozijo e prazer e não, chegado o momento, o cumprimento de dever militar.

Após o terrível fracasso da campanha russa, progressivamente os desdobramentos da guerra eram notavelmente desfavoráveis, e a Alemanha estava sendo virtualmente destruída pelas escolhas de Hitler, tanto no plano militar como em suas opções em matéria de política interna. Estava sendo desenhado o quadro apocalíptico da completa ruína alemão, do suicídio de todo um povo que se tornaria ilustrativo quando, às vésperas da entrada dos russos em Berlin, Hitler ordenou que a Alemanha fosse destruída por completo, para evitar que os vencedores dispusessem de indústrias e empresas. Contraditado com a miséria que causaria aos alemães, Hitler não hesitaria em atribuir-lhes a culpa da derrota e, portanto, seriam merecedores dos maiores males. As ordens de Hitler foram cumpridas apenas parcialmente, alvo de contenção por parte de alguns militares como Albert Speer, responsável pelo armamento alemão e pela escravização direta da mão-de-obra e do assassinato de milhões de indivíduos.

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Conforme evoluía a guerra as reações eram tímidas embora a insatisfação fosse crescente com o horizonte que se desenhava, até que oficiais decidiram mudar o regime, mas para isto, certamente, não convergiria o Führer. Hitler era o obstáculo central intransponível, e a sua morte era a única opção, talvez seguida por seus dois principais homens, Goering e Himmler. A morte de Hitler era transformada no alvo para a implementação do novo regime que tampouco apontaria para um regime democrático-liberal do tipo desenhado pela Constituição de Weimar. Para operar a mudança estava sendo desenhada a Operação Valquíria, finalmente realizada a 20.07.1944, portanto, completando aniversário de 76 anos nestes dias.

O complô requereria a intervenção de amplo conjunto de militares com diversas patentes e funções, tanto para a sua execução, controlando tropas e levando a termos tarefas de ocupação de postos e espaços, como também preparando o período pós-golpe de Estado. Assim operaram oficiais como Hans Oster e Henning von Tresckow, o Tenente Werner von Haeften, os generais Erwin von Witzleben, Alfred Mertz von Quinheim, Friedrich Olbricht e o Coronel Mertz, além de Carl-Friedrich Goerdeler e de Ludwig Beck. Junto a eles o Coronel von Stauffenberg encarnava o quão insuportável era a situação daquele momento, pois muitos eram os militares alemães que já não suportavam o modelo militar imposto por Hitler e o conteúdo de suas ordenanças que evidentemente conduziam a Alemanha e o seu povo para o apocalipse.

O plano para assassinar Hitler supunha utilizar reunião marcada pelo próprio para colocar duas pastas com 1kg de explosivos cada uma delas, disfarçadas com material inglês para eludir a origem dos organizadores, e que atingiria o Führer ao ser colocada ao seu lado por Stauffenberg. A detonação da bomba na sala de reuniões de Hitler na “Wolfsschanze”, a famosa “Toca do Lobo” (alcunha pela qual Hitler apreciava ser conhecido), na Prússia Oriental, impôs alguns danos físicos ao Führer, e enquanto onze dos presentes eram atingidos, outros quatro foram mortos.

Protegido pelo acaso e bafejado pela sorte particular casada com a desventura de muitos que ainda perderiam as suas vidas devido ao seu regime bárbaro, a espessa mesa de madeira de carvalho em torno da qual ocorria a reunião militar restou completamente despedaçada, mas serviu de anteparo e protegeu a vida de Hitler da detonação. Fracassado, o plano representou o fuzilamento de todos os envolvidos na operação em face da traição do General Friedrich Fromm, que também seria fuzilado nos dias subsequentes ao ser descoberta a sua participação no plano de assassinato do Führer. Foi falida a tentativa de libertar a Alemanha, mas os restos mortais de Stauffenberg repousam na Stauffenbergstrasse sepultados no Memorial para a Resistência Alemã, malgrado os seus desvios ideológicos durante anos de sua vida.

Não se supõe que a preparação intelectual de Stauffenberg o tivesse isolado da possibilidade de compartilhar dos nefastos instrumentos de poder e das consequências do regime, como também fora o caso de Goebbles e conhecida alta formação acadêmica. Nem Stauffenberg nem outros que planejaram o atentado contra Hitler discreparam do cerne da ideologia nazista como, por exemplo, o armamentismo promovido pelo Führer, em resposta ao âmago do Tratado de Versalhes que impunha o desarmamento à Alemanha e que não poderia dispor de forças superiores a cem mil homens. Ao propor o rearmamentismo alemão Hitler acionou profundos interesses econômicos do empresariado nacional e europeu, começando assim a pavimentar a trilha para o belicismo, cujas primeiras aplicações foram apontadas como admiráveis por Stauffenberg, que não apenas havia apoiado a invasão da Polônia como também o uso da mão-de-obra escrava dos poloneses em termos similares aos propagados pelo criminoso Hans Frank.

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Stauffenberg era católico, e sugerimos que a revisão e aplicação no plano prático destas convicções e princípios de fé o tenham empurrado à ação de resistência contra Hitler ao observar como este atentava contra o povo alemão, incluindo entre estes os de origem judia, mas, de qualquer sorte, alemães. Em desacordo com o extermínio de judeus e outros amplos coletivos, a posição de Stauffenberg era parcialmente distoante na elite nazista, algo que poderia ser justificado pelo fato de que as práticas do regime encarnavam profunda ofensa às suas crenças morais de origem religiosa. O terrível tratamento reservado a tantos alemães era incompatível com o nacionalismo e o catolicismo de Stauffenberg. A sua trajetória não permite qualificação como compatível com a democracia, mas ao final soube reequilibrar os interesses superiores da nação ao núcleo de suas convicções políticas.

Malgrado a sua reiterada anteposição a aspectos importantes do regime nazista, é inegável que Stauffenberg não foi próximo à democracia ou ao liberalismo, senão que, o que parece ter induzido suas ações foi o pulso de um patriota alemão conservador. Consta que este ânimo de Stauffenberg na defesa de seu país em face da destruição foi também expresso ao ser enfrentado ao pelotão de fuzilamento quando fez soar aos quatro ventos as suas últimas palavras: “Vida Longa para a sagrada Alemanha!” Vida longa para sua pátria que antevia encontrar-se na iminência de destruição, e com ela a de seu povo, ao qual desejava poupar do genocídio que derivaria da aplicação das políticas de Hitler. A sua vida valia menos do que o futuro que aguardava os seus compatriotas, a sua honra como oficial da Wehrmacht impunha o dever de agir na defesa de seu país.

Roberto Bueno – Professor universitário. Doutor em Filosofia do Direito (UFPR). Mestre em Filosofia (Universidade Federal do Ceará / UFC). Especialista em Direito Constitucional e Ciência Política (Centro de Estudios Políticos y Constitucionales / Madrid). Professor Colaborador do Programa de Pós-Graduação em Direito (UnB) (2016-2019). Pós-Doutor em Filosofia do Direito e Teoria do Estado (UNIVEM).

 

2 comentários

  1. Excelente artigo! Faço apenas uma ressalva ao mesmo. Me parece que Albert Speer não era militar como foi assinalado no corpo do texto (“[…] alvo de contenção por parte de alguns militares como Albert Speer[…]”), e sim arquiteto, embora tenha liderado o ministérios dos armamentos.

  2. Speer era civil, pois sabia que se aceitasse um posto militar ficaria sujeito ao alto comando. Como ministro civil só respondia ao Chefe. Era um grande ator, fazendo uma encenação de ignorância e arrependimento em Nuremberg que convenceu os juízes a lhe dar uma pena leve de prisão, em vez da merecida pena de morte, como um dos maiores responsáveis pelo uso de prisioneiros de guerra e civis como escravos, com todas as mortes recorrentes. Muito ridícula é a cena inventada que aparece em seu livro, repetida em alguns filmes, em que se recusa perante Hitler a obedecer à ordem de destruição total do país. Uma recusa ao paranóico chefe no final da resistẽncia significaria pena de morte imediata.
    Também os militares ficaram quietinhos, obedecendo a tudo, enquanto as coisas iam bem e eles se beneficiavam das vitórias. Vendo o final da derrota próxima, com o avanço soviético final de um lado, e o desembarque do dia D em 6 de junho resolveram concretizar seu golpe, mal feito, pelo qual foram duplamente castigados, pelos crimes anteriores e pela traição ao regime.
    Seria bom que os militares e civis que apoiam a ascenção do fascismo no Brasil nos dias atuais estudassem esses acontecimentos, para saber que o regime não durará, e desta vez não ficarão impunes como no de 64.

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